Zona do meretrício

Morávamos na Rua Alfredo Maia, número 306, no bairro da Luz. O sobrado existe até hoje, mas creio que esta sendo usado para fins comerciais. Eu estudava no Liceu Coração de Jesus, na Alameda Dino Bueno. Era uma longa caminhada até o colégio, pois não havia outra forma. Além disso, levantava-me cedo, pois deveria estar pronto para a missa das 7h30 antes de seguir para as aulas. No Liceu a missa era diária.

Eu subia a Rua Doutor Rodrigo de Barros, virava a esquerda na Avenida Tiradentes e depois para direita em direção da Igreja Nossa Senhora Auxiliadora. Continuava pela Rua Três Rios, tomava a esquerda subindo pela Rua Silva Pinto até encontrar a Alameda Dino Bueno. Ufa! Ainda bem que eu era jovem.

Porém, quando ainda na Rua Silva Pinto logo após atravessar a Rua José Paulino, na minha esquerda, eu passava nas esquinas das ruas Aimorés e Itabóca (a Itabóca agora se chama Rua Professor Cesare Lombroso). Nessas duas ruas, as casas eram alojadas por prostitutas. Quase todas iguais, com venezianas de madeira pintadas de azul royal. Era a zona do meretrício, mais conhecida como "a zona".

Não era fácil, como garoto, ter que passar pelas duas esquinas. Algumas das "garotas" permaneciam ali no anseio de entusiasmar clientes. Eram até mesmo bonitas, mas extravagantemente trajadas. Afinal, deveriam mostrar o produto para ganhar o "pão de cada dia". No mais das vezes elas buliam com a gente. Eu morria de vergonha, mas continuava caminhando. Depois de algum tempo, eu já sabia como driblá-las.

Mamãe sempre dizia que as prostitutas carregavam doenças. Não fazia bem ideia do que era, mas mantinha distância, pois tinha medo que algumas delas me tocassem. Ingenuidade juvenil.

Quando eu cursava a segunda série ginasial, o meu favorito colega de classe era o Luis, Luis Lopomo. Ele dizia que seu pai era delegado. Nesse ano era ele com que eu me afinava completamente. Era engraçado, inteligente e desafiava os padres. Conversava durante as aulas e enfrentava os castigos como ninguém. O castigo maior era permanecer depois das aulas e copiar páginas do livro "O Navio Negreiro". Claro, sem contar o bofete do padre com o badalo do sino no “cucurucu”. O clérigo Cury era especialista em dar com a sineta na cabeça dos alunos. Que Deus o tenha. O liceu era rígido no ensino, mas de qualidade. Devo a eles a melhor educação.

Um dia ele chegou-se e disse que já sabia falar inglês:
– “Explica Luis como é isso?”.

Ele emitia sons que vou tentar escrever:
– "Quem col uaite marusca apixalete tom mix tom bum".

Ele dizia isso tão rápido que eu não conseguia controlar meu riso. Não posso esquecer o Luis "falando" inglês. Ele não perdia a oportunidade de gozar-me sobre a passagem nas famosas esquinas:
– “Ei Anthony, vamos dar uma entradinha naquela rua só para ver como é? Vamos lá só para perguntar o preço”.

O governador senhor Lucas Nogueira Garcez fez acabar o negócio das duas ruas. Fim ao meretrício local. Os comerciantes da área provavelmente ficaram satisfeitos com a medida.

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