— Devemos ficar atentos, pois as bombas estão caindo no Cambuci, no Belém e aqui bem próximo, na Rangel Pestana, no cine Olympia — fala Bartholomeu a seus familiares, na manhã de 16 de julho de 1924.
— E a Carmela, onde está ?
— Foi à missa. — Responde Felícia, sua esposa.
– Hoje é seu aniversário, dia de N. S. Do Carmo, ela está muito feliz e seu noivo, meu irmão Francisco, virá à noitinha trazer um mimo pra ela. Ele me segredou, não quer que a Carmela saiba, vai fazer surpresa.
— Que união bonita que vai ser — interveio Vito, pai de Bartholomeu que a tudo ouvia.
— Veja Felí, você é minha nora, me deu, até agora, dois netos, o Vitinho e a Aninha, pra lembrar a boa alma da Mamê (Ana Maria Carone Laruccia, esposa de Vito) e agora seu irmão também vai entrar na família, casando com a Carmela, não é bonito isso? Diga a verdade, Felí — continua Vito, alegre, num sotaque bem carregado, traindo sua ascendência peninsular.
Apoiado na amurada do navio, Vito, quarenta e três anos, vê o porto de Santos se aproximar, depois de vinte e cinco dias de viagem, desde o porto de Gênova até aqui. Cercado de seus filhos: Santo, quinze anos, Giovani Batista, treze, Bartholomeu, onze, Francisco, nove e Maria, sete e a esposa Ana Maria, quarenta anos, Mamê como ele, carinhosamente, a chama. Desembarca em Santos na fria manhã de 29 de julho de 1901, dia de São Pedro.
— Paiê, olha lá – diz Giovani Batista, no carregado dialeto polinhanês, falado pelos nascidos em Polignano à Mare, província de Bari, região da Puglia, sul da Itália — aquele homem, como ele é escuro, negro mesmo… — Giovani aponta pra um carregador. Primeira vez que vê um negro, assim como seus irmãos e seus pais que só tinham visto em gravuras de histórias. As crianças, bem próximas dos estivadores, mostram um pouco de receio e Vito tranqüiliza a todos, com o pouco conhecimento que tem do Brasil.
— Esses homens são ex-escravos, libertados há poucos anos atrás, são por demais gentis, amáveis, principalmente com crianças, não tenham receio algum.
Agrupados no setor de imigração do porto, Santo e Giovani cuidam dos menores enquanto Vito fala com Ana.
— Pois é, Mamê, vamos ter que nos adaptar às exigências da imigração, não podemos fixar residência na região urbana, como Rio de Janeiro, São Paulo ou outra capital, somos imigrantes e viemos com passagens pagas pelo governo brasileiro pra trabalhar na lavoura, que carece de mão de obra, depois da libertação dos escravos. Vocês viram os negros no porto, eles agora são livres e…
— Paiê – interrompe Santo — eles estão trabalhando da mesma forma, que libertação é essa, afinal?
— Liberdade não quer dizer parar de trabalhar e sim ser livre dos castigos – diz Vito – da humilhante situação de serem vendidos como se fossem bichos, do desumano seqüestro de sua pátria, a África, arrancados do seu meio na mais odiosa transação que a humanidade conheceu. Vocês vão conhecer melhor eles e aí vão saber por que eu disse que eles são boas pessoas.
– Bem, filhos, estava falando pra mamãe que vamos ter que nos acostumar com muitas coisas novas, em alguns aspectos melhores e em outros nem tanto, mas tudo é questão de adaptação.
— Ma, Vutu, – lamenta Ana, no dialeto choroso – nossos amigos, parentes, conhecidos estão todos em São Paulo, eles fizeram até a igreja de São Vito, me escreveu a prima Conceta que lá vive há mais de seis anos. Longe da minha Polignano tinha pelo menos a esperança de viver com meus conterrâneos. E agora… Pra onde vamos?
