Nasci e fiquei até meu décimo aniversário aí. Foi uma infância feliz, apesar do rigor da educação.
Morávamos em um sobradinho geminado, com cômodos muito amplos e um bom quintal, como era antigamente. Em frente de casa havia um terreno, que servia de campo de futebol para a criançada da rua, hoje provavelmente construíram prédios ali. Nunca mais voltei para lá.
O padeiro e o vendedor de peixe entravam até o fundo da casa para deixarem seus produtos. O peixeiro sempre deixava uma sardinha para o gato de casa. Tinha também o homem das cabras, que vinha com umas cinco delas para tirar o leite na hora, dizia-se ser um leite forte, bom para as crianças, e era muito gostoso, diga-se de passagem.
Na Domingos de Morais, a famosa padaria ABC ficava do outro lado da rua, onde era a garagem dos bondes, bem pertinho da Rua Mantiqueira.
O meio de transporte mais usado na época era o bonde. Tinha o "Camarão", fechado; um outro aberto em que, nos horários de pico, os passageiros se amontoavam nos estribos como pingentes, e o cobrador, abraçando toda aquela multidão, ao cobrar, gritava: faz favor. Ele, em seu uniforme azul, de um tecido grosso que mais parecia um feltro, de origem inglesa, pois a companhia era inglesa, no nosso calor, imaginem! Vinha com as mãos cheias de notas enfiadas pelos dedos, marcando cada venda, ou quase todas, em um relógio que ia marcando um por um. E tinha também o bonde inglês, já mais moderno, com assentos estofados e todo confortável, que ia para os bairros mais nobres.
Hoje, relembrando tudo isso, parece que se passou uma eternidade, nada mais lembra aquela época. Atualmente, com o mundo globalizado pela internet, quase acabou aquela tradição de cada nação, tudo passa a ser igual. E a violência grassando, algo inexistente em outras eras, em que o padeiro e o peixeiro entravam quase que dentro de casa, sem nenhuma maldade, que saudade que eu tenho!
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