1950 foi considerado pela igreja católica como o Ano Santo. Isso devido ao congresso eucarístico que se realizava no Rio de Janeiro, que na época era o distrito federal (capital da república). Era também o ano que seria disputado a copa do mundo, depois de 12 anos de interrupção devidos os conflitos da segunda guerra mundial. O mês de junho estava chegando com festa junina para todo lado. Fogueiras, quentão, batata doce na brasa, bombinhas, balões pelo céu, quadrilha, cantigas de roda. A música que mais tocava naquele ano tinha sido gravada por Francisco Alves. "O rosa Maria, venha pular a fogueira, que à noite tá fria. Pega um foguete e um busca pé, venha ajudar a soltar balão. Rosa Maria não faça chiquê, que é noite de São João". E o campeonato mundial também começando lá no estádio do maracanã, que tinha sido construído especialmente para aquele evento. E nem estava totalmente pronto estando o madeirame (andaime) de acabamento, a mostra por toda volta do estádio. Uma semana antes do início da Copa do Mundo, teve a inauguração do estádio com um jogo Paulistas x Cariocas, com vitória da seleção de São Paulo por 3 x 1, mas o gol primeiro do estádio foi do carioca, Waldir Pereira, o Didi que jogava no Fluminense. A copa começou assim sem muita empolgação, mas aos poucos foi caindo no gosto dos que gostavam de futebol. O primeiro jogo com o México, o Brasil ganhou de 4 x 1. Já o segundo jogo no Pacaembu em São Paulo o selecionado brasileiro não passou de um empate com a Suíça por 2 x 2. No terceiro jogo o, Brasil tinha que ganhar de qualquer jeito para se classificar para o quadrangular final, que decidiria o campeonato. Seria todos jogando contra todos , e quem tivesse feito maior número de pontos seria o campeão. E o Brasil ganhou da Iugoslávia por 2 x 0. Para a fase final estavam classificados Brasil, Uruguai, Espanha e Suécia. Já na segunda fase o Brasil pegou a Suécia, e deu uma lavada de 7 x 1. O Brasil inteiro vibrava com aquela vitória. No Pacaembu o Uruguai empatava com a Espanha, por 2 x 2. Na semana seguinte o Brasil jogaria com a Espanha, que era uma seleção forte. A famosa "Fúria" força do futebol da Europa. O Maracanã tinha 186.000 pessoas, bastante empolgadas com a vitória anterior. O jogo numa quarta feira à tarde para que a Europa ouvisse a transmissão à noitinha, começou com o Brasil jogando na base do rolo compressor. Um, dois, três gols, e a torcida começou a cantar a marchinha de João de Barro (Braguinha) TOURADAS DE MADRI. A musica era assim… Fui numa tourada de Madri. Para, ra, ti bum, bum, bum, para tim bum,bum. Quando a torcida terminou de cantar, o jogo estava em 6 x 1 para o Brasil. Ninguém tinha duvida que o Brasil seria o campeão do mundo naquele ano da graça de 1950. Quando chegou no domingo em que o Brasil jogaria com o Uruguai. logo de manhã meu pai me mandou comprar o jornal. Era a Gazeta Esportiva que trazia na primeira pagina a foto de todos os jogadores da seleção brasileira de pé em fila indiana. E em letras garrafais dizendo: ESTES SÃO OS CAMPEÕES DO MUNDO. Em São Paulo estava aquele tempo lusco-fusco, com a famosa garoa paulistana. Já no Rio de Janeiro, onde estava o palco do jogo, o Domingo era de céu azul, e aquele sol de fim de outono, segundo os meteorologistas, ótimo para a pratica do futebol. O jogo começou e como era de se esperar a garra Uruguaia tentaria impedir de qualquer jeito que a máquina de fazer gols não chagasse as redes do goleiro Maspolli. E isso aconteceu por todo o primeiro tempo. O jogador Bauer do São Paulo F.C. (Oriundo do Itaim) o único paulista da seleção, já era chamado de o monstro do maracanã, e uma das esperanças de vitória do Brasil. Logo que começou o segundo tempo, Friaça marcou para o Brasil. Foi uma festa. No Itaim o foguetório era muito grande. Meu pai soltava tudo quanto era foguete que vinha a suas mãos. Minha mãe o advertiu: Ângelo deixa para soltar fogos depois que o jogo acabar. – Que nada mulher, o empate é nosso e já estamos ganhando de um a zero. Esse jogo é barbada. Mas aos 15 minutos Schiafino empatava o jogo. Ainda assim seriamos campeões, pois bastava o empate para o Brasil ser o campeão. Mas aos 36 minutos do segundo tempo um tal de Gigia, marcava o segundo gol do Uruguai e deixava 200 mil pessoas mudas no maracanã. E até o fim do jogo não fomos capazes de empatar a partida. Em casa roendo as unhas ouvia o locutor Pedro Luis irradiar o final da partida soluçando, por pouco o choro não foi uma verdade. Mas mesmo assim enalteceu a brilhante vitória dos uruguaios.
Uma multidão de pessoas saía do estádio sem dizer uma só palavra. O goleiro Barbosa acusado de falhar no gol da derrota, com uma sacolinha na mão, onde estava sua chuteira, tomava um ônibus e ao descer na rua em que morava, via uma enorme mesa contendo comida e bebida mas ninguém para saborear, apenas cachorros a lamber os beiços. E lá em casa meu pai estava com a cara no chão, pensando naquilo que dona Orlinda tinha lhe dito na hora do gol do Brasil. Coisas do futebol.
Mário Lopomo