Dona Joana Faxineira

Dona Joana, a baiana negra, faxineira, analfabeta, moradora do Jardim São Luiz. A mãe do Vicente e da Cidinha que migrara para São Paulo fugindo da pobreza e da fome. .

Aqui só lhe restou encostar-se na casa de parentes e trabalhar como faxineira. Foi nossa faxineira por muito tempo até que a aposentamos, já que com a idade não dava mais conta do recado.

Eu, como recém casada, era totalmente ineficiente como dona de casa. Trabalhava meio período como professora e, se pudesse, não voltaria para casa para enfrentar os afazeres domésticos, já que alguns deles me eram absolutamente desconhecidos .

Na época os professores homens trabalhavam de terno e camisa social. O meu marido era professor, descendente de uma família ítalo-alemã, e usava camisas engomadas. Ao casar-se trouxe 35 camisas todas muito bem passadas e engomadas pela irmã Ivone.

Guardou-se a pilha de camisas no guarda roupa e eu com desgosto ia vendo que a altura da pilha diminuir cada vez mais, já que para lavar roupa havia a máquina, mas passar requeria conhecimento e habilidade. Estava me perguntando o que fazer, o marido até sabia passar camisa, mas trabalhava o dia todo e eu que ficava meio período em casa estava me sentindo na obrigação de pelo menos passar algumas camisas.

Sai certo dia bem cedo para dar as primeiras aulas no Colégio Alberto Conte em Santo Amaro, um colégio relativamente próximo, já que morava na Chácara Santo Antonio ou na Granja Julieta como esnobavam alguns dos nossos vizinhos.

Estava um tanto quanto desanimada, já que ao voltar tinha me imposto passar camisas porque o estoque não duraria mais que uma semana. Fiz ainda um pouco de hora e cheguei em casa. Ponho a chave na fechadura abro a porta de entrada do sobrado geminado e vejo uma sorridente senhora negra que logo foi dizendo:
– “Não se assuste dona, seu marido é que me contratou, apertei a campainha, disse que estava procurando emprego e ele me perguntou se eu sabia engomar e passar camisas. Como eu disse que sabia, me mandou entrar mostrou onde estavam as camisas e o ferro e me deixou fechada aqui dizendo que a senhora chegaria depois das 10h."

Fiquei aliviada, afinal alguém iria passar as camisas e, segundo a dona Joana, naquele dia 25 ela virou a mãe postiça dos recém casados, viu nascer nossos filhos, nos acompanhou por mais de dez anos. Esteve junto com a gente nos bons e maus momentos, foi um exemplo de amizade e solidariedade, passados mais 30 anos não nos esquecemos de um acontecimento marcante.

Por 15 dias eu e meu marido estivemos, no início dos anos 70, como "educadores subversivos" guardados no Dops. Voltamos para casa, amedrontrados, sem emprego, praticamente vivendo dos favores da família… Eis que de repente chega dona Joana para uma visita:
– “Olha vim aqui porque o Vicente falou que vocês não estão mais lá na escola, acho que vocês estão sem emprego. Então vim dizer que eu venho aqui fazer faxina de graça para a senhora, vocês só me pagam a condução"

Não há como não se emocionar com a solidariedade da dona Joana, dentre as poucas pessoas que na época tiveram a coragem de nos visitar.

Que saudades da dona Joana, de quem não mais soubemos, desde que ela foi para Parelheiros construir sua casa, no terreninho que estava comprando de longa data. Uma saudades imensa da nossa mãe postiça, que com certeza já não está mais entre nós.

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