Em termos de relevo, a região de Santo Amaro é relativamente plana até o Rio Pinheiros, sentido Sul-Sudoeste, a partir desse rio alinhado pela Estrada de Itapecerica da Serra e Estrada de Campo Limpo tudo muda, começa os côncavos e convexos, passando pelos bairros Jardim São Luiz, Jardim Ibirapuera, Vila das Belezas, Morumbi, Vila Andrade, Vila Prel, Parque Arariba, Parque Regina, Capão Redondo, Campo Limpo, Pirajussara e chegando a Taboão da Serra, onde temos autêntico dente de serra, um sobe e desce contínuo, uma verdadeira alterosa e em todos os vales que separam os bairros tem seu rio, seu córrego, como no Campo Limpo tem o Córrego do Pirajussara, famoso pelas grandes enchentes entre Campo Limpo e Taboão da Serra.
A Vila das Belezas, foco desse texto, como a maioria dos bairros tem a parte alta e a baixa, na sua parte baixa nosso bairro faz divisa com o Morumbi (Vila Andrade), Parque Arariba, Vila Prel e Jardim Ingá, entre outros, nessa região baixa corre um córrego que vem do Capão Redondo, chamado córrego do morro do "S" e vai desembocar no Rio Pinheiros, próximo à Ponte João Dias, hoje todo canalizado e por onde hoje passa a linha elevada do metrô. O metrô, linha lilás (linha-5), serpenteia a região seguindo o córrego praticamente em toda sua extensão e nas suas margens a nova Avenida Carlos Caldeira Filho.
Esse córrego servia de pescaria e natação para os moradores, principalmente as crianças da época de 1940 a 1965 e também dava muito capim-gordura nas suas margens, que em alguns pontos chegava a cobrir o córrego, onde os sitiantes iam cortar para seus animais. Esse córrego passava entre várias chácaras, como a do Candú, Cândido, a fazenda dos Abrantes e dos Andrades e a chácara dos Teixeiras. Essa região baixa de nossa vila era rica em caulim, barro branco argiloso usado em cerâmica, também possuía em seus arredores várias olarias de tijolinho como a do Sr. Palermo e outros, principalmente onde é hoje a Vila Ernesto e Vila Plana.
Esse córrego tinha largura variada desde 2m até 10m, local que era formada assim devido à exploração de areia e caulim e com isso formava verdadeiras lagoas de águas limpas e correntes, mesmo com o excesso de uso pela molecada, o melhor local para se nadar nesse córrego do morro do "S" era na divisa com o Parque Arariba. Ali, o córrego abria bem mais, onde nos reuníamos para nadar; a roupa ficava no barranco ao lado. Todos os dias, cedo ou à tarde, íamos para o banho, muitas vezes éramos expulsos por alguém que se dizia dono ou segurança ou ainda policial, nos fazendo correr, até nus, às vezes pelas chácaras entre o córrego e a Estrada de Itapecerica com as roupas nas mãos, justamente onde hoje é a garagem de ônibus Campo Belo, ex-Auto Viação São Luiz.
Os primeiros poluidores desse córrego foram a fábrica de baterias CD Prestolite, chamada na época de Fábrica de Chumbo, isso por volta dos anos 1940 a 1970, onde hoje é o Hipermercado Carrefour nas esquinas da estrada de Itapecerica e Av. Giovanni Gronchi, que jogavam nele vários tipos de poluentes inclusive tóxicos, mesmo porque o rio passava no quintal dessa fábrica, o cheiro era tão forte que ninguém mais se atrevia a nadar nele naquele ponto, distante uns 500m do Rio Pinheiros.
A outra empresa, já extinta na década de 1980, foi a Plásticos Dias e Curtume Dias, fundada no começo do século XX, estava instalada próximo ao Rio Pinheiros, onde hoje é o Terminal de Ônibus João Dias e Estação do Metrô Giovanni Gronchi e praticamente em cima do Córrego do Morro do "S"; e despejava todo seu poluente nas águas e, por conseguinte, no Rio Pinheiros que era bem próximo, uns 300m.
