Wanderléa, Roberto e Erasmo… Trabalhamos lado a lado

Em 12 de setembro de 1911, com toda pompa e circunstância, foi solenemente inaugurado o Theatro Municipal de São Paulo. Exatamente 102 anos depois, desci na estação Sé do metrô e fui até a tradicional “Casa Bevilácqua”, onde por hábito, sempre comprei partituras e encordoamentos de violão. Originalmente, ocupava a esquina das ruas Direita e Quintino Bocaiúva e era a meca dos músicos; neste ponto, atualmente há uma loja de calçados. Conhecedor do fato histórico, aproveitei a proximidade e resolvi "visitar com os olhos" esta belíssima obra dos arquitetos Ramos de Azevedo, Cláudio e Domiziano Rossi. Há décadas não caminhava pelas ruas desta região central.

Pelo calçadão, percorri a Rua Barão de Itapetininga em direção à estação República. Detive-me defronte ao número 163 e comecei a "viajar" no tempo. Trata-se de uma antiga galeria que "faz uma curva" e termina na Rua Dom José de Barros. Anos passados, se não me engano, funcionava também um cinema em seu interior.

Este decadente local me fez recordar um episódio inesperado e inesquecível, não divulgado em nenhum meio de comunicação. Foi o dia em que um grupo de amigos, eu incluso,"trabalhamos" ao lado do Roberto, Erasmo e Wanderléa. Mais precisamente no segundo semestre de 1969, após a chegada do homem na lua e a aguardada exibição no Cine Marrocos na Rua Conselheiro Crispiniano do documentário “Let it be” dos Beatles.

Lembram-se do filme “Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa” protagonizado pelas principais estrelas citadas? Milênios atrás, em uma praia do extremo Oriente, um náufrago é atacado por bárbaros. Defendido por um guerreiro solitário, antes de morrer confia-lhe a guarda de uma estatueta e um mapa para a localização do túmulo de dois reis fenícios, sepultados em um continente perdido. Um diamante cor-de-rosa protege o lugar do repouso dos reis. Em Tóquio, o trio faz compras e Wanderléa se interessa por uma peça que representa o rosto de um velho. A estatueta começa a causar problemas; ao retornarem para o hotel, são atacados por bandidos que pretendem roubar a estatueta que se espatifa durante a briga. Wanderléa retorna à loja onde a obteve, tentando comprar outra. Na hora de partirem para Israel, ela não aparece. Roberto e Erasmo vão procurá-la. Ao decifrar o mapa, Roberto deduz que o local indicado é na baia da Guanabara e viajam ao Rio de Janeiro. Daí em diante, se envolvem com samurais, gangsters orientais, gênios,raptos, perseguições de automóveis, barco, helicóptero e perigosas escaladas em montanhas de paredões verticais.

A estória, com este ingênuo enredo, teve locações em Israel, Japão e Brasil. No entanto, houve um problema: faltaram algumas cenas em Tóquio. A alternativa encontrada foi a de completar o filme por aqui mesmo.

Na citada galeria da Rua Barão de Itapetininga 163, havia bem na entrada, à direita, uma grande loja japonesa, especializada em artigos para presentes, souvenires e objetos para decoração, confeccionados com pedras semipreciosas ou borboletas. A solução: caracterizar a loja e a ruazinha da galeria para que desse a impressão de se estar em Tóquio. Foram fixados letreiros na área externa com a escrita japonesa e deu para "enganar". Mas, e o burburinho dos transeuntes?

A Daniela, que conhecia alguém do nosso rol de amizades, trabalhava em uma empresa que arregimentava pessoas para participarem de eventos artísticos, os chamados figurantes. Fomos contratados e remunerados. Até minha mãe, a irmã, eu (de chinelo franciscano por ter extraído uma unha encravada) e outros colegas (risos) de…inesperada"veia artística"; obviamente, todos com traços nipônicos. Havia também os atores profissionais, descendentes, que participaram das filmagens desde o início no Japão. Nossos papéis? Fomos os transeuntes que circulavam pela galeria em um vaivém constante, como se fosse uma rua japonesa qualquer. Logo após o comércio normal ter encerrado o expediente, fechou-se o local. A costumeira ordem do diretor: Luzes! Câmera! Ação! Assim iniciou-se a inusitada e longa aventura. Imaginem a sensação ao nos depararmos frente a frente com aqueles artistas que tanto admirávamos.

