Vivi no Cambuci toda a minha infância. Na Rua Dom Duarte Leopoldo a rua passava mansa na década de 60, com paralelepípedo, serena e silenciosa, apesar da proximidade com a Lins de Vasconcelos. Foi ali que ouvi os primeiros relatos da violência urbana, sem nada, com a cor da miséria humana, aos frangalhos. Eu nunca soube ao certo, mas uma menina de 13 anos foi assassinada a bala. Deu no jornal, pessoas foram chegando indignadas e tristes, num silêncio de alma estarrecedor. Da sacada da casa da vizinha acompanhávamos o silêncio. Nunca me esqueci do sentimento de impotência desse dia.
Bem ao lado, passadas umas duas casas, tinha a vendinha do seu Altino. Vendia vassouras, rodos, sabão Omo, cereais, uns docinhos de leite, outros de amendoim, que eram entregues pelo caminhãozinho azul escuro escrito NEUSA. Também tinha refrigerante, leite, pão, Tubaína. Foi ali que comprei uns docinhos quando, aos 6 anos, ganhei um dinheirinho do tio Pedro, um velhinho muito amável, que usava chapéu, quando o ajudei a ganhar uma partida de buraco, junto com o meu pai e outros parentes. Do outro lado, a feira às quintas, com pastel do japonês, as laranjas doces, vendia-se roupas lá no fim. O peixe, os cereais, a banquinha do baiano vendendo alho e pimenta no meio de tudo, o coco ralado na hora. Eu respirava São Paulo e respirei com mais intensidade a rua Albuquerque Maranhão e, de noite, pela janela, eu vivia a magnitude das luzes da cidade. Nada mais lindo que São Paulo à noite. Um espetáculo indescritível, vivo, cheio de energia, de força, literalmente, cheio de luminosidade de alma. Ali, da janela do meu quarto, olhando para as luzes, eu preparava o meu futuro, ouvindo a luz da lua, a quietude da noite… sonhava.
A janela era pintada a óleo cinza… como do passado…e a vida ia…
Bom mesmo eram os doces comprados na Lins de Vasconcelos, na loja de um japonês chamado Shiguero. Doces de batata roxa, maria-mole em pedaços grandes, doces de leite, balas de goma, delicados, chocolates. Eu ia lá até de noite, na hora da vontade do doce. Um dia levei até uma multa por colocar o carro na contramão bem na porta da loja do Shiguero. Mas eu já trabalhava, não era tão garota mais … paguei a multa.
Freqüentei o Bixiga, vivi o doce cheiro do bairro com o maior amor desse mundo. Vivi intensamente as festas italianas, a de Santa Acheropita, de São Genaro, na Moóca. Jamais me esquecei, na festa de Santa Acheropita, num sábado à noite, um velhinho italiano, de terno e gravata borboleta, ao som de violino, num pequeno palco, cantando Funiculi Funiculà com uma alegria inebriante. As mulheres de origem italiana fazendo Fogazza numa mesa imensa, cheia de farinha de trigo e as filas gigantescas se formando para comprar essas maravilhas. Eu e meu então noivo estávamos lá e levamos um bom prato de fogazza para comermos em casa com a vó, minha doce e sábia avó, filha de imigrantes italianos.
Vivi São Paulo com o maior amor. Depois na Vila Sônia…
Hoje, vivo em Florianópolis, expulsa pela violência e pela poluição. São Paulo não me saiu da alma. Hoje faço peças em mosaico lembrando a cidade, MASP, Mercadão e tudo o mais.
Mas eu vou voltar, afinal o paulista pode sair de São Paulo, mas São Paulo não sai de dentro do paulista. A saudade é visceral, mas positiva. Traz vida, sensibilidade e, sobretudo, paixão.
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