Voo mortal

Ano de 1962. Eu e a turminha de amigos da Rua José Maria Lisboa tínhamos muito receio do, vou chamar assim, Antônio; que por facilidade e um pouco de implicância tratávamos como Toninho Louco. Era um rapagote de uns catorze anos, mas com idade mental de não mais de cinco anos. O seu comportamento alternava de rapaz calmo e dócil para agressivo e perigoso. Dependia da "lua", como dizíamos.

Coisas inusitadas que ocorriam em nosso quarteirão quase sempre tinham ligação com Toninho. Certa vez estava atirando a torto e direito com uma espingarda de chumbinho. Pobres pardais. Provocado pelos garotos se conseguia acertar longe com a arma, não titubeou e acertou um tiro nos fundilhos de um garoto na esquina da Alameda Casa Branca, cerca de sessenta metros dali.

Algumas vezes dividia com todos o seu estoque usual de balas e doces nos dias de "calmaria". Mesmo assim, pelas alternâncias de comportamento, existia um temor geral de ficarmos em sua companhia, mas o interesse pela aventura, pelo perigoso e inusitado nos atraía para ele.

Toninho teve triste fim, o que chocou toda a rua. Havia subido no último andar de seu prédio, e na clarabóia tentava capturar as pombinhas que lá habitavam. Perdeu o equilíbrio e desceu com todos os vidros até o térreo. Foram oito andares de voo, que levou nosso diferente colega da vida a qual não se encaixava.

Que era a morte de um jovem amigo para nós? Nenhum de nós entendeu.

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