1968

Era um tempo em que o Cruzeiro transformava-se em Cruzeiro Novo (NCR$) e eu trabalhava no Hospital 9 de Julho. No fim do dia, pegava o ônibus no Túnel 9 de Julho. Apeava na Praça Dona Benta, para cursar o 2º ano Clássico, no Instituto de Educação Prof. Alberto Conte, em Santo Amaro. O Brasil integrava o mundo via satélite (Embratel) e eu nem assistia ao Jornal Nacional. Levantava-me em um dia e dormia só no outro. Em casa o pessoal assistia Beto Rockfeller.

No Largo 13, o bonde ainda circulava. O metrô chegava em São Paulo. A indústria vivia novo "boom" e bombas explodiam no centro da cidade. Eu, medrosa que era, sempre em sobressaltos. Coração na goela. O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o teatro e acabou com Roda Viva, o espetáculo do Chico Buarque. Artistas foram espancados. Eu assistia “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. “Macaca de auditório”, ia aos programas da TV Excelsior e Record. A Tropicália, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, debochava de tudo.

O governo autorizou mais água no leite com preço mais caro: NCr$ 0,40. Leite que era deixado em vidros nas portas das casas. No ano 1968, o Brasil recebeu grandes empréstimos. E eu sem dinheiro. Os líderes estudantis da UNE comandavam passeatas. Vladimir Palmeira discursava no anfiteatro do Alberto Conte. Eu ouvia. Queria participar das passeatas, mas tinha que trabalhar. Sem tempo de ser comunista, nem isto nem aquilo. Alienada circunstancial. Em um dia de comício, o Diretor chamou a polícia. Eram apenas 20 guardas, postos para correr a pedradas e pauladas. Os jovens, maioria e, muito, muito atrevidos.

Mudar o mundo, nosso sonho mais azul. Era um curso noturno e quem se atrasava não podia entrar. Nossa classe ficava em uma sala no fundo do terreno. Era a última turma antes de virar Ensino Médio. Quase sempre atrasada (tudo parado na Av. 9 de Julho) pulava o muro para entrar. Visão que despertava aplausos de quem passava. Chegava ralada e com a meia-calça furada. Pulava também para sair mais cedo e tomar caipirinha no Bekinho ou um Cuba Libre no Bar 13 dos Amigos ou um Hi-Fi no Amigo Fritz, na Praça Floriano. Eu não “regulava” bem.

Decretado o Ato Institucional número cinco, temia-se qualquer aluno novo. Era comum aparecer agente do Dops na classe, disfarçado de colega. Tudo era censurado e brincávamos falando: “susseios” ao invés de suspeito. O presidente Costa e Silva cassou o mandato dos deputados, fechou o congresso, censurou a imprensa e as artes. Expediu portaria que determinava a proibição da Frente Ampla e a apreensão de livros, jornais e outras publicações. Eu já tinha lido Sexus, Plexus e Nexus, de Henry Miller e Quarup de Antonio Callado. Curtia os filósofos existencialistas e discutia a aldeia global de Marshall MacLuhan.

Capital estrangeiro investiu aqui US$ 541 milhões e o Banco Mundial emprestou US$ 1 bilhão para projetos de desenvolvimento e eu sem um tostão. Era um país que ia para frente. No fim da aula, se eu tivesse algumas moedinhas, parava na pastelaria do Largo 13 e comia um pastel gosmento de carne (pouca carne moída misturada com muito arroz quirera).

Nesse mesmo ano, Martin Luther King foi assassinado. O candidato à presidente, senador Robert Kennedy também. A viúva do presidente John (irmão de Robert), Jacqueline, casava com o armador grego Onassis. Nós, no Brasil, no maior “enrosco”. Muitas prisões sem explicação. Manifestações de rua eram proibidas. Mais que três conversando já era conspiração. “Diziam que a nova esquerda nasceu da pélvis ondulante de Elvis Presley.” Minha contestação maior era tomar um “rebite” para ficar sem dormir e estudar mais.

Em outubro, 1240 estudantes foram presos em Ibiúna (SP) ao realizarem, clandestinamente, o 30º Congresso da UNE. Neste mês eu completava 18 anos e já tinha assistido a filmes e peças proibidas, com minha carteirinha falsificada. Eu usava minissaia e tinha um cabelão. Maiô era de duas peças com a parte de cima com bojo. Pintava os olhos com rímel, como os da Cleópatra.

Em novembro, a Rainha Elizabeth, da Inglaterra, chegava ao Brasil. Eu era rainha do Esporte Clube Estrela do Jardim Mália. Tinha uma coroa de strass e uma faixa verde bordada com purpurina. Na caçamba do caminhão, junto com os jogadores rumo à represa de Guarapiranga. Prestigiar o futebol deles. Definitivamente eu não “regulava” bem.

Em 1968 parecia que tudo ia explodir. Pensando bem acho que os Maias erraram o calendário. Em 1968 eu completei 18 anos e parecia que tinha cem. A sensação era de estar em uma turbulência prestes a aterrissar com o trem de pouso avariado.

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