O Bêbado

Um amigo meu, Ivan Castelo Branco, que costuma escrever para este site foi o meu incentivador. Ele sabe que também sou apaixonado pela escrita, embora não tenha sua inspiração e talento. Me disse que aqui podemos expressar nossos sentimentos e amor por esta maravilhosa metrópole que é São Paulo. Mas eu respondi que não saberia o que escrever. Aí nos lembramos de uma figura notória que vivia perambulando pelas ruas lá da Vila Nhocuné, onde moramos quando crianças. O meu relato a seguir fala de uma pessoa que não teve oportunidades, mas que revelou um caráter e bondade ímpar. Seu exemplo de vida nos dá a sensação de que o ser humano tem jeito e de que ainda temos muito a evoluir, embora ainda estejamos mais perto dos primatas. Espero que gostem.

Dava pena de ver. Aquela figura em trajes esfarrapados, olhar triste, as pernas cambaleantes mal podendo se sustentar em pé. Como diziam os moradores lá da Vila Nhocuné, Zona Leste de São Paulo, era o próprio retrato da miséria humana. Havia tantos anos que ele ali chegara que acabou se tornando uma figura característica na região. Seu nome? Ninguém sabia ao certo. O chamavam Zé Padeiro. O porquê não sabiam explicar. Talvez tivesse sido, na juventude, um mestre na arte da panificação, ou a explicação fosse o fato de ter as feições que lembrassem uma broa de milho. A verdade é que não tinha moradia, nem amigos ou família. Não se sabia nada sobre seu passado. Alguns arriscavam palpites e criou-se a lenda de que Zé havia sido abandonado pela mulher. A dor do desamparo o fizera largar tudo passando a morar nas ruas. Mas isso ninguém confirmava. Só encontrava alguma ajuda na igreja local, pois a casa de Deus acolhe os excluídos. No mais vivia de pedir auxílio nas ruas, mendigar uns trocados e tocar a vida. Não era mal de coração, mas sua aparência assustava as pessoas. Roupas maltrapilhas, cabelo seboso, barbas enormes e andar oscilante. Quando as mulheres o percebiam tratavam de atravessar a rua, pois achavam aquele homem abjeto e não entendiam como o deixavam perambular pelas vias. As mais intransigentes realizavam visitas regulares à delegacia exigindo a prisão do pobre ser. Mas o delegado, por seu lado, dizia que Zé Padeiro nunca fizera nada de errado e, portanto, não havia motivos para prendê-lo. As crianças zombavam dele, faziam chacotas e lhe puxavam as barbas quase a ponto de arrancá-las. Pobre Zé. Tentava escapar dos pirralhos, mas sua voz soava quase incompreensível. Uma verdadeira algaravia. Os galhofeiros diziam que ele falava um idioma estrangeiro, caindo na gargalhada. Pernoitava sempre em lugares diferentes. Uma noite dormia num banco de praça e na seguinte se alojava em algum sobrado abandonado. Nos dias de chuva buscava qualquer abrigo, mas invariavelmente, não encontrava nenhum. Seu único vício era a "mardita cachaça". Tornara-se alcoólatra na expectativa de que com a bebida encontraria algum refúgio. Peregrinando de bar em bar e sem dinheiro para alimentar aquele costume nocivo contava com a piedade dos comerciantes para conseguir algumas doses. Muitas vezes era escorraçado aos pontapés, tratado como lixo e deixado no chão como cão sem dono. Quantas vezes não desejou morrer, pois acreditava que assim poderia se encontrar com o Criador e viver no Paraíso. Era dura a vida do Zé Padeiro. Andar pelas ruas sem companhia ou compreensão, sobrevivendo nas adversidades. Aquele dia amanheceu cinzento. Provavelmente iria chover. O Zé tinha dormido numa esquina em que de um lado havia uma farmácia e do outro o boteco do Alemão que, às vezes, lhe dava umas biritas. Lá por volta das nove da manhã o movimento começava e ele, já desperto, se preparava para mais um dia de privações. À sua frente um garoto de mais ou menos 10 anos brincava com uma bola de futebol. Distraído, não se dava conta do carro que vinha em sua direção com velocidade acima do normal. O Zé entorpecido pela cachaça tentava avisar o incauto garoto que não percebia o perigo que se avizinhava. A cada momento o carro se aproximava, o Zé tentando chamar a atenção do guri, mas as palavras não lhe saiam. No instante fatal coragem e dignidade invadem o Zé que se atirando contra o rapazote o empurra para a calçada. A freada brusca e um baque surdo revelam um corpo estendido na rua. O ferimento na cabeça e o sangue viscoso escorrendo para a sarjeta. Uma garoa fria e cortante chegou e com ela o fim do Zé Padeiro.

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