Duas histórias vividas no Hospital das Clínicas

De vez em quando eu gosto de me lembrar dos tempos de enfermagem, tempos gostosos de trabalho pesado em hospitais e empresas dessa nossa cidade de São Paulo. Minhas melhores lembranças são do tempo em que trabalhei no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo – USP que considero como minha segunda casa e aqueles que trabalharam comigo na época, considero como meus familiares, meus irmãos. Ás vezes encontro alguns deles pelas ruas de Pinheiros e o assunto de nossas conversas é sempre o mesmo: o HC.<br><br>Mesmo longe, aposentados ou afastados há quase 40 anos, parece que a gente não consegue se desligar, não conseguimos cortar o cordão umbilical que nos liga ao hospital. Quer um exemplo? Perto da minha casa, na antiga Rua Nova Paulicéia mora uma senhora que foi Atendente do Instituto de Ortopedia e Traumatologia e deve estar beirando os 80 anos. Toda vez que a vejo lá vem história e a pergunta indefectível:<br>- "Você tem ido lá?” ("Lá" é o HC).<br>- “Não, não tenho… Só vou às consultas no INCOR, sabe como é. O meu coração não esta lá aquelas coisas…”.<br>- “Eu vou, pelo menos duas vezes por semana, estou cantando no coral da Associação… Vai lá cantar com a gente…”.<br>- “Vou pensar seriamente, semana que vem passo lá…”.<br>- “Mas vai mesmo!”<br><br>É assim, somos um bando de velhos saudosos dos bons tempos das correrias pelos corredores e enfermarias do hospital, da adrenalina borbulhando nas supra-renais, do cansaço, da tristeza, da alegria do "hoje é dia do pagamento"… Se me permitem, vou contar duas histórias que dizem respeito a coisas, acontecimentos, rotinas do pessoal da Enfermagem (com "E" maiúsculo) do HC:<br><br>Armênia<br><br>A Armênia era uma Auxiliar de Enfermagem da Neurologia, concursada nos primeiros anos de funcionamento do HC, provavelmente em 1946. Nordestina, muito bonita, corpo perfeito, seios fartos, sorriso encantador, ria às gargalhadas por qualquer coisa, às vezes nem tão engraçadas. No desempenho de suas funções era uma máquina, preparava e ministrava as medicações com competência e rapidez; era solteira, gente finíssima, gostava de falar de sua vida em São Paulo:<br>- “Sabe, Joaquim, eu entrei para a enfermagem porque sempre gostei… Lá em Alagoas, quando criança, via as enfermeiras da Santa Casa e achava bonitas aquelas mulheres vestindo branco… Sabe qual foi o dia mais feliz da minha vida? Foi quando eu passei no concurso para entrar no HC. Fazia dois meses que eu estava em São Paulo e o HC foi meu primeiro emprego… Devo minha vida ao HC…”.<br><br>Uma noite, estávamos preparando as medicações quando eu reparei que a Armênia estava com dificuldade para ler as prescrições das papeletas:<br>- “Qual é o problema, Armênia? Não dá para ler a letra do doutor?”.<br>- “Não é isso! Eu é que não estou enxergando direito… A noite fica mais difícil para ler… Estou velha, acho que já dei o que tinha que dar…”.<br> – “Bobagem Armênia… Presbiopia se resolve no oftalmo… Coloca uns óculos nessa cabeça a e você volta a enxergar direitinho…”.<br>- “Não Juca, estou cansada, já tenho tempo para aposentar e eu não estou a fim de usar óculos (risos). Pode crer que eu estou parando…”.<br> <br>E realmente a Armênia se aposentou. Naquele tempo, para o aposentado receber o primeiro pagamento demorava cerca de três meses e, durante três meses, pelo menos uma vez por semana, recebíamos a visita da Armênia:<br>- "Fui lá no RH para ver se eles apressam meu pagamento e aproveitei para passar aqui e ver vocês…".<br><br>Nós, funcionários, recebíamos nossos proventos pelo Banespa e a Armênia, aposentada, manteve a conta na agência do HC, de modo que, todo mês, no quinto dia útil, ela marcava ponto no hospital. Um dia a encontrei no “Pateo dos Milagres":<br>- “Veio receber, não é?” <br>- “Vim! Depois eu passo lá na neuro para dar um abraço 'nocês'”.