Buscando informações para a minha história da gastronomia paulistana descobri que dentre os estabelecimentos hoje em atividade, incluídos no guia Veja São Paulo, existem cinco padarias, que atendendo sua clientela, funcionam há pelos menos noventa e sete anos. A mais antiga, Santa Tereza, é de 1872 e esta hoje atendendo na Praça João Mendes. As outras quatro operam no Bixiga (Bela Vista).
Esta constatação levou-me a procurar estudar o passado mais distante da gastronomia paulistana, aprofundando-me nas padarias. Para atualizar minha vivencia dei inicio a minha pesquisa de observação participante visitando a mais longeva das padarias, registradas pela Veja São Paulo.
No sábado, 3 de dezembro de 2011, por volta das 10h, desembarco em plena Praça João Mendes, logradouro que merece uma visita de pelo menos um dia, para recordar o passado e viver o presente. Antes de ir para a Santa Tereza, não resisti á uma visita, não programada, a Igreja de São Gonçalo.
Edifício de razoáveis dimensões, provavelmente datado do século 19, pintado de amarelo, permite imaginar um interior cheio de espiritualidade. Uma escada de pedra, da largura da fachada, conduz os fieis a entrada do templo. Uma das laterais foi adaptada para permitir que cadeirantes tenham acesso à igreja. Esta rampa termina em uma entrada lateral que dá par a um corredor que permite se chegar à sacristia.
Na secretaria não consegui um folheto sobre a historia desta igreja, monumento de nossa arte sacra.
O corredor lateral é cercado em seus lados por vitrines que guardam imagens de santos, de grandes dimensões. Imagino que os mesmos seriam utilizados em procissões. O ambiente é escuro e mal iluminado e as imagens não têm qualquer identificação. Parece um deposito que bem iluminado e com indicações sobre os santos, seria um valioso roteiro para o turismo sacro de São Paulo. Do corredor se tem acesso direto à nave da igreja, de dimensões medias. O lindo altar, imponente, em estilo barroco, recebe a luz natural de uma linda cúpula de vidro. As duas laterais ostentam mais dois altares belíssimos que guardam muitas imagens, de cada lado da nave dois confessionários majestosos, e nos altos quadros da tradicional via sacra.
Os bancos em madeira nobre e os pisos em ladrilhos hidráulicos compõem um ambiente de religiosidade, A direita de quem entra no templo há um altar com uma cena em tamanho quase natural da crucificação de Jesus, Nas janelas da fachada ricos vitrais e a imponente porta principal, em madeira nobre, hoje pintada de branco, não perde sua majestade.
Quase em frente à igreja a antiga marquise dos bondes com ponto final na praça, acolhe hoje uma simpática floricultura. Caminhando em direção ao fórum, chegamos à fachada da tradicionalíssima livraria Sebo do Messias, um curiosa vitrine exibe antigos aparelhos eletrônicos de som e imagem. Sem duvida é um espaço que merece uma demorada visita.
Colado ao Messias um casarão provavelmente dos finais do século XIX, guarda a nossa mais que centenária padaria. Na entrada se recebe uma ficha que indica ser a casa totalmente informatizada.
Um grande salão, possivelmente reformado no inicio dos anos 2000, comporta as múltiplas instalações de uma padaria contemporânea. A esquerda de quem entra o balcão de pães, doces e bolos, a direita um enorme balcão em forma de U comporta pelo menos setenta clientes sentados. As instalações modernas se destacam por sua higiene e limpeza, o piso e os balcões em mármore, os equipamentos modernos em aço inox, conservam e expõe os alimentos. Ao fundo uma grande chapa prepara lanches especiais. Conhecida há muitos anos por suas coxinhas e sua farta canja de galinha a padaria atrai uma multidão de clientes todos os dias.
A esquerda de quem entra uma imponente escada e um elevador leva os fregueses ao andar superior. Ao abrir a porta do elevador, a primeira surpresa. O bicho é grande e totalmente forrado de espelhos cristalinos. Ao desembarcar no andar de cima novo encantamento. Um hall em arcos com piso de lindíssimos ladrilhos hidráulicos abre-se em arcos para uma salão de grandes dimensões. Seu piso é todo em tabuas de madeira nobre, com mais de 30 cm de largura que mesmo mostrando sinais de muitos restauros ainda conserva pedaços de tempo de sua construção, possivelmente datada do século XIX.
As mesas, em madeira nobre, tem os pés em ferro fundido e formam conjuntos para receber de dois a seis comensais, nos cantos sofás estofados de couro, circundam mesas redondas que acomodam até oito amigos. As mesas estão guarnecidas de uma correta louça branca e de bons talheres em aço inox, ostentam ainda um gracioso galheteiro. As cadeiras tem acento e encosto estofados em couro.
A próxima surpresa é o cardápio. Nunca vi nada igual. São 16 paginas com ofertas dos serviços da casa, propondo alternativas para lanches da tarde, almoços e jantares. A variedade da carta é imensa, incluindo uma carta de vinhos bastante rica para este tipo de casa. Ao sair tive atenção voltada para o prato que um garçom ia levar a mesa. Questionado ele me informa é um file a Oswaldo Aranha, um clássico dos anos cinquenta.
O restaurante merece uma visita, desta vez para desfrutar e descobrir suas especiarias, avaliar o ambiente e o serviço. Na mesma calçada, caminhando em direção ao fórum, vamos encontrar a Tupi, loja que vende coisas de casa: uma grande loja de roupas masculinas a “Wolf” Alfaiataria e na esquina uma fina loja de calçados femininos, a Santa Vitta.
Para concluir, quero convidar meus amigos para esta pequena viagem de uma tarde, pelo tempo e pela historia.
Atrativos: no lugar do carro ou helicóptero, metrô; no lugar de shopping lojas de rua e restaurantes no lugar das praças de alimentação. A visão e o desfrute da paz espiritual no interior de uma simpática igreja.
Vamos divulgar as belezas escondidas dessa nossa querida São Paulo.
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