Outra empresa centenária, creio que seja a primeira de nossa região, foi a Super Bom, fabricante de mel, ainda em atividade, porém, com menor espaço, pois vendeu grande parte do terreno que criava gado e tinha plantações, instalada no bairro vizinho de Capão Redondo, também usava o córrego para despejar o poluente, já mais distante do Rio Pinheiros cerca de 5km. Também nessa região tínhamos as famosas e perigosas, mas atraentes, lagoas e lagos, a maioria formada também pela exploração de areia e caulim para obras de artes e tijolos.
Na Vila das Belezas tivemos a rigor três lagoas, existiam por exploração de argila e areia: a primeira era a do "buraco quente", cerca de uns 200m², onde hoje é o CEU Casa Blanca e a comunidade Santa Rita e São João Batista, também conhecida como favela do Rossi, devido a Rua Enrico Rossi, que circunda essa favela, como essa lagoa era perto de minha casa, ia com toda a molecada logo de manhã nadar, pois a água estava clarinha, ficava no meio de uma mata rasteira, depois das 10h da manhã, com grande assédio da meninada, a água fica turva, barrenta, era hora de ir embora, pois era impossível brincar de tão escura, dava até náuseas. Voltávamos no dia seguinte bem cedo, pois à noite a sujeira decantava.
Outra lagoa na mesma época, anos 1940 a 1968, quando foi desativada, era a lagoa do Preá, cerca de 1000m². Ficava mais precisamente no Bairro de Casa Blanca, ficava em um vale também, onde hoje é a Rua Gregório Allegri (antiga Rua Portugal), essa lagoa tinha as águas mais claras durante mais tempo e também era mais funda, pois era ladeada por barrancos cobertos de capim e mato. Além de nadarmos, íamos caçar preá e passarinhos nas barrancas de mata fechada, inclusive esse capinzal à beira era repleto de preá.
A partir dos anos 1970, abriram a rua para escoar a água e aos poucos foi aterrada parcialmente e abandonado o local. Nos anos 1980 ela começou a ser aterrada por total por umas pessoas aficionadas por futebol, para fazer um campo, e isso se deve ao Sr. Hélio, são paulino roxo, do bairro Jardim São Luiz, que tinha um time com mesmo nome, figura fanática por futebol e tomou essa iniciativa, juntamente com o Sr. Pascoal que era presidente de um time recém-fundado chamado CRB (Clube Recreativo Bragança), do Jardim Casa Blanca. O campo perdurou até 1996, quando foi desativado para a criação de um Colégio Estadual: Prof. Caran Apparecido Gonçalves, com inauguração em 1998, pelo então governador Mário Covas.
Na década de 1950 até 1965, havia a lagoa da Giovanni, ficava entre as atuais Av. Giovanni Gronchi e Av. Carlos Caldeira Filho, exatamente onde fica a antiga garagem de ônibus Auto Viação São Luiz, hoje a concessionária Honda e Ventuno de automóveis embaixo da linha do metrô na Vila das Belezas, também formada para extração de material para as olarias do local e também para a irrigação das hortas da região.
Nessa lagoa, lembro de um fato com um colega de infância de apelido "Cidade": na entrada da lagoa tinha uma rampa para escoamento da água da chuva que vinha do alto do Morumbi e ali formava um limbo escorregadio, ele tentou descer e escorregou batendo as partes íntimas na laje, gritava ao mais alto som, chorava e falava: “Perdi os meus órgãos”, para não dizer outra coisa, mas um dia casou e teve filhos, tudo normal. Hoje, tudo isso ficou no passado não tão distante, muitas vezes encontramos com algum colega dessa época e recordamos tais fatos, vale salientar que nunca soubemos de mortes nessas lagoas, ao contrário de outras grandes da região, como a comporta da Represa Guarapiranga e na própria Represa.
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