Viagem de São Paulo a Santo Amaro

Arrumei as malas em viagem das mais ricas que se pode fazer: viajar pela história em outro tempo, podendo ser o espaço aquele que foi ocupado no passado, mas somente possui alguns vestígios arqueológicos de outra época.

Embarquei sem me importar com a classe da viagem, pois isso não tinha importância alguma para tantos que "irão" embarcar juntos. Partimos neste passado das marcas de São Paulo, de tantos que por este rincão passaram um dia fazendo parte desta paisagem bonita que ficou para trás observada na janela da história viva, real e sempre ativa. Evidente que este olhar é de alguém que não participou desta história, mas embarca nos anais dos documentos provenientes de cuidadosos homens que registraram todos os passos do que viria a ser a maior metrópole do Brasil.

Antes do embarque precisava conferir a bagagem. Uma coisa importante faltava para guiar qualquer viajante: um mapa.

Muito bem elaborado, de fazer inveja aos melhores guias da atualidade, abro com vontade de aprender um "Mappa da capital da provincia de São Paulo, 1890 – Planta da capital de São Paulo e seus arrabaldes", desenhado e publicado por Jules Martin.

Fiquei maravilhado quando nas primeiras incursões cartográficas, com todo respeito aos