Após trabalhar 36 h, com interrupção apenas para pequenos cochilos, saio em direção à minha casa, mas antes decido passar no Shopping Morumbi para revelar umas cópias de fotografias que eu teria que devolver.
Estava em frangalhos, estressado, com os olhos vermelhos, não vendo a hora de tomar um banho e relaxar. Chego ao Shopping, paro o carro, revelo as fotos e volto para o estacionamento.
Ando para a direita, para a esquerda, para frente, para o lado e não acho o maldito carro. Procuro o auxílio de um ronda de motocicleta do shopping e ele pergunta:
– “Qual é o seu carro?”
– “Um Santana preto”.
– “E qual é a chapa?”
Gaguejando de vergonha eu digo:
– “Bem, olha para falar a verdade eu não me lembro”.
Gentilmente ele diz para eu ficar no lugar, não sair que ele, de motocicleta, iria localizá-lo. Sai e volta dizendo que naquele andar não havia nenhum carro desse tipo, mas que passaria um comunicado por rádio para que os outros "rondas" dos demais andares também o procurassem.
Acharam um modelo igual no andar de baixo. Agradeço e me dirijo para lá desconfiado, por que eu tinha a impressão que não havia nenhuma laje acima, pois eu acreditava que havia parado no último piso.
Aproximo-me do carro e vejo que não era o meu. Conclusão: roubaram o meu carro! Sou orientado a ir conversar na administração onde um sujeito brutamontes acompanhado de outro fortemente armado me informa que isso era raro acontecer, mas já aconteceu.
Ele me orienta para registrar uma queixa na administração e outra na delegacia de polícia próxima e retornar com uma cópia do boletim de ocorrência. Dá-me um formulário que começa perguntando qual é a chapa do veículo. Novamente gaguejando digo que não me recordo e ele pergunta:
– “Você não tem um documento do carro?”
Pensei comigo mesmo: “É claro que tenho. Como é que eu não pensei nisso antes?”. Puxo o documento meio sem graça e sai… O do Fiat! Aí a casa cai. Senti uma onda de calor, um comichão passar pelo meu rosto. Explico que eu trabalhara tantas horas, estava cansado, estressado e que na verdade eu estava com um Fiat.
O brutamontes então comunica por rádio as características do carro e o Fiat é localizado. Nisso chegam duas senhoras que também não achavam o carro.
Novamente ouvi a mesma pergunta:
– “Qual a chapa do carro?”
E novamente ouvi de uma delas a resposta:
– “Não sei, não me recordo” – com um olhar de desespero dirigido a minha pessoa e outro para sua companheira, que repetia:
– “Como não sabe? Como não sabe?”
Com ar de reprovação, olho para o chão, balanço a cabeça para um lado e para o outro e faço com a voz um “tsc, tsc…”.
Saio e sigo pela Avenida Vicente Rao em direção à minha casa com uma sensação de quem está precisando de férias. Estranhamente identifico dentro do carro alguns objetos da minha esposa, que não me recordo haver colocado lá.
Deixo o carro na garagem, subo com os objetos que estavam dentro, tomo o fatídico banho, saboreio um suco de laranja, relaxo no sofá, e ligo a TV, quando após algumas horas entra minha esposa nervosa dizendo que havia ido ao Shopping Morumbi, ficado um tempão procurando o Fiat, que tinha certeza que tinha ido com o Fiat, que não estava ficando louca, mas descobriu que na verdade estava com o Santana, pois o encontrou parado no estacionamento sem seus objetos deixados dentro do carro, acreditando ter sido furtada por deixá-lo destrancado.
Como marido compreensível que sou, recomendo que ela tome um bom banho quente, relaxe, prometo fazer para ela um suco de laranja e explico que provavelmente ela havia deixado os objetos pessoais em casa e que a ajudaria a procurar mais tarde, o que ela me obedeceu reclamando um pouquinho.
Após um mês, passamos 18 dias mergulhando nas barreiras de corais da divisa de Pernambuco com Alagoas. São Paulo é mesmo uma cidade muito complexa e estressante.
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