Meu pai chegou a casa (quarto e cozinha num cortiço do Bexiga), chamou minha mãe de lado e falou qualquer coisa que eu entendi como:
– Vão fechar a fronha do precipício e acabar com o jogo do bicho… Lá no Palácio, não se fala em outra coisa!
Meu pai era telegrafista no Palácio dos Campos Elísios e tinha acesso a algumas informações em primeira mão.
Acabar com o jogo do bicho até entendi, mas fechar a fronha do precipício?! Sei lá que diabo seria aquilo! Talvez fosse uma coisa muito complicada, vedada às virginais ouvidos infantis… Tanto isso era verdade que a informação fora passada em voz baixa, quase sussurrada, a mão tapando a boca, junto ao ouvido de mamãe…
Minha mãe, em face das informações, reagiu valente e instantaneamente:
– Fecha amanhã?
– É! Dizem que a polícia vai pra rua de madrugada…
– Então, tem de jogar hoje! Vai lá no chalé e joga no 1051 que eu sonhei com esse número.
A Dona Zezé explicou como meu pai deveria fazer o jogo: "Faça assim e assado, cocoreco e bico de pato… 2000 réis; se o dinheiro não der, 1500”.
E lá se foi o meu pai pro chalé do Cebolinha, rápido antes que fechasse a loteria zoológica. Jogou 2000 réis, mas jogou errado. Não sei se deixou de jogar o assim, o assado, o cocoreco ou o bico de pato, o fato é que ele se “embananou”. Embananou-se, mas ganhou. Deu o 1051 na cabeça e ele recebeu um dinheiro suficiente para comprar os móveis que nós não tínhamos; um ferro elétrico e um fogão à querozene, já que minha mãe não aguentava mais se sujar com carvão; um rádio Pilot de 6 válvulas e ondas curtas (a paixão da vida de meu pai); alugar uma casa com 2 salas, 2 dormitórios, cozinha e banheiro (banheiro privativo, só nosso; adeus latrinas do cortiço e banhos de canequinha nas bacias de alumínio compradas no Bazar Lord!), quintal com parreiras de uvas (redundância?), marmeleiros, abacateiro, dois caquizeiros (daqueles caquis que pegavam na boca) e um estranhíssimo pé de pariparoba… Tudo era um sonho pra uma criança que passou seis anos morando dentro de um quarto… Tudo isso por um conto e quinhentos por mês?! Com direito à água de poço e visão da janela do meu quarto para um campinho onde se jogava o tal de 5 vira, 10 acaba!
A casa ficava na Vila Clementino, na Rua Leandro Dupre, 655. Um ladeirão sem calçamento que terminava num córrego imundo – e bota imundo nisso – que tinha uma pinguela como ponto de travessia, para a agora grande subida que ia em direção à Rua 11 de Junho, essa totalmente sem calçamento, desde a Domingos de Morais até a então Auto-Estrada de Santo Amaro.
Meu pai, que também trabalhava na VASP, ia para Congonhas de bicicleta, cortando por picadas abertas no meio do mato dos muitos terrenos baldios.
Na volta da escola, eu jogava um interminável futebol com os garotos de minha idade, vizinhos, meus primeiros amigos em 10 anos de vida. Aos domingos, missa na capelinha de São Francisco, num barracão de alvenaria na Borges Lagoa, quase esquina com a Doutor Bacellar. A igreja, como é hoje, foi construída através de uma campanha liderada pelo radialista Manoel Vitor em seu programa “A hora do Pensamento Social Cristão”, na Rádio Tupi.
Tinha o futebol de várzea no campo do Rubens Salles ou o campo do Rubissales, como era mais fácil falar e por onde desfilavam grandes craques: Canhoto, Cuíca, Cecê, Pasquá (Pascoal) Mandioca, João Neguinho, Bereba, Moreno, Gabiroba, Fazolim, Vadão, "Varte"(Valter) Alemão, meu tio Mané, becão ao velho estilo. E muitos, muitos outros… Vou me esquecendo pouco a pouco daquelas pessoas e daqueles dias…
O campo de futebol ficava na Pedro de Toledo, entre a Rua dos Otonis e a Leandro Dupré, dá para acreditar? Meu tio Viriato vendia pinga com groselha, pinga lisa e bolinho de batata com um molho de pimenta incendiário em dias de jogos do Recanto da Vila Mariana ou do Rubens Salles e chegava a fazer um bom dinheirinho.
No fim da Loefgren ficava o campo do 21 de Abril, time da 11 de junho (êpa!) e Altino Arantes. Onde hoje se ergue o Hospital do Servidor Público Estadual existia um grande canavial, e lá pastavam os animais que puxavam os carroções da limpeza pública, além de mais dois campos de futebol, que não nos perdíamos por falta de campos de várzea!
Moramos por quatro anos na Vila Clementino até mudarmos para o bairro da Previdência, no Butantã. Foram bons tempos aqueles, tempos de aprendizado.
Aprendi, inclusive, que ninguém fechou a "fronha do precipício". No dia em que os chalés foram aparentemente desmantelados, li uma manchete no tablóide “‘A Hora’: Garcez fecha a Zona do Meretrício”…
Então, era isso? Eu era criança, mas não era bobo (vê se nos meus olhos, tem guaraná!), teria muito tempo pra descobrir que raios era aquilo…
Ah! Vila Clementino, dos meus 10 aos 14 anos… Do bonde 47 e do ônibus que fazia ponto final no Hospital São Paulo…
Eu já falei para vocês que, um dia, eu e meus amigos batemos uma bola com o Sastre, ídolo do São Paulo Futebol Clube nos anos 40, num dos lugares mais inusitados de São Paulo? Não? Não falei? Qualquer dia desses, eu falo! É só me dar moleza…
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