Embora tal acontecimento estivesse se desenrolando de maneira discretíssima e sem quaisquer alardes, logo formou-se uma ruidosa multidão na Rua Barão de Itapetininga defronte à galeria. Pelas aberturas do enorme portão de ferro, pessoas se comprimiam gritando os nomes do trio da Jovem Guarda. Provavelmente, passantes ocasionais, atraídos pela agitação e que naquele momento, ficaram cientes do motivo da anormal e inesperada movimentação.

Quem mais se expunha era o “tremendão” Erasmo. Demonstrando enorme simpatia e simplicidade; isento de estrelismos, comum a inúmeros ídolos de barro, permaneceu constantemente reunido conosco, os meros plebeus. Trocávamos ideias como velhos amigos em uma amistosa reunião. Leve-se em conta que em 1969, o movimento da Jovem Guarda ainda pulsava em nossos corações e pensamentos. Havia um curioso pormenor: na época, dizia-se que o Erasmo namorava a Tammy, uma modelo nissei, do nosso círculo de amizades. Indagado sobre o comentário, não negou e sorriu.

Recordo-me que tarde da noite, a ternurinha Wanderléa se dirigiu a mim e indagou se seu rosto estava brilhando para saber da necessidade de retoque na maquiagem. O Roberto era mais reservado e compreende-se: confabulava muito com a equipe técnica da filmagem e prestava assistência aos atores profissionais e algumas personalidades convidadas.

Além do diretor da película, Roberto Farias (irmão do Reginaldo), o mega e todo poderoso (na época), empresário Marcos Lázaro, a irreverente vedete Carmem Verônica, o ator José Lewgoy, o Wanderbill Salim (irmão da Vandeca), entre outros que me fogem à recordação, estavam presentes participando daquela "Festa de Arromba". Também o Eduardo Negativo, que esporadicamente participava de programas humorísticos na televisão e exercia a função de secretário do Erasmo; ganhei dele o então recém-lançado compacto simples que tinha em um lado a canção “Vou ficar nu para chamar sua atenção” e no outro a “Aquarela brasileira”. Qualquer dia pretendo revirar meus guardados e quem sabe, encontre a bolachinha.

Altas horas da noite, adentrando a madrugada, estávamos famintos. De repente, surgiram providencialmente, enormes fardos de sanduíches e refrigerantes que foram devorados sem a mínima parcimônia ou cerimônia. Do lado de fora, um gaiato, talvez enciumado pelas manifestações das fãs, resolveu gritar algumas palavras ofensivas ao Erasmo que estava ao nosso lado; debochava de sua calça boca de sino, de cores berrantes. Lembro-me que por um breve instante, se irritou, mas relevou o pequeno incidente.

Após incontáveis e cansativas repetições dos takes, tudo terminou bem; risos, embora estivessem todos exaustos e sonolentos. Assim, foi-se dissolvendo o staff das filmagens. O pôr do sol encontrou todos se cumprimentando e se despedindo com um silencioso:

– "Até um dia…até quem sabe."

Pela Barão de Itapetininga e adjacências, cada um seguiu para seu cotidiano. Nosso grupo, os "artistas de um dia", caminhou em direção ao Viaduto do Chá e pudemos constatar que o centro da nossa querida São Paulo era belíssimo àquela hora da manhã. Sentimos-nos "donos" das ruas semidesertas, emolduradas pelo céu azul ensolarado; confortados pela leve brisa e ainda atordoados pela experiência.

O filme estreou em 1970. Acreditem: nunca cheguei a assisti-lo para ver se qualquer "pedaço de mim" apareceu em alguma cena. Na verdade, o que me transporta à época, é o tema instrumental da trilha sonora; a música “O Diamante cor-de-rosa”, um solo de gaita acompanhado por orquestra que anos mais tarde, Roberto inseriu letra e gravou.