Se existe um profissional que tem muitas histórias para contar, esse é, sem dúvida, o taxista. Pena que a maioria não se dê conta disso. Essas histórias, se reunidas, dariam um volumoso livro de contos ou crônicas.
Tenho um concunhado taxista. Logo que se casou, o sogro, mestre de solda dos mais competentes, tentou fazer dele um metalúrgico. O sogro foi chamado para trabalhar na Krupp em BH e lá se foi meu concunhado com a esposa e a filha pequena, de mala e cuia para as Alterosas. Até apartamento alugou. Não deu certo. Ele não levava jeito para a coisa. Voltou para a sua Lapa aqui em Sampa, comprou um fusquinha, que transformou em táxi. Seguiu os passos do irmão mais velho, já na praça, sendo seguido bem mais tarde por sobrinhos, cunhados e até pela própria filha, já casada. Uma família de taxistas.
O começo não foi fácil, crise do petróleo, gasolina cara, início incerto do Proálcool. Fez o que muitos imprudentemente fizeram, adaptou um botijão de gás atrás do banco traseiro, em cima do motor.
Veio o financiamento especial para taxistas, ele passou para um Monza. Era dado a malandragens. Adaptou um botãozinho ao lado do volante que, acionado, fazia o taxímetro andar mais rápido. Um dia um passageiro mais esperto percebeu e ameaçou denunciá-lo. Não deu em nada. Ele rapidamente retirou o dispositivo e não tinha como o sujeito provar nada. Seria a palavra de um contra a do outro.
Depois de muito batalhar, conseguiu a almejada vaga para trabalhar em Congonhas, ponto rentável e cobiçado por todos. Foi trocando de carro, para se adequar às normas do ponto, que exigia carros maiores e melhores. Já não apanhava mais passageiros na rua. Saía do ponto com passageiro identificado e destino certo, tudo devidamente registrado pelo fiscal de ponto. Voltava vazio para o ponto. Vez ou outra uma corrida mais gorda, para Santos ou interior. Parou com as malandragens. Qualquer deslize poderia custar a perda da vaga no ponto. Está lá até hoje.
e-mail do autor: [email protected]