Visitando São Paulo

Depois de muito tempo visitei São Paulo. Procurava por roupas e calçados em promoções na Rua 25 de Março e de quebra assisti aos filmes e peças de teatro em cartaz.<br><br>Incrível como tudo mudou nos últimos 20 anos. Milhares de prédios revestidos de pastilhas coloridas e guaritas que mais pareciam uma fortaleza medieval. Não se viam pessoas nas ruas ou calçadas. Eram robôs atrasados para uma reunião e também uma cascata de carros pratas e negros transitando e que nunca saberei o nome ou a montadora que os pariu. Serpenteando entre eles, milhares de motoboys arriscavam suas vidas.<br><br>Vários shoppings disputam consumidores ávidos por comprar. Andei por todos eles e também fica difícil saber seus nomes. Tem um que é considerado o maior da América Latina. São rigorosamente iguais. Uma grande caixa de concreto refrigerada, estacionamentos sem fim e gôndolas com produtos expostos rigorosamente iguais.<br><br>Nos hipermercados carnes e verduras no fundo e eletrodomésticos no centro, centenas de TVs de LCD ligadas no mesmo programa. As verduras e frutas de tão limpas pareciam artificiais. Não existe aquele cheiro característico de feira, nem se sente o aroma do cheiro verde. Tudo é embalado e fechado hermeticamente.<br><br>As salas de cinema são separadas por um número, uma espécie de curral onde você é empurrado para uma sala gélida lotada de gente comendo pipocas, batatas fritas, refrigerantes, balas, bolachas e celulares explodindo sua luz azul. Conversas paralelas tiram a concentração e irrita o mais zen dos cinéfilos. A sétima arte se resumiu num festival de filmes 3D sem conteúdo nenhum.<br><br>Em todas as vitrines, palavras em inglês chamavam minha atenção. "Off 70%", "sale 80%" acho que a palavra liquidação é muito grande e brega para um shopping.<br><br>Todas as saídas eram iguais, os carros iguais, as árvores iguais… Para cada mil lojas vi pouquíssimas livrarias. No máximo um estande carregado de livros de auto-ajuda e best sellers comerciais.<br> <br>As atendentes tinham o mesmo "script". Sempre no fim da compra se ouvia aquela frase mecânica e sem emoção: "Vou acompanhá-lo até a porta. Muito obrigado e volte sempre." Para robôs faltou pouco. Muito pouco. <br><br>A cidade cresceu, é verdade. E o número de bares e restaurantes impressiona pela quantidade e pelo preço das iguarias. Onde já se viu um simples pastel custar três reais? Porém, foi lindo ver o viço da juventude nos "pubs" da Vila Madalena. E os carros? Vi uma Ferrari ao vivo pela primeira vez e o barulho do motor me fazia subir aos céus.<br><br>As mulheres de costas eram todas iguais. O mesmo cabelo com chapinha, a mesma tonalidade, os glúteos redondos, sapatos altíssimos e o rastro de perfume conhecido de outro lugar.<br><br>Nos condomínios, as torres eram exatamente iguais. A mesma cor, as mesmas plantas, a mesma grama e os mesmos carros na garagem competiam com o modelo novo do vizinho. Falta personalidade, falta algo do seu jeito, da sua maneira. Como interagir com o mundo sitiado num feudo sem liberdade? Convive-se apenas com os iguais, perde-se a noção de espaço público. <br><br>Aonde vai parar a essência da cidade? Gosto de pessoas diferentes, negros, pobres, prostitutas e boêmios. O mundo real é o que busco e não uma utopia social. Fugi do Morumbi e me refugiei na loucura da Augusta. Babás entediadas cuidavam de crianças empacotadas dos pés a cabeça. Tudo era tão limpo e esterilizado que se eu fosse uma criança daquelas exigiria um monte de barro só prá mim. Eu iria deitar e rolar já que na grama é proibido pisar.<br><br>As salas dos apartamentos reproduziam o mesmo "show room" das lojas. Sofás confortáveis do mesmo modelo e cor, cozinhas minúsculas e TVs do quarto. Parece que ficou proibido reunir as pessoas em torno de uma só televisão. Na falta de uma alface percorremos quilômetros até o “Hiper”. Para ir a uma igreja são outros quilômetros de carro. De frente para aqueles muros altíssimos em nenhum momento me senti protegido. Fiquei inseguro e frágil.Lá fora os usuários reinavam, as sirenes tocavam e mais um engarrafamento me dava a certeza de que estava realmente em São Paulo. O cigarro é proibido em todos os lugares. Virei um criminoso enquanto dos carros saía monóxido de carbono, o ar poluído de ácaros do ar condicionado, o óleo saturado dos pastéis de feira.<br><br>Fico imaginando a vida nessa redoma. Protegidos com cercas elétricas, escondidos em carros blindados, reféns de seus próprios bens, onde o ter é a palavra de ordem. Você vale o que tem, nem que para isso sua conta bancária fique eternamente no vermelho. Mesmo estando na penúria um sobrenome famoso faz a maior diferença. Visitando o cemitério da Consolação encontrei pequenos ramalhetes espremidos entre as lápides de pessoas ilustres e estátuas sacras belíssimas. Foi ali, perante um Cristo crucificado que me senti mais humano e sereno. Rezei olhando para um céu nublado e respirei.<br><br>Enfim, uma prova de que nem tudo está perdido.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>