— Calma – interveio Vito – não é nenhuma tragédia, por favor, optei por um lugar onde tem bastante italiano também, vamos nos adap…
— Ma, Vutu, não são polinhaneses, devem ser todos da alta Itália e você sabe como esses milaneses, vênitos, nos tratam, esses magna-pulenta (come polenta) de nariz empinado…
— Bem, concordo com você – diz Vito – mas veja a minha situação, Ana, sou construtor de casas, que vou fazer na lavoura? Nada… Preciso de área urbana pra trabalhar e ganhar dinheiro… Com cinco filhos e você, se vou pro mato vou ter que pegar a zsapa (enchada) e plantar tomates, cebola e batatas. Se eu em Polignano só via esses vegetais na mesa, pra comer, na impossibilidade de ir pra São Paulo ou Rio de Janeiro optei por Petrópolis, cidade serrana do Rio. Tenho informações de amigos de que lá o ar é muito bom e por ser cidade muito importante na época da monarquia, tem um bom centro urbano, uma grande fábrica de macarrão, que por coincidência os donos são italianos, uma cervejaria e muitas famílias abastadas construindo suas casas na região. Com o fim da monarquia, Petrópolis vai crescer muito.
Bartholomeu descansa sobre a mesa o livro que lê e começa a lembrar, novamente como faz todos os anos no aniversário dela. Olhos vermelhos e umedecidos, entra nos detalhes, como se fora a primeira vez, maldizendo as ocorrências daquele dia que nunca mais vai esquecer.
— Por que, meu Deus, por que ela tinha que ir na janela? Pois é Testy, amargo aquele dia, aquele gesto, aquela sangrenta necessidade de bombardear São Paulo, aquele maldito homem que não satisfeito em assassinar centenas de pessoas inocentes, num governo decrépito e claudicante, se arvorou, mais tarde, como principal defensor da exploração do petróleo no Brasil. Não sei se ignorando os bombardeios e as mortes ou por simples pouco caso, por se tratar de São Paulo, puseram o nome do facínora na refinaria de Cubatão, aqui dentro do estado de São Paulo quando nós tínhamos o nome de Monteiro Lobato, grande e legítimo batalhador pela nossa independência petrolífera.
Pergunto a meu pai, Bartholomeu, porque essa revolução é pouco comentada e a que mais se fala é a de 1932, constitucionalista. Chego até a pensar que ela só existiu na cabeça dele.
— Pois é, Testy, uma revolução aparentemente sem nenhuma expressão, em que um grupo de militares descontentes com as mazelas do governo, se organizam em torno de Izidoro Dias Lopes que arregimenta forças civis e militares em São Paulo, Paraná e todo o sul, desperta preocupações no governo federal e se transforma na célula mater da famosa Coluna Prestes.
Essa foi a última vez que Bartholomeu lembra a morte da irmã. Meses depois morre aos sessenta e oito anos, em 1958.
Estou em minha sala, leio o jornal do dia e no caderno de literatura tomo conhecimento do lançamento, naquele mês, em 1996, do livro As Noites das Grandes Fogueiras – uma história da Coluna Prestes do jornalista Domingos Meirelles. Aí está, alguém se lembra do assunto e o resenhista do jornal destaca, entre outros tópicos, a revolução do 24, como meu pai a chamava. Converso com os livros que estão na frente, esperando ser lidos há vários anos, não consigo, mas mesmo assim obtenho uma concessão e só três anos depois do lançamento, começo a ler As noites… com muito interesse. Nas páginas 126/7 leio um trecho que me causa uma emoção indescritível; no capítulo “A Estratégia do Terror”, Meirelles relata: “Nesta manhã de terça- feira, a artilharia do Exército parece empenhada em aumentar ainda mais o sofrimento, a morte e o luto entre as famílias pobres do Brás. Desde as primeiras horas do dia o bairro está sendo impiedosamente castigado por uma chuva de fogo e aço. As granadas de tempo, percussão e de retardo reduzem prédios inteiros a montanha de escombros”. Passados quase quarenta anos, posso avaliar melhor o sofrimento e a revolta de meu pai.
