Vovô, o pipoqueiro da Penha

Desde que me lembro, via-o com seu impecável jaleco branquíssimo saindo pela manhã e à tarde para vender pipoca pelo bairro da Penha. O vovô Manuel, "seu" Manuel Pipoqueiro, como era conhecido, levava muito a sério a sua profissão. Seu carrinho estava sempre imaculadamente limpo, assim como seu jaleco. Já tinha bastante idade, mas isso não o afastava de seus deveres. Ao chegar em casa no começo da noite, lavava todos os utensílios, limpava o carrinho e tudo o mais com o maior cuidado e carinho. Aonde íamos, meus irmãos e eu, éramos conhecidos como "os netos do Pipoqueiro" e isso nos enchia de orgulho.

Vovô era espanhol, amável, justo, honestíssimo e, às vezes, meio ríspido conosco, principalmente comigo que era muito levada! Lembro-me de ter levado alguns (ou muitos, não lembro ao certo) puxões de orelha… Ele me chamava de "cabrita", pois dizia que todas as vezes em que me chamava, eu o atendia pulando!

Era extremamente religioso e adorava política! Ouvia a Rádio Nove de Julho diariamente e na hora do Ângelus nos fazia acompanhar o Terço. Não gostávamos disso, mas não havia como escapar. Até que meu irmão caçula, certo dia, "teve um desmaio" e fomos "forçados" a interromper a oração. Na hora, pensamos que ele estava fingindo, que não havia acontecido nada, que era simplesmente uma maneira de nos safarmos da obrigação! Até hoje ele nega, mas… Adiantou! A partir daquele dia, a obrigatoriedade foi afrouxando, afrouxando…

Vovô gostava de se sentar em sua cadeira de balanço e contar para gente suas impressões sobre política, suas convicções religiosas, aconselhar-nos, etc. Para tanto, sentávamos no chão, em volta de sua cadeira e ficávamos ouvindo. Eu ouvia tranquilamente, até gostava, até ele começar a falar de "fim do mundo"! Aí eu me apavorava! Estranho que acho que nunca falei para ele que eu tinha medo desse assunto, que me apavorava tanto quanto as notícias sobre terremotos que vez por outra aconteciam pelo mundo afora!

Tenho muita saudade dele, que nos criou desde que eu tinha dois anos, desde que o papai faleceu!

Quando resolveu que não mais venderia pipoca, pois seu corpo não mais aguentava as subidas e descidas das ruas da Penha – ele ia longe com seu carrinho – avisou seus fregueses que na sexta-feira seria sua despedida e que a pipoca, naquele dia, seria distribuída de graça. Fomos juntos com ele pois sabíamos que o trabalho iria ser triplicado.Vinha gente com saco vazio da açúcar União – aquele de cinco quilos, amarrado nas pontas com barbante – para que ele o enchesse! Éramos crianças, mas ficávamos com dó dele de ver que, mesmo naquela época, já havia exploração e gente querendo "se dar bem"! Ficamos tristes por ele, que não reclamou e doou sua pipoca até o último grão de milho e o último freguês!

Ele foi um homem que, com toda a certeza, não passou simplesmente pelo mundo; fez toda a diferença para os filhos e para os netos!

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