Vonô Nonô

No dia que o Paulo nasceu lá estava você. Chorava e me dizia: “Obrigado por ter me dado um neto!”. Tão meigo, tão sensível… De padre a "coroinha", no alto da sua cabeça. Nasceu vovô. Tão semente. Tão legal. Brincava com a gente, brincava menino: "Vinha vindo por uma estrada, topei com um pé de jaca, e toca a apanhar pêssego maduro! Vortei. Vortei prá trás…". De sargento e eletricista a zelador da Biblioteca Kennedy, na Avenida João Dias.

Na volta atrás, um dia de carnaval. Nós, assanhadas para ir ao salão do SAI Interlagos. Você se prontificando: “Vou junto, para tomar conta de vocês". Chegando lá, só vendo: foi o primeiro a cair na dança e o último a parar. Nem para tomar um trago e matar a sede. Dançava, cantava e pulava ao som da orquestra. "Tomara que chova três dias sem parar". Vontade de ir embora? Nenhuma. E o povo: “Que energia, hein vovô?”. Lembra que você tirou a moça da mesa ao lado para dançar? Nem viu a cara do marido dela. Tomamos conta de você.

Parece que tô vendo: você subindo e descendo a rua com o neto de dois anos pela mão. “Vou dar uma canseira nele, senão num dorme!”. E te vejo brincando. As crianças fascinadas. As netas agarradas. Você chorando à toa. Tão à flor da pele. Fazendo arte. Espantando solidão. Celebrando amizades. De padre Lúcio, da Santa Casa de Santo Amaro, a chá da tarde com Júlio Guerra. O quadro por ele presenteado, eternamente na parede de sua sala. Maior orgulho. Tanta fala, tanta vida. Seus intermináveis passeios pela Alameda Santo Amaro e tantas paradas obrigatórias. Simpatia pra dar e vender.

Um ritual de passagem. Você tomando sol. A rua fazendo fila para cumprimentá-lo. Boas vindas, do retorno do hospital, já morando em Leme. A Lúcia preparando a sopa de carne na Sexta-Feira Santa. "Ele pode", disse ela. E o seu penico, que tinha nome e sobrenome? "Tonico Bastos", antigo desafeto, político regional.

A UTI. Você se preparava todo. Não tanto na parte visível do corpo, porque nem tinha esta parte visível. Uma infindável memória de dias melhores na pele. Sobretudo o fumar, que lhe dava, digamos, certa nobreza de estar em si mesmo. Um inquilino perdulário daquele metro e sessenta e cinco de altura. Agora um lagarto. Você ali, preparando-se lentamente, no andamento do fôlego. Ali, vivendo a véspera indecisa. Trocando a fronha, quem sabe a senha. Ali, ouvindo um murmúrio de fora, de lá daquele vento brando na relva da coxilha que já não via mais.

Agora é só saudade. Sonhador que volta ao sonho.

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