Papê, Nonó e a caixa de fósforo

No panorama de meus parentes ascendentes, o relacionamento foi muito bom, na maioria das vezes. Já falecidos, guardo boas lembranças de quase todos, apesar desse contato se restringir a minha infância e juventude. Digo, "quase" por certos dissabores que tivemos e que, em breve, vou relatar. Meus pais, que eu adorava, nos deixaram, meu pai com 68 anos, em 1958 (eu tinha só 25), minha mãe com 85, em 1981 (eu, com 49), a última das irmãs, irmãos, cunhados e cunhadas.

Dos quatro avôs e avós, o contato mais extenso é com meu avô materno, Vincenzo Mônaco, falecido na década de 1950, com mais de oitenta anos.

Ele e minha avó, Maria Labate Mônaco, falecida em 1943, com 64 anos, formam um casal simpático, moram na Travessa do Gasômetro (hoje tem outro nome), uma pequena vila, sem saída, travessa da Rua Assumpção. Chamamos, carinhosamente, ele de Papê e ela de Nonó. O casal vem da Itália (Polignano à Mare, Bari) no início do século passado (XX, pô, como estou velho, quando falo em "século passado" penso no XIX), com seis filhos: Vito, Rosalia, Modesto, Francisco, Maria e Felícia (minha mãe). O sétimo, Dionísio, nasce no Brasil.

Nonó, com reumatismo violento adquirido quando fazia e remendava as redes de pesca do Papê, em Polignano (redes quase sempre molhadas), é de uma bondade e carinho extraordinários, guardo ótimas lembranças dela. Tenho hábito quase diário de ir a sua casa pedir pão com azeite. Moro na Rua Assumpção, em frente à travessa, com nove ou dez anos, adoro seu pão que, ao contrário do pão de casa, feito pelos meus pais, uma vez por semana, é comprado da "Padaria Trieste i Trento", na carroça que passa todos os dias. Um pão de banha, formado com dois filões grudados um ao outro como um "H", com um desnível proposital entre eles. Ela me dá o "papaccilo", bico do pão, faz um buraco no miolo e enche de azeite com uma pitadinha de sal. Um deleite só. Junto a eles mora uma irmã da Nonó, tzi Anina, que, ao me ver chegar, diz a Nonó no dialeto: "mu vaine u uomene du pane" (aí vem o homem do pão).

Estas investidas não são muito simpáticas ao Papê que, trabalhando como vendedor de peixes, tem dois balaios presos num bambu, um em cada ponta, carrega nos ombros visitando todo o Braz, Mooca, Belém e adjacências. Com rendimentos bem modestos e pra equilibrar o orçamento da casa, o corte de despesas se faz necessário. A Nonó está atenta, mas sua bondade extrapola os limites do bom senso, o pão pro neto, nem pensar em negar. Na preocupação com a economia, consegue guardar um dinheirinho que sobra das compras. Onde guardá-lo? Não tem cofrinho, poucos recipientes, não quer que o Papê encontre, tem uma ideia: encontra uma caixa de fósforo vazia, coloca a nota bem dobrada e põe no armário, ele nunca vai descobrir.

Papê, velhinho saudável, tem pequenos vícios contraídos no Adriático, quando moço e depois de casado, na rude tarefa de pescador profissional.

Um é não dispensar um copo de vinho durante as refeições, outro, dar uma boa cachimbada na "pipa", composta de um pequeno cilindro de bambu, de vinte a trinta cm. de comprimento e diâmetro de, mais ou menos, cinco a sete milímetros, e um pequeno cachimbinho de barro, preso numa das pontas, após as refeições. Bem popular.

O mais áspero de seus vícios é ser rabugento, intolerante e pouco dado a um bom papo. Devido a anos de trabalho no barco de pesca, guarda certa dificuldade no relacionamento com parentes, habituado que está em ficar isolado por mais de semanas; quando a pesca não rende o esperado, então… sai de baixo… Fora isso, é um bom homem.

Um dia destes, terminado o jantar, está próximo do fogão, a carvão, se aquecendo, está muito frio. Enquanto Nonó lava a pouca louça, Papê resolve dar uma cachimbada. Pra tanto, precisa de fogo, vai até o armário, pega a caixa de fósforo, sacode, leve e sem ruído, vazia, guardada pra quê? Joga a caixinha no fogo. Nonó, de costas, nada vê; em seguida pede pra Nonó o fósforo, diz que encontrou uma, no armário, estava vazia e jogou fora. Ela, meio desesperada, pergunta: "a dau eminete" (onde você jogou). Ele, candidamente, responde: "a lu fuoc, feche fride, é buna…" (no fogo, faz frio e é bom…). Nonó quase desmaia…

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