Fui morar na Pompéia em 1948, aos seis anos de idade. Bairro operário nessa época, faz divisa com Perdizes, Vila Romana, Água Branca e Lapa.
Num sábado, no caminhão de meu pai Alberto, eu, minha mãe e minhas três tias, irmãs de meu pai, mudamos do bairro do Cambuci para a Pompéia. Nessa fase de minha vida, meu pai trabalhava como distribuidor de bebidas da Cia. Antartica Paulista e possuía seu próprio caminhão.
Ao chegarmos ao bairro, na Rua Miranda de Azevedo, paramos em frente a um sobrado imponente. No primeiro momento me animei, pensando que aquela seria nossa nova moradia. Decepção. Nossa casa era nos fundos. Pequena, com três ambientes para seis pessoas, teve de ser totalmente adaptada. Acostumado a uma casa maior, estranhei e chorei muito. Minha mãe, preocupada com minha reação, tentou me animar, dizendo que seria por pouco tempo (durou oito anos).
A Rua Miranda, quando lá chegamos, era uma rua de terra bruta, sem calçadas. Em época de chuvas, se transformava num lamaçal. Demorou alguns anos para ser asfaltada.
Minha casa ficava entre a Rua Coriolano (parte alta) e Rua Ministro Ferreira Alves (parte baixa). Entrecortada por um córrego de água imunda, conhecido por córrego de Água Preta, tinha uma ponte de madeira, que permitia a passagem de poucos automóveis, carroças e bicicletas. Recordo-me que na estação de verão, as grandes chuvas inundavam o córrego, que carregava a ponte e interrompia a passagem. Todos os anos tínhamos uma nova ponte na rua.
O asfaltamento chegou alguns anos depois, e com ele, uma ponte de concreto. Aos poucos fui me acostumando com o lugar, fazendo amizades (nessa idade é fácil), me enturmando. Na esquina da Miranda com a Ministro, ficava a fábrica de acumuladores Saturnia de um lado, e, de outro, a venda (armazém) do Mane, nosso ponto de encontro diário.
Em frente havia um campinho de terra batida, local de nossas brincadeiras diárias. Futebol, bolinhas de gude, pião, espeto, muletas (pernas de pau), pipas e outras. Esse campinho, hoje uma pracinha, era ladeado pelo córrego em quase toda sua extensão. Na margem oposta, um morro muito alto, totalmente coberto por uma mata composta de pés de mamona, algumas árvores frutíferas e outras espécies. Nesse morro, brincávamos de super-heróis como Tarzan, Fantasma etc.
Moleque de rua, fui levado várias vezes ao pronto-socorro da Barra Funda por minha mãe, todo estropiado.
Meus irmãos Vilma e Nenê nasceram nesse bairro.
Já bem adaptado, concluí o primário no grupo escolar Miss Browne, e estudos secundários no Colégio Riachuelo, no bairro dos Campos Elíseos. Nesse colégio, conheci minha primeira namorada, uma uruguaia linda.
Em 1950, fui matriculado por meu pai no quadro associativo da Sociedade Esportiva Palmeiras, como compensação pela perda da Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. O Palmeiras foi o campeão da Taça Rio, no Maracanã.
Nessa mesma fase, conheci um dos mais importantes amigos, José Carlos Pontes, amizade que perdura até hoje (mais de 50 anos). Frequentei muito o Palmeiras, e nas "peladas" de sábados e domingos, aprendi a jogar futebol com muita técnica. À medida em que fui crescendo, desenvolvi amizade com pessoas mais adultas, como Milton "Bolofe", Flavio Serra, Quincas, Geisel, Mané, José Carlos "Pigmeu", Carlão e outros. Não posso deixar de mencionar outro grande amigo, José Roberto Carlomagno, meu grande parceiro nos times de várzea como Santa Marina, Botafogo, e principalmente como profissionais em Vinhedo, interior de São Paulo.
Joguei ainda em outros times, como Gelomatic Clube, Vidrobrás, Petrobrás, Goyana, Corinthians Pompeano e Escarlate Clube. No futsal, defendi o Lapeaninho, Circulo Israelita e Tenentes do Diabo.
Nos anos 60, José Carlos e eu frequentamos muitas festinhas e bailinhos nas Perdizes, Pacaembu, Vila Romana e Lapa. Dançávamos ao som de Ray Conniff, e sonhávamos ouvindo Paul Anka, Ray Charles e Johnny Mathis. Elvis nos fazia rebolar e ver as calcinhas brancas das meninas. Embora jovem, namorei garotas lindas da Lapa e conheci mulheres mais velhas, que me proporcionaram prazeres inesquecíveis.
Nos finais dos anos, os bons programas eram os bailes de formatura, realizados nos salões do Aeroporto, Transatlântico, Casa de Portugal, Clube Homs. Sempre embalados pelas orquestras de Silvio Mazzuca, Zacaro, Simonetti, Milani etc., esses bailes eram conhecidos como mela-cueca, por motivos óbvios.
Ah, que tempos felizes. Liberdade para ir e vir, trânsito tranquilo, segurança nas ruas que hoje em dia não temos mais.
Nossas diversões, além dos bailes, cinema e futebol, eram os festivais de músicas da Record, Globo e Excelsior. Víamos na TV artistas como Simonal (chamado de “o rei da pilantragem”); Elis; a turma da bossa nova, que vinha do Rio de Janeiro; os baianos Caetano, Bethania, Gal, Gil, surgindo e inovando. A Jovem Guarda, com Roberto, Erasmo e Vanderléia, empolgava nossas tardes de domingo.
Enfim, eram tempos fantásticos. Hoje tenho a lembrança saudosa de muitos amigos que já se foram, das matinês dos cines Nacional, Esmeralda, Turiassú, dos sábados e domingos na várzea, dos bailinhos, dessa época de ouro de minha vida. A Pompéia, para mim, foi minha "Terra do Nunca”, e eu, "Peter Pan", pois não queria crescer e enfrentar a vida e seus desmandos.
Atualmente, residindo no Jardim da Saúde, volto às vezes a Pompéia e vou ao Bar Valadares recordar com José Pedro, outro bom amigo, os momentos felizes já vividos.
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