Estabelecidos já em Petrópolis, Vito e Ana resolvem homenagear a pátria que os acolhe com uma linda menina, a sexta filha e única brasileira da família. Santo e Giovani Batista trabalham na fábrica de macarrão e na cervejaria e estudam à noite, Bartholomeu e Francisco ainda só estudam, são pequenos. Anos mais tarde também fazem o mesmo. Carmela dá seus primeiros passos sob o olhar vigilante da Maria e a felicidade mora na residência dos Laruccia.
Mama! – Chama Bartholomeu – Estou jogando futebol na escola e sou um craque.
— Ma o que é um claca? – Pergunta a mãe beijando o garoto, e os filhos riem da dificuldade da mãe em assimilar algumas palavras do português, trocando erre por ele. Convivendo com colegas e amigos na escola e no trabalho, os filhos absorvem rapidamente a fluidez e o jeito do petropolitano de falar.
— Paiê, sabe como mamãe chama o pernil de porco?
– Como? – Vito quer saber.
– Peneu de sporqui. – Explodem em gargalhadas dos filhos.
— Então, Vito, como vai seu trabalho? – Pergunta Ana.
– Melhor impossível, Mamê, tenho conseguido bons contratos de construção e meu trabalho está agradando. Eu sinto isso, você sabe, quando a gente não agrada, logo, logo se percebe e quando, ao contrário, agrada, se percebe de imediato. Este clima de felicidade e alegria dura até quando Ana Maria começa a sentir dores.
— Vutú, não estou bem.
Vito sabe que Ana não se queixa à toa, se sente dores e se queixa, é porque a dor é muito forte. O médico examina Ana sem estabelecer de pronto um diagnóstico definitivo, mas suspeita de coisa séria e não quer intranqüilizar a família. Prefere pedir mais alguns exames. O recém aparelho inventado de raio-x deve trazer um pouco de luz para a dúvida. Ana submete-se e este exame, que traz uma resposta nada confortável: Ana está com câncer. Vito, ao saber, chora.
— Sr. Vito – diz o doutor – estamos em plena era de progressos e já existem tratamentos bem adiantados. Com o término da grande guerra surgem novos medicamentos e centros de tratamento. No momento, o melhor é o hospital Santa Catarina, em São Paulo. Vito não espera, quer levar Ana pra São Paulo.
— Ana, vamos pra São Paulo e você vai ficar boa, não se preocupe.
Ao hospital Santa Catarina vão…
— Ma Vutú, e as crianças? Quem vai olhar elas? Elas precisam de nós, elas…
— Calma – interrompe Vito – não são mais crianças… Já são adultos, Mamê. A Maria e a Carmela cuidam da casa e os marmanjos trabalham e protegem a casa até nossa volta. Eles são bem ajuizados e não tenhas nenhum receio que vai dar tudo certo.
Dito e feito, apenas com um diferencial: enquanto o tratamento de Ana persiste, Vito não perde tempo, arruma, com certa facilidade, trabalho e o melhor: o ganho pelo mesmo serviço é bem maior.. Corre ao hospital contar a Ana.
— Mamê, como você se sente? Bem? Ótimo. São Paulo tem mais construção do que qualquer cidade do Brasil inteiro, pagam muito bem e tem serviço que não acaba mais! Estou pensando em trazer todos pra cá… O que você acha?
— Vutú, você é que sabe, fico contente em ter meus filhos de volta, isto é, junto comigo, mas precisa ver se eles querem…
— Querem, sim, apenas o Giovani que arrumou uma namorada pode não querer vir. Mando um telegrama explicando e vai dar tudo certo. A colônia dos bareses é muito grande no Brás, e isso vai ser forte argumento pra convencer os garotos. Ana, quero que você fique curada e pra isso não estou olhando despesas. Eu preciso de você Ana, ou melhor, nós precisamos muito de você, querida, fique boa logo, por favor.
Ana olha nos olhos de Vito, marejados ambos, suspira longamente…
— Vutú, só Deus sabe se vou ficar boa e quando… Estou sendo bem atendida aqui, não tenho queixa. Quero só que você me prometa uma coisa… Se eu não melhorar, quero morrer em casa, ao lado dos meus filhos…
— Ma quê? Para de falar nestas coisas, você vai ficar boa e…
— Sr. Vito Laruccia, capa tosta (cabeça dura), eu sei o que estou falando, quero que você me prometa!
— Tá certo, tá certo, mas não vamos falar desse assunto agora.
Ana faz o tratamento e resiste três anos, e em 1922 morre, rodeada pelos filhos, em sua casa na rua Assumpção, 115, no Brás.
Com seus filhos já emancipados e todos os homens casados, Vito, Maria e Carmela moram juntos. Bartholomeu, casado com Felicia Monaco, tem dois filhos, um armazém de secos e molhados, assim chamados os empórios de proporções menos acanhadas. Agora com a Carmela, o pai Vito e a Maria morando juntos na casa dos fundos do empório. As janelas dão para a Rua Assumpção, e o empório localizado na esquina da Travessa do Gasômetro, viela sem saída, existe até hoje. Felicia e as cunhadas estão reunidas na sala, conversando alegremente com o sogro, Vito, que externa sua alegria e prazer em ter o Francisco, irmão de Felicia, noivo de Carmela, como futuro genro, na eminência do casamento. Francisco vai vir à noite para trazer um presente no aniversário de Carmela.
— Felí, como estou contente. A Carmela também, não cabe em sí de tanta felicidade. Olha que ela gosta mesmo dele, heim? Hoje, 16 de julho de 1924, dia de N. S. Do Carmo, o nome e aniversário da Carmela. Pode haver tanta felicidade assim em que lugar do mundo, Felí? Me diga, me diga onde.
Carmela chega contente da missa rezada na igreja de São Vito Mártir, paróquia construída e mantida pelos italianos de Polignano a Mare, Bari, residentes no Brás. O dia está frio e ela se prepara pra fazer chocolatada pra todos. Veste o avental, novo. Carmela brinca com Dom Vito: hoje eu faço vinte e dois anos, o que vou ganhar de presente do querido paizinho?…
— Você foi a missa que mandei rezar em sua homenagem. Responde Vito em trágica e involuntária profecia.
Ouve-se silvos de bombas lançadas, não se sabe de onde e nem pra onde, com explosões próximas e distantes, trazendo temor e inquietação às mulheres na sala. Repentinamente Carmela grita
— Meu Deus, esqueci de fechar a janela do meu quarto, esperem um pouco que vou fecha-la!
— O silêncio da tarde fria, aconchegante com o chocolate da Carmela, é rasgado com violenta explosão, seguida de pavoroso e angustiante grito, vindos do quarto da Carmela. Todos correm, entram no aposento e se deparam com um quadro que jamais esquecerão, pelo resto de suas vidas: Carmela, estendida no meio dos escombros, no lugar do lindo rosto uma massa ensangüentada, arrebentada pelos paralelepípedos arremessados pela bomba de potência inimaginável. Bartholomeu, com a irmã nos ombros, sai pela rua gritando, desesperadamente
– O que voces fizeram com minha irmã, seus assassinos?!!
Carmela ficou nove meses enterrada como indigente, no cemitério do Araçá, pois a identificação só foi possível graças ao avental que ela vestia pra fazer o chocolate, e com o qual está sepultada até hoje, no cemitério da Quarta Parada.
Nas páginas 164/5 do livro As Noites das Grandes Fogueiras, Domingos Meireles destaca: “… o exército trouxera do Rio o que havia de mais moderno na aviação militar: seis fantásticos bombardeiros Breguet, de fabricação francesa (…) O poder de fogo desses aviões é assustador (…) esse avião podia, ainda, carregar seis bombas de vinte quilos em cada asa. Com esses aviões, o exército pôde reduzir São Paulo a uma montanha de escombros. Foram utilizadas bombas de altíssimo poder de destruição, proibidas na convenção de Haia, depois da I Guerra Mundial (…)”.
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