Junho de 1969.
Estou trabalhando no Bank of London & South América LTD há um mês. Meu primeiro emprego de carteira assinada, trabalho no setor de contas correntes como mecanógrafo, aquele que lança os cheques compensados nas cartolinas amarelas que são as contas dos clientes.
Tenho dezoito anos e meu horário de trabalho é das 12h às 18h. Saio pontualmente às 18 horas. No final do expediente, caminho da XV de Novembro até a Estação do Braz, passando pela General Carneiro, atravessando o Parque Dom Pedro e seguindo pela Rua do Gasômetro até a Praça Roosevelt, onde tomo o trem da Central do Brasil que me leva até Itaquera para pegar a segunda aula da faculdade.
Temos um time de peladeiros lá no Falcão do Morro, formado pela molecada e adolescentes, do qual eu participo até o momento. Digo até o momento, pois agora que estou trabalhando, não terei mais tempo para integrar a equipe, uma vez que os jogos acontecem durante a semana e na parte da tarde, com início às 16 horas e término quando não houver mais iluminação natural para que se possa enxergar a bola.
Jogamos normalmente contra times semelhantes de outras vilas, como Campanela, Carmozina, Taquari, Cidade Líder, e nesta sexta-feira teremos um clássico esperado há meses, Falcão do Morro e Vila Santana, quando disputaremos uma grande flâmula.
Não dormi de ontem para hoje sabendo do jogo e do fato de que estarei trabalhando no horário da batalha campal tão esperada. Não posso faltar ao emprego, pois ainda estou cumprindo o período de experiência, mesmo porque não é comum para um garoto de Itaquera trabalhar num banco internacional. Seria muita imprudência dar mole e perder este emprego.
De manhã, quando desço o morro para a estação, encontro o Cobrinha, que de longe já vai gritando: "Marcola, é hoje, vê se não vai dar mancada, não temos outro goleiro para o seu lugar". Não tenho coragem de informar ao Cobrinha que eu não poderia participar do jogo.
Já no banco e tentando trabalhar, sem nenhuma concentração e errando constantemente os lançamentos, sou interpelado pelo Paulo Sérgio, o meu conferente, que vendo tantos erros vem conversar comigo para saber os motivos. Apesar do pouco tempo de relacionamento, o Paulo me parece um cara confiável, e conto para ele o motivo da falta de concentração.
Paulo me chama ao banheiro e propõe o seguinte: Falcon, ainda são duas horas, você finge que está com cólica de rins e eu falo com a Dona Lina (Lina Gabriele, a nossa chefe) para ela te dispensar, aí eu cubro a tua tarefa e quando eu necessitar você colabora comigo. Fechamos o acordo de imediato.
Preparo a minha cara especial de choro, que inclui até lágrimas pinceladas com saliva, e vamos falar com Dona Lina, que imediatamente me encaminha para a enfermaria que fica ali na garagem do prédio, na saída para a Rua da Quitanda.
A enfermeira Dona Gema me recebe com preocupação e eu narro para ela os sintomas da terrível cólica. Sou colocado de repouso numa maca e tomo um analgésico.
Já fico preocupado com as horas, pois após trinta minutos do início do plano ainda estou ali no banco de corpo e com a cabeça lá no campo do Falcão.
Qual é a minha surpresa quando ouço a sirene de uma ambulância que adentra a garagem do Lloyds. Sou colocado com todo cuidado na ambulância por dois enfermeiros, que injetam soro em minha veia. A preocupação bate de imediato: para onde estão me levando? Pergunto ao enfermeiro, e ele me informa que serei encaminhado ao Hospital Santa Paula, em Santo Amaro. Eu nem sei onde é o tal hospital.
Fico no hospital em observação até as 17 horas, quando sou liberado apenas com o dinheiro da passagem do trem no bolso e sem saber como voltar para casa.
Peço orientação para um guarda na porta do hospital e sou informado de um ônibus que passa na Santo Amaro com destino ao Braz. Tomo este ônibus e, já na estação do Braz, peço dinheiro emprestado para um amigo que me paga o trem.
No sábado, fico sabendo que havíamos ganhado o jogo. Na segunda-feira, Dona Lina vem saber como eu estou e fica contente pelo fato de eu estar melhor.
O Paulo Sérgio ri o dia inteiro sem parar, basta olhar para mim, e ao mesmo tempo finge estar com dor nas costas.
Já executivo do Lloyds, encontrarei Dona Lina num jantar para aposentados, realizado anualmente no restaurante da Presidência. Passados tantos anos, conversarei com ela sobre o ocorrido e confessarei a verdade. Dona Lina não se lembrará do fato e rirá muito e me dirá: "Marquinhos, toda mentira é castigada".
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