Na década de 70 era comum, depois do almoço, as pessoas ficarem sentadas em praças, somente para ver o movimento e depois retornar ao trabalho.
A Praça da Sé era a mais procurada, pois ali se reuniam os mais inusitados personagens da cidade como os camelôs, uns apresentando truques de mágica, outros jogando capoeira. E tinha o “Homem da Cobra” que colocava duas grandes maletas no chão, garantindo que no seu interior havia uma cobra e um lagarto e que ali haveria de ser o palco para a grande luta entre os dois animais.
E se formava uma grande roda de curiosos para ver a tal disputa.
Quando já havia muita gente em volta, ele sacava de outra maleta um vidrinho contendo o milagroso óleo de Peixe Elétrico do Amazonas, que curava de tudo, desde calos nos pés até bronquite, queda de cabelos, enfim, um santo remédio.
Claro que após vender inúmeros vidros do remédio milagroso ele ia embora, e a tal briga da cobra com o Lagarto não se realizava (aliás, nunca cheguei a ver os tais animais).
Esse era o tipo do malandro paulista.
Mas havia um que chamava a atenção – tipo do malandro mesmo, como se saído das músicas de Noel Rosa: sapato de duas cores, terno branco, camisa preta, chapéu de aba curta, gravata branca, maneiro no falar – o “Mãozinha”.
Esse nome se deu porque em plena Praça da Sé ele vendia um “estranho aparelho”, como ele costumava chamar, e que tinha a forma de uma mãozinha, plastificada com um papel tipo celofane vermelho.
A tática era a mesma do “Homem da Cobra”.
Ele prometia que o “aparelho” permitia ver além da matéria que envolvia o objeto. Como se fosse um aparelho de Raio X.
E para comprovar, estendia a mão em direção do sol, e pedia a alguém da platéia que colocasse o “aparelho” a uma distância de 15 centímetros e focalizasse sua mão.
– O que o sr. vê? Perguntava ele.
– Estou vendo os ossos da sua mão – responde, ainda incrédulo, o convidado.
Ato contínuo, ele tira do bolso um ovo, e convida outra pessoa da assistência, que nessa altura já reúne mais de 40 pessoas em volta dele, coloca o ovo para o alto, e pede para a pessoa observá-lo através do inusitado aparelho.
– Estou vendo a gema do ovo – retruca outro, com cara de espanto.
Ai o Mãozinha desfere o golpe de misericórdia.
– Este pequeno aparelho – diz ele – não é para olhar nem gema de ovo, e tampouco ossos de sua mão, mas imagine os amigos podendo ver através das roupas das mulheres.
Aquilo agita a cabeça dos presentes, na maioria homens, e esta possibilidade faz esgotarem os aparelhinhos que em poucos minutos vão parar nas mãos dos presentes.
Dinheiro no bolso, o Mãozinha vai embora.
Eu comprei um destes “aparelhinhos mágicos” e, claro, não vi absolutamente nada do que foi prometido. Resolvi então decifrar o mistério rasgando o Celofane que envolvia o papelão em forma de uma pequena mão, e descobri que no meio do papel celofane havia uma pequena pena de galinha prensada, no meio do papel… Era ela quem distorcia a imagem, quando olhada contra a luz, dando-se a impressão de se enxergar os ossos da mão ou da gema no interior do ovo.
Hoje me pego a sorrir daqueles tempos em que até a Malandragem era ingênua e em que entrávamos nestes golpes tão infantis. Hoje aqueles “malandros” da Praça da Sé foram substituídos por outros, estes sim perigosos.
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