Fecharam-se as cortinas do espetáculo, arrebentaram-se os corações

Outro dia, passando a pé em frente ao Vale do Pacaembu, olhando para o imponente e majestoso estádio, local de tantas jornadas esportivas, me veio à lembrança o ocorrido em uma partida de futebol realizada no ano de 1958. Tinha eu na oportunidade apenas 14 anos de idade e já era fascinado pela magia do futebol, esse esporte que agita as massas e faz florescer na pele muitas emoções. O jogo era simplesmente um Santos e Palmeiras, válido pelo torneio Rio-São Paulo daquele ano; meu time de coração era o Palmeiras, devido à influência de meu padrasto italiano chamado Joseph.

O torneio Rio-São Paulo era repleto de craques renomados, todos selecionáveis, sendo que no Santos despontaria o menino Pelé, que iria se tornar mais tarde o atleta do século, e no meu Palmeiras a figura carismática de Mazzola, que depois viria a ter sucesso na Itália; ambos os atletas fariam felizes todos os brasileiros pela jornada vitoriosa na Suécia por ocasião da realização da Copa do Mundo naquele país.

Aquela noite memorável acima referida, para os amantes do futebol, escutaria no rádio de um vizinho chamado Domingos um corintiano de carteirinha que ainda me tiraria uma casquinha, pois no primeiro tempo desta partida o placar era uma goleada de 5×2 a favor da Baleia, apelido do Santos; vale frisar que o único rádio da família tinha queimado, estourado as suas gigantescas válvulas e meu padrasto não pôde ir no dia anterior à Rua Santa Efigênia comprar outras para o devido reparo, esse era o motivo de não ouvir esta partida em nossa modesta casa, sendo que minha adorada mãe Izabel perderia as suas melosas novelas na então famosa Rádio São Paulo.

A magia do rádio então nos transportaria para dentro do gramado, no pensamento, na imaginação passaria as jogadas sensacionais dos jogadores, os gols foram acontecendo, o placar se revertendo, uma hora era o Mazzola, o Urias, o Pepe, Pele, Paulinho (este vindo do Flamengo), Nardo, outra hora era o ponteiro direito Dorval; era o delírio para quem teve a oportunidade de assistir “em loco” esta partida que, segundo notícias da época, arrebentou muitos corações tal a emoção. Como o primeiro tempo fora 5×2 para o Santos, ninguém poderia imaginar a reviravolta esmeraldina que incontinentemente aconteceu, 6×5. Todavia, esse não foi o resultado final, os deuses assim não o queriam, pois um tal de "canhão da vila" chamado Pepe sepultou os sonhos de vitória verde, “7×6 a favor do Santos”, gritaria o locutor esportivo; confesso que uma tristeza profunda se apossou deste então jovem coração.

Todavia, esta partida, como consolo, foi considerada uma vitória tal a voluntariedade da equipe esmeraldina que a cúpula ofertou um bicho volumoso premiando o espírito de luta da equipe. Os jornais da época, a TV em preto e branco enalteceram e coloriram este espetáculo memorável que, ao fecharem-se as cortinas, arrebentaram corações…

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