<br><br>Era a hora de meu almoço… Quando voltei havia uma aglomeração na porta do banco e muitos colegas por lá. As meninas chorando e a senhora Maria José, nossa chefe, conversando com um policial. Perguntei o que estava acontecendo:<br>- "A Armênia sofreu um infarto fulminante na fila do banco… O coração explodiu, ela está roxa, sangramento maciço no tórax… Já deve ter caído morta…".<br><br>Vi quando seu corpo saiu em uma maca; estava coberto com um lençol com o carimbo HCFMUSP- Neuro… Até seu último minuto ela esteve com a gente, no lugar que ela mais gostava.<br><br>Terror no túnel<br><br>Terroristas ou não terroristas, quando presos pelas forças de repressão naqueles chamados “Anos de Chumbo", geralmente chegavam ao HC bem esbodegados, com fraturas, concussões cranianas e quejandos, vítimas de tiros ou tortura no "paulígrafo". Ficavam internados e sob vigilância, mas, estando melhores, aproveitavam-se de algum descuido de seus carcereiros e fugiam; muitas fugas deram-se a partir do terceiro andar, onde ficava a radiologia e a entrada do túnel que atravessava o subsolo do hospital, o subsolo da Avenida Doutor Enéas e terminava no necrotério da Faculdade de Medicina, na Avenida Doutor Arnaldo.<br><br>Para coibir essas fugas, instalaram grades a meio caminho do túnel e desativaram uma geladeira que passou a ser corpo da guarda de militares. Com o passar do tempo os pracinhas foram dando um jeito de transformar aquele frigorífico em uma espécie de sala de estar confortável com um bom lugar para descanso. Todo aquele aparato não impedia o trânsito de cadáveres pelo túnel, claro, pois apesar de tudo, pacientes entravam em óbito e precisavam ser levados para a faculdade.<br><br>O esquema de vigilância funcionava da seguinte maneira: quando havia algum paciente "diferenciado" internado, uma pequena guarnição ficava no túnel, geralmente um sargento, um cabo e três soldados que, com o passar dos dias, iam afrouxando a vigilância; "voavam" para a Rua Teodoro Sampaio para comprar lanches e cigarros ou ficavam no anfiteatro da faculdade assistindo necropsias ou vendo TV, mas sempre ficava um soldado no frigorífico desativado do túnel marcando presença…<br><br>Uma bela madrugada foi preciso levar um óbito para a faculdade e duas das meninas da neuro foram escaladas, uma delas era a Maria (nome fajuto) com bastante experiência e a segunda, "novatíssima", ainda naquela fase de aprendizado, mas bastante curiosa:<br>- “O túnel não tem iluminação?” <br>- “Não!” <br>- “E essas velas acesas, servem para que?” <br>- “É o pessoal do candomblé e da umbanda que acende para os orixás…”.<br>- “E aquela porta, o que é?” <br>- “É uma geladeira desativada… Lá não tem nada…” <br>- “Vamos dar uma olhada?” <br>- “Se você insiste…”<br><br>E abriram a porta. E acordaram o pracinha que dormia em um colchonete coberto com um lençol e que se levantou em um pulo, gritando assustado:<br> -"O que foi? O que foi?".<br><br>Maria deu um grito e correu. A colega nem gritou, caiu desmaiada de primeira. O soldado correu para segurar a maca com o cadáver que começava a voltar pelo discreto declive do túnel, a Maria na frente, a maca com o defunto atrás…<br><br>Moral da história: a Maria passou a se negar a levar cadáveres para a faculdade (um pouco por malandragem!). A colega (cujo nome não me lembro) foi afastada e precisou fazer um tratamento com o pessoal da PQ (psiquiatria).<br><br>Terminado o tratamento, inclusive com psicólogos, não reassumiu o trabalho; demitiu-se e nunca mais foi vista… Não foi nem apanhar suas coisas no armário do vestiário. Poucos dias depois, o aparato militar foi desmontado e nunca mais se usou roupa verde-oliva no túnel…<br><br>Como vocês puderam ver… Nossa vida no HC não era apenas marcar o ponto e esperar o tempo passar; muita coisa acontecia, algumas alegres e outras muito tristes… Mas era o HC, a minha segunda casa e a segunda casa de muitos… E muitas histórias…<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>