As brincadeiras com a turma de rua ou do bairro, nas décadas de 50 e 60, começavam logo de manhã. Era normal sairmos de casa logo cedo, às pressas, e encontrar a molecada para iniciar a "labuta" diária na rua. Começávamos com a moda naquele momento que podia ser bolinha de gude, passava para o pião, depois bate lata, mãe da mula, pega-pega, futebol no campinho, soltar quadrado, balão, juntar figurinhas em álbuns que vinha em balas e ou envelopes e isso até anoitecer e assim por diante, quando "batíamos o ponto" e íamos embora, nossos pais a espera com o cinto, principalmente o meu, a surra era boa.
A vontade de brincar era tão grande que a maioria da meninada saia de casa com um lanche na mão e ia comendo até o "point" do bairro para começar o dia e todos sabíamos, quem levava o melhor lanche e se até o encontro o moleque não tinha comido tudo, seria alvo do assédio, era um tal de, "macaquinho quer" e o sujeito era obrigado a repartir seu lanche, azar daquele que não comia logo.
Tínhamos um colega, inclusive de família muito pobre (mais que da maioria de nós) chamado Américo, que tinha um irmão com problema mental, que também andava com a gente às vezes, de apelido "Ma", nunca soube seu nome, era muito grande e forte. Outro era o Ismael e tinha duas irmãs, eram de etnia negra, como muitos no bairro. O Américo ia ao nosso encontro com lanche também, mas ninguém "filava" o lanche dele, pois o pão era recheado com arroz e feijão e dava um aspecto ruim, estranho… E para piorar ele tinha o hábito de roer pedaços de tijolo e às vezes torrão de barro duro, diziam que ele tinha lombriga ou verme no intestino.
Enfim, a tropa era bem divertida cada um tinha sua especialidade, era bom em alguma brincadeira. Alguns, muitas vezes quando passava um caminhão de bebidas lentamente pelas ruas esburacadas ou demorava na subida da rua pulavam na rabeira e pegavam algo, além de andar na rabeira.
Muitas vezes, durante muito tempo pegávamos rabeira de ônibus na subida da Rua Um, hoje Rua Geraldo Fraga de Oliveira, em frente à padaria São Luiz, da família Tertuliano, onde começava a subida da rua e descíamos na esquina da Rua B, hoje João Fernandes Camisa Nova Junior, em um percurso de uns quinhentos metros. Muitos se queimavam no escapamento traseiro do ônibus, que era da empresa São Luiz Viação Ltda, hoje Campo Belo.
Interessante que cada mês tinha uma brincadeira diferente, a exceção era soltar quadrado que era mais nos mês de julho, mês das férias, e agosto pelos ventos favoráveis, além de balão nas festas juninas… Futebol era uma constante e as demais brincadeiras tinha mês certo, parece que já existia na época alguém que divulgava ou dirigia essas coisas… Cada uma tinha seu momento: pião, bolinha de gude, figurinha também, assim como carrinho de rolimã e outros.
Hoje, passado meio século, fico imaginado que todas aquelas multibrincadeiras contrasta com as de hoje em todos os sentidos, vivíamos na rua, pois em casa tínhamos no máximo um rádio fanhoso, que parecia uma luminária de tantas válvulas que tinha. Atualmente a maioria das crianças ficam em casa, o mundo gira dentro do lar através da informatização.
Penso sempre onde estão as crianças do meu bairro, as brincadeiras seja ela qual for, as ruas estão sempre vazias, só aquele piso negro, que outrora era vermelhão. Óbvio, reflito, estão em casa, na TV, no computador…
Nos fins de semana, mesma coisa: ninguém nas ruas, continuam nas suas casas. Muitos vão aos parques da cidade que são em números razoáveis.
Em um desses domingos, para minha surpresa, saindo de carro a tarde, resolvi entrar com minha esposa num projeto CEU da Vila das Belezas para mostrar a ela um tanque com peixes ornamentais, pois ali faço a minha caminhada matinal diariamente e vejo esse tanque com o peixes coloridos.
Qual foi minha surpresa na entrada vejo uma "bando" de crianças de todas as idades praticando vários esportes como futebol de salão, skate, vôlei, caminhada, natação e jogos diversos de mesa… A maioria dessas brincadeiras não havia na minha época. O som do vozerio era impressionante, discussões, gritos… Fez me retroagir meio século e me sentir no meio deles, só que nós fazíamos o mesmo, porém nas ruas.
Creio que esse sistema tende a se intensificar em mais ambientes fechados como esse, como o Sesc, CEU, condomínios residenciais, que inclusive foi um dos motivos da queda de sócios em clubes esportivos tradicionais. Devido à urbanização crescente e trânsito sempre congestionado em todos os cantos, esse sistema de integração lúdica é o melhor negócio.
Recentemente assisti a uma reportagem em um canal de TV, havia um evento realizado com a criançada, onde o tema era brincadeiras antigas, colocando os jovens a par do que existia na época dos pais e avós, mostrando que sempre existiu a diversão e eles ficaram conhecendo o pião, bolinha de gude, peteca, amarelinha e outros.
Que o passado esteja sempre presente e seja bem vindo através desses projetos de interação e conhecimento.
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