Recordar, é viver, dizem. Eu prefiro dizer que recordar é viver mais intensamente o que já foi vivenciado. Mais intensamente, porque as recordações são mais belas e fantasiosas do que foi a própria realidade. É recheada de saudades, de encantamentos e de espiritualidade; só de amigos e parentes queridos. Os mal queridos e os inimigos ficam de fora de nossas recordações. Nós conseguimos limpar nossas recordações de tudo aquilo que poderia feri-la ou macular as imagens que nos povoam e são tão queridas.
Toda esta filosofia caseira tem a finalidade de abrir o livro de minhas recordações das "viradas" de ano de outrora. Acredito que as minhas "viradas" não foram muito diferentes das "viradas" dos amigos deste site.
Até por volta de seis horas da tarde, minha mãe e minhas tias por parte de pai – os nossos parentes por parte de mãe moravam em Ribeirão Preto – estavam dando por encerrada a tarefa de assar pernis e frangos, em idas e vindas sem fim à padaria, que era a que assava as iguarias de seus fregueses. A nós, as crianças, cabia a tarefa de ir a todo o momento perguntar se estava pronto, tarefa esta que era uma festa em correrias alegres pela rua.
Terminavam também as tarefas de fazer iguarias, como crustuli (minha mãe e sua tradição italiana), mantecau (minhas tias, devido à tradição espanhola de seus pais), manjar branco com calda de ameixas, pudim de pão, bolos de chocolate, bolo xadrez e pãezinhos frescos que abrigariam o recheio de pernil assado com molho acebolado. Arroz com uvas passas e uma saborosa farofa feita com toucinho defumado, castanhas cozidas, azeitonas, nozes picadas, maçã picada, cebola, cheiro verde e farinha de mandioca, para se comer com o frango assado.
Tudo pronto e mesas arrumadas e as famílias, ostentando suas melhores roupas, começavam a peregrinação: uma família era a primeira a chegar à casa de outra família. Ali se comia um pouco, bebia-se vinho ou cerveja e as duas famílias se dirigiam para uma terceira casa, levando a ceia que preparara. O ritual se repetia e assim, sucessivamente, até chegar à última casa – eram seis famílias que moravam relativamente perto e ia-se a pé de uma casa para a outra.
Quando este ritual estava chegando ao fim, era a hora de todos juntos acompanharem a corrida de São Silvestre, que terminava faltando cinco minutos para a meia-noite.
Neste ínterim, podiam chegar outras duas famílias que moravam mais distante, colocava-se todo o farnel em uma única mesa, móveis e onde coubesse, para então, todos juntos, ao término da corrida e ao dar as doze badaladas, brindar com o champagne, na verdade, Cidra, porque o dinheiro não dava para Viúva Clicquot.
Todos de taça na mão, cheias de champagne a dos adultos e cheias de guaraná as das crianças, começava o ritual: "Vira, vira, vira. Vira, vira, vira. Vira, vira, vira – virou?". Todos emborcavam suas taças e, logo em seguida, começava a cantoria: "Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo, que tudo se realize, no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Para os solteiros, sorte no amor, nenhuma esperança perdida. Para os casados, nenhuma briga, paz e sossego na vida".
Depois desse ritual, muitos abraços e beijos, comilança e cantoria: tangos, boleros, valsas e, lembro-me, alguém apareceu com um disco chamado "Saco cheio", que todos ouviram, deram muitas risadas e tocou muitas vezes, até que decoramos a letra e aí todos cantavam e davam risada. Era uma marchinha, lançamento para o Carnaval que viria a seguir: "Ai, que vida triste e tão cruel, tem o homem que cata papel. Sua profissão é um buraco, só pode ir pra casa, depois que encher o saco. Um papel aqui, um papel ali, e quando o dia acaba o saco ainda está no meio. Um papel aqui, um papel ali, só lá pra meia-noite é que ele está com o saco cheio".
E assim seguíamos, uns bebendo demais, outros, só refrigerante, até a madrugada do primeiro dia do ano.
Com o tempo, começaram a morrer alguns tios e tias, os filhos, agora já adultos, com seus namorados e namoradas, às vezes davam uma passadinha só para cumprimentar, mas já iam saindo para outras festas. De morte natural, acabou-se aquela alegre festança.
Hoje não tenho mais interesse pela corrida de São Silvestre, que passou a ser realizada à tarde. Perdeu toda a graça. Ela não marca mais a passagem do ano velho para o ano novo. Estamos à mercê da contagem regressiva da Rede Globo, com seus reveillons pasteurizados.
Fico me perguntando qual é a graça de ficar como sardinha em lata, na Avenida Paulista, assistindo ao show das mesmices que estamos cansados de ter visto durante todo o ano e aguardar a meia-noite junto de um mar de gente que não conhecemos. Nem sequer sabemos se estaremos apertando a mão de um estuprador ou sequestrador, que pode estar a nosso lado.
Procuramos ainda preservar uma passagem de ano familiar, mas resumido a um núcleo pequeno de pessoas. A vida moderna faz com que tantos estejam a quilômetros de distância e o telefone nos aproxima, quando não encrenca tudo por causa das chuvas.
Saudades, saudades, saudades, de um tempo que não volta mais.
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