Como já disse, sempre fui ligado ao rádio como ouvinte, mais tarde tornei-me macaco de auditório, e até radialista fui. Depois, iniciei minha peregrinação pelas emissoras de TV. A primeira foi no início dos anos 1960, a TV Tupi, em seu auditório do alto do Sumaré, em plena Rua Alfonso Bovero. Um amplo auditório onde alguns cantores jovens se apresentavam. Ainda não era a turma da jovem guarda, que viria alguns anos mais tarde. Lembro-me de Jorge Friedman e Demetrius cantando o Ritmo da Chuva, de Wanderley Cardoso e outros. Mas minha atenção estava voltada para um senhor de cabelos rasteiros e brancos, sentado com seu inseparável amigo, o violão.<br>Era nada mais nada menos que Dorival Caymmi. Ali sentado antes de ir para o ar, dedilhava seu violão dando uma canja: “O mar quando quebra na praia, é bonito, é bonito…”.<br>Alguém chegou a dizer: o que faz um velho cantor no meio de cantores da juventude? Resposta de alguém que não identifiquei: é apenas para mostrar para essa rapaziada como se compõe e canta.<br>Dorival não estava nem ai. Não saía de seu lugar. As pessoas não deixavam. Ele estava sempre rodeado por pessoas curiosas fazendo perguntas e pedindo autógrafos.<br>Como eu morava na Vila Olímpia, a TV Record não era muito longe da minha casa, uns dois quilômetros, por ai. O percurso era assim: Rua Alvorada, Professor Vahia de Abreu, cruzava a Avenida Santo Amaro, Avenida dos Eucaliptos até a Avenida Miruna, pronto, estávamos nos fundos da TV Record, cuja frente era na Avenida Moreira Guimarães, onde estava o portão de um enorme quintal, que mais tarde foi desapropriado pela prefeitura, para alargar a avenida que tinha a Ruben Berta e 23 de maio a seguir. Passando por aquele quintal enorme, na entrada do prédio, tinha uma casinha de duas águas com um nicho onde havia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, a menina dos olhos do doutor Paulo Machado de Carvalho. Uma raridade que deve ter sido jogado fora pela turma do Edir Macedo, quando adquiriu a emissora. <br>Grandes programas eu assisti na TV Record, nos anos 1950. Aos domingos, 13 horas, Pim Pam Pum, um programa infantil patrocinado por um chiclete. Depois o Cirquinho do Arrelia, aos domingos às 14 horas, um pouco antes da transmissão do futebol com Raul Tabajara, Paulo Planet Buarque, Flávio Iazeti e reportagem de Silvio Luiz, com as charges de Arapuã.<br>E às 18 horas um programa infantil, com crianças em sua maioria dançando, e a maioria das crianças eram alunas da professora Regina Meire San Giovanni.<br>Grande Gincana Kibon, apresentação de Vicente Leporace, tendo a participação de Clarice Amaral, que para Leporace era a Miss Kibon. Aos sábados à noite tinha luta livre, uma grande marmelada que a gente via bem de pertinho, Fantomas, que apesar de usar uma máscara, fazendo com que seu rosto nunca fosse mostrado, era o mocinho adorado pelas mulheres. Tinha também a torcida dos homens. O auditório da TV Record era diferente dos demais auditórios de rádio e televisão. Não tinha cadeiras ou poltronas. Devido ao espaço que era pequeno, fizeram arquibancadas, de madeira. Quem ficava no lugar mais alto tinha uma visão total sem ninguém à frente que fizesse com que a pessoa tivesse que ficar mudando a cabeça para os lados para ver melhor.<br>Já na metade dos anos 1960, a TV Excelsior era a emissora que estava em destaque. Com a concessão adquirida não sei de quem, pelo complexo Bozzano Simonsen, era a emissora que dava cartas e jogava de mão. Costumam dizer os mais velhos que era a Rede Globo de hoje. Com uma dinheirama à disposição, a TV Excelsior revolucionou a classe artística, pagando altos salários e tirando gente das outras emissoras, notadamente da TV Tupi.<br>O porteiro do teatro Cultura Artística, locado para ser o auditório da Excelsior, era meu vizinho, então eu tinha entrada franca.<br>Ali conheci os grandes astros da dramaturgia, cantores, cantoras e humoristas que eram radicados em São Paulo, como o saudoso Mario Alimári (Pé com Pano, Pé sem Pano), meu ex-colega de Móveis Artesanal, o “dono” da serra de fita.<br>Tinha também os humoristas do Rio de Janeiro, canal 2, TV Excelsior carioca. Tais como Francisco de Paula (Chico Anísio) e Mario Lírio (Costinha). Em 1966, quando a jovem guarda estava na efervescência da TV Record. A Excelsior bolou um programa musical intitulado Ensaio Geral, aproveitando os artistas disponíveis sem contrato com sua concorrente. Era um período em que a Record subia vertiginosamente na audiência do IBOPE sempre contestada por quem estava perdendo.<br>O Ensaio Geral era gravado às quartas feiras, e tinha além de jovens cantores os mais velhos, como Formigão (Ciro Monteiro) e Nelson Gonçalves, que se misturavam com Maria Betânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Toquinho, Claudia Morena, Taiguara e alguns atores convidados a declamar quando necessário, no caso, Armando Bogus. A TV Excelsior foi considerada uma verdadeira escola para as demais TVs. O pessoal tinha muita criatividade. Seu símbolo eram dois bonequinhos como se fossem gêmeos. Tinha o Vale a Pena Ver de Novo, em que muita gente que não podia ver no horário normal tinha a chance de ver, ou quem tinha assistido podia ver novamente. Quando dava uma pane na imagem, ouvia-se o áudio, que dizia: não desligue, não. Que o defeito é nosso. Estamos providenciando o retorno da imagem.<br>Grande amigo era Kalil Filho, um bom papo. Era comum ficarmos horas a fio falando de política com outros artistas numa época em que era proibido falar de política em público.<br>Estávamos no governo Costa e Silva, tido como um presidente não letrado. As piadas fervilhavam no bar de fronte à TV na Nestor Pestana. Uma mulher que não me ocorre o nome era a campeã de piadas daquele gênero. Política era sobre o que mais se falava, embora fosse muito perigoso, pois tinha sempre “rato” pesquisando para dedar aos “homes”. Kalil Filho com sangue árabe/iraniano era o mais exaltado. Falava alto, xingava, estava sempre de mau humor, não se sabia se era devido ao momento político ou pelo fato de o Corinthians estar há muitos anos na fila. Uma coisa ele tinha de sobra: educação. Era uma bondade para tratar as pessoas. Num daqueles impulsos do Kalil numa noite de sexta feira em que o álcool subia, entrou no bar um jornalista d’O Estado de São Paulo. Entrou olhou para todos os lados e com voz baixa disse: Kalil, toma cuidado, os homens estão a fim de pegá-lo devido ao que você vem falando no seu programa (O Berro da Rádio Excelcior). Se você vir o Leporace, avisa que os homens estão afins dele também.<br>Aí que Kalil ficou raivoso. Quando o jornalista foi embora, nós é que ouvimos muita coisa da boca dele. Eu quero que eles sifu… Eu nunca pedi nada a ninguém, nem mesmo para o doutor Ademar (governador na época).<br>Futebol também era muito comentado, mas quando o Corinthians perdia era bom ficar quieto, pelo menos quando o Kalil estava por perto. Ele estava louco para pegar o Esmeraldo Tarquínio pela frente quando o Corinthians viesse a acabar com o tabu do Santos. Tarquínio dizia que se isso viesse a acontecer ele pintava de amarelo a grama do Parque Don Pedro II, onde ficava a assembléia. Quando tinha o jogo entre Corinthians e Santos, Kalil ficava com a filmadora na mão para registrar tal acontecimento. <br>Quando o papo não era de política ou futebol, a gente morria de rir com o Oliveira Neto, narrador de notícias da TV Excelsior, e que fazia a propaganda do creme de barbear Bozzano. Oliveira dava uma de mágico. Tinha um baralho e mandava a gente escolher uma carta que ele sempre acertava qual era, embora não tivesse visto. Havia uma curiosidade em saber como ele acertava todas.<br>Ai ele resolveu nos mostrar a malandragem. Metade das cartas era mais curta na largura, então ele marcava bem onde ficava a carta escolhida e a pegava.<br>De vez em quando tinha um bailarino estrangeiro, acho que seu nome era Leny Denni, que fazia misérias, na calçada ou no asfalto. Além de bailar, era um perfeito contorcionista. Corria um papo que estava sempre com um tubo de bola na cabeça.<br>Outro programa que via bem de perto era o do Chacrinha (Abelardo Barbosa), o programa era mais gozado quando estava no intervalo comercial do que quando estava sendo apresentado ao vivo. Foi lá que se apresentou pela primeira vez o cantor Nelson Ned, até então totalmente desconhecido. Um anão que Chacrinha colocou em cima de uma escada para poder ficar com a boca próximo ao microfone. Era um moleque atrevido, torcedor do Flamengo, ele desafiava Chacrinha, que era Vascaíno, chutando o traseiro do velho guerreiro. Chacrinha caía ao chão e para se levantar tinha que vir alguém para dar a mão e ele.<br>Em 1969, Chacrinha foi contratado pela TV Globo que ainda não tinha conseguido o primeiro lugar do IBOPE, e no lugar de Chacrinha foi colocado Edson Cury (Bolinha). Houve uma transformação no programa com algumas palavras que não deveriam ser ditas contra quem tinha saído. Num sábado foi feito um concurso e seria premiado por sorteio quem levasse um bolo. Lá estava eu no sábado seguinte com um bolo feito pela minha recente esposa. Quando foi feito o sorteio o segundo bilhete sorteado era o meu. Tinha muitos prêmios para serem sorteados, geladeira, televisão, sofá e também um prêmio surpresa. Quando foi na hora de escolher a placa onde estava escrito o prêmio lá fui eu. Bolinha deu um tapa de leve em meu peito e disse: Trouxe um bolinho, hein garotão?!<br>A placa que peguei valia um liquidificador. O prêmio surpresa foi para um rapaz de fisionomia rude, meio esquisito, que para apresentador de programa de TV é uma festa. Muita bobagem foi dita e o cara somente ria. Quando foi aberto o prêmio surpresa estava escrito que ele havia ganhado um sanduíche de mortadela. E o pior, ele tinha que comer na frente das câmeras. E como comia o cara. Devia estar sem comer o dia todo. A pedido de Bolinha ele tinha que ficar sentado, e era sempre alvo dos câmeras. Ao final do programa, Bolinha disse que além do sanduíche ele tinha mais alguma coisinha para levar para casa. A cortina foi aberta, e lá estavam sofá, duas poltronas, armário com duas portas e quatro gavetas e dois criados mudos, mais a cama de casal.<br>Depois do programa do Bolinha, teve também o ressurgimento das lutas livres, que estavam esquecidas do público. Era o próprio Bolinha quem apresentava e coordenava a marmelada. Ele era quem contratava os lutadores e pagava os cachês na sala ao lado do palco aos lutadores. Para que ficasse comprovada a marmelada. Teve um dia que aconteceu uma coisa inusitada: dois lutadores não haviam sido derrotados. Estavam invictos e durante toda a semana havia sido anunciada como a luta do século. Um deles ia perder. Quem seria o derrotado?<br>No sábado o grande auditório da Nestor Pestana, com 600 lugares mais ou menos, estava abarrotado, sem contar que todos estavam sintonizados no canal 9 de São Paulo.<br>Um dos lutadores estava em desvantagem, e era justamente o queridinho das mulheres, que se descabelavam, ele estava irremediavelmente derrotado. Mas aconteceu algo inusitado. O vencedor da luta quando deu um balão no adversário ficou com o pé preso nas cordas, ficando pendurado. Conclusão: não houve vencedor pelo fato de nenhum ter ficado em pé no rinque. Nova luta teria que ser feita, segundo Bolinha. Eu que estava ao lado de muitos amigos de lá da TV mesmo, quase caí da cadeira de tanto rir.<br>Depois de terminadas as lutas todos os lutadores que no rinque se batiam, estavam juntos, alegres, recebendo o cachê das mãos do Bolinha.<br>Ainda em 1969, estava eu na Record, onde aos sábados tinha o programa musical Astros do Disco. Depois de vários apresentadores formando um casal, Kalil Filho e Neide Alexandre estavam se dando muito bem na apresentação. Era um programa que justificava o nome de um musical. Eram apresentados os cantores que tinham os discos mais vendidos, coisa que não se faz mais nos dias de hoje.<br>Mas não podemos nos esquecer da TV Paulista, canal 5, que até 1967 era uma emissora das organizações Victor Costa. A TV Paulista usava os artistas da Rádio Nacional de São Paulo, como Manoel de Nóbrega e Hebe Camargo.<br>Nóbrega produzia e participava da Praça da Alegria e Hebe apresentava “O Mundo é das Mulheres”, um programa que tinha também a participação semanal de Cacilda Lanuza, Lurdes Rocha, Maximira Figueiredo, Raquel Martins e Sarita Campos.<br>Já nos estertores da emissora, um programa que ainda conseguia prender a audiência era a Roleta Paulista, um programa polêmico e muito criticado, que teve como um dos últimos entrevistados, Américo Fontenele, carioca, que veio a São Paulo em 1967 para ser diretor de trânsito, que ficou um caos. Em pleno andamento do programa, sofreu um infarto e veio a falecer a caminho do hospital.<br><br>e-mail do autor: [email protected]