Era conhecida por Fuscão. Não sei o motivo, talvez porque ela gostasse daquela "música insuporchata”, que falava de um Fuscão e que, à época, tocava exaustivamente, sei lá.<br><br>Andava ali pelas ruas da Vila Maria, sempre de braço dado com dois “sordados", quando a coisa ficava feia, ou de braço dado com um cândido namorado, o que também acontecia vez por outra, embora muito raramente.<br><br>Bebia a não mais poder suportar. Estirava o gordo corpanzil na calçada e roncava o ronco dos injustos, dos injustiçados.<br><br>Parece-me que morava em um barraco da favela da TVR, no Parque Novo Mundo, e contaram-me que houve uma tarde de sábado, já quase noite, em que ela saiu à rua completamente pelada.<br><br>Levara pra casa um recém-conhecido de boteco, e este, sem que ela soubesse, antes do encontro, já havia bebido todo o conteúdo de uma garrafa de pinga onde repousava uma cobra amarronzada, jararaca, talvez, e, por cortesia do dono do boteco ou talvez por surripiar mesmo, o cachaceiro (gosto deste termo já tão em desuso), ao ver esgotado o conteúdo, botou a cobra no bolso e lá se foi.<br><br>Quando encontrou Fuscão, provavelmente já na segunda ou terceira garrafa, rolou um clima e lá foram eles para o barraco da moça. Depois que o amor se fez, o merecido repouso.<br><br>Talvez entediado ou muito provavelmente ressacado, o namorado saiu em busca de novas emoções, mas, esquecido que era, deixou lá a cobra, na cama quentinha e a bichinha, por absoluta impossibilidade, posto que morta, lá permanecera quietinha.<br><br>Destas cenas, ainda que o "barraco era sem trinco" e as frestas permitissem a passagem de uma pessoa que não fosse muito bem fornida, não há testemunhas, apenas suposições, mas se acredita que Fuscão, ao levar as mãos por entre as dobras do lençol, sentiu aquela coisa fria. Enregelou também!<br><br>E a rua – ruela, de águas sujas, fétidas – a viu assim, nua, a correr descabelada. Foi o caos, passou o caos; ficou a lenda que o povo da favela se encarregou de aumentar.<br><br>E-mail: [email protected]