Vila Maria e Ayrton Senna – Um Caso de Amor

Um dia desses, eu assisti pela TV Cultura, uma reprise do programa Roda Viva, no qual Ayrton Senna foi entrevistado, era de uma data próxima a do acidente que o vitimou. Foi emocionante. Perguntado sobre acidentes nas pistas e se isto lhe causava medo, respondeu com aparente serenidade, havia algo em sua voz que descartava a hipótese do medo, mas seus olhos pareciam tristes, como que a prenunciar, talvez, futuros acontecimentos. Fechei os meus olhos e pensativo fui transportado, pela minha memória, para aquele trágico dia 1° de maio de 1994, quando em Ìmola, na Itália, se disputava o Grande Prêmio de San Marino. Veio claro à minha mente a imagem da Williams, azul e branca, pilotada por Ayrton, a 300 quilômetros por hora, quando a máquina saiu da pista na curva Tamburello, provocando o acidente que lhe roubou precocemente a vida, aos 34 anos de idade.<br><br>Agora, quando se aproxima do 18° aniversário de sua trágica morte, convém lembrar alguns aspectos de sua curta existência. Ele nasceu no dia 21 de março de 1960, na Maternidade Pró Mater, morou no bairro de Santana e em outros bairros da Zona Norte até o início de sua gloriosa carreira. Em Vila Maria, onde sua memória é preservada e cultuada, não morou, mas o bairro estabeleceu com ele um relacionamento que gerou fortes laços de admiração, respeito e a mais pura afeição.<br><br>Tudo começou por volta do ano de 1968, quando o Senhor Milton Guirado Teodoro da Silva, pai de Ayrton Senna, afeiçoado por aviação, conheceu os irmãos Armando e Raul Botelho Teixeira (Raulzinho), durante um curso de pilotagem no Campo de Marte. A partir de então os laços de amizade entre as duas famílias foram se estreitando, surgindo daí uma amizade que do campo social estendeu-se até o dos negócios.<br><br>O senhor Milton sempre marcou presença nos treinos e competições de “Kart”, dos quais Ayrton participava, e talvez até pensasse que aquele esporte fosse um mero hobby para o garoto. Mas conforme me relatou Raulzinho, no principio dos anos 80, quando Ayrton, já era mocinho, se aventurava na Fórmula 3. Seu zeloso pai, temendo pela sua segurança, fez uma tentativa de afastá-lo das pistas, pois com isto pretendia preservá-lo dos riscos envolvidos nas corridas. Com a intenção de iniciar o rapaz no ramo empresarial, o Senhor Milton vende a empresa Univel, de sua propriedade, e adquire para ele o Depósito Curuçá, de materiais para construção, de propriedade do Senhor Raul Ferreira Teixeira, pai dos irmãos Armando e Raulzinho, localizado no Parque Novo Mundo, uma filial do depósito que este Senhor possuía em Vila Maria.<br><br>Não demorou muito tempo e Ayrton confidenciou ao Armando que não levava jeito algum para aquele negócio e que estava determinado a seguir a carreira automobilística, apesar dos possíveis riscos que teria de enfrentar. Amigo do piloto, Armando compreendeu suas motivações e aspirações e, após longa conversa com o Senhor Miltom, com a anuência deste, passou a colaborar com o jovem piloto. Armando tornou-se então o empresário de Ayrton Senna e obteve patrocínios que possibilitaram bancar os custos do início de sua brilhante carreira.<br><br>O empresário montou seu escritório na Rua Dr. Edson de Melo, 96, nas proximidades de sua residência, aqui em Vila Maria. No escritório, que funcionou neste local de 1982 a 1992, quando Armando veio a falecer, foram tomadas algumas das mais importantes decisões da carreira de Senna, até essa data, inclusive a assinatura do contrato com a McLaren, pela qual o piloto conquistou os seus três campeonatos mundiais.<br><br>A biografia do nosso glorioso piloto que inclui somente a Fórmula 1,com 41 vitórias, 65 pole positions e 3 campeonatos mundiais, é de conhecimento geral e sobre ela existem livros, filmes e outras tantas formas de divulgação, por isso restringiremos nossas considerações ao mínimo.<br><br>Conta-nos o advogado, Adilson Carvalho de Almeida, amigo do piloto, que o entusiasmo pelos grandes sucessos de Ayrton Senna, o levaram, ele e mais um grupo de ardorosos fãs, comandados por ele, a fundar, no dia 15 de maio de 1988, a Torcida Ayrton Senna – TAS. Em outubro desse mesmo ano Senna conquistou seu primeiro título de campeão mundial da Fórmula 1. No Japão, naquela que é considerada por muitos a melhor corrida de sua carreira. A TAS crescia, e no final de 1988 já contava com cerca de dezoito mil associados. Em 1990 Senna conquista seu segundo campeonato mundial na Fórmula 1 e, em 1991, vem o terceiro, o que fez com que o número de fãs aumentasse , não só aqui mas em todo o mundo.<br><br>Em 1991, correndo em Interlagos, com forte chuva, Ayrton conquista a sua primeira vitória no Brasil. A TAS, é claro, estava presente e liderados por Adilson, os fãs não se contiveram e invadiram a pista. Ayrton Senna conquistara a TAS e a TAS conquistara Ayrton Senna. Ele gostava da presença da torcida em todos os eventos evolvendo a sua carreira de piloto e de empresário e dizia que muitas das suas melhores recordações vieram da torcida.<br><br>Em 1992 após a morte de Armando, o escritório do piloto mudou-se para o centro da cidade e a TAS estabeleceu sua sede no local. Depois, em 1994, após o falecimento de Senna, a TAS organizou o Memorial Ayrton Senna, que está instalado na casa que abrigou o antigo escritório do piloto.<br><br>O Memorial Ayrton Senna possui um acervo que inclui objetos pessoais do piloto, fotos, biblioteca, hemeroteca e outras fontes à disposição de estudantes e pesquisadores interessados na vida e carreira do inesquecível mártir da curva Tamburello.<br><br>O Memorial Ayrton Senna está localizado na Rua Dr. Edson de Melo, 96 – Vila Maria, distante uns 300 metros do Colégio Senador Paulo Egydio. A entrada é franca, mas a visitação deve ser previamente agendada.<br><br><br>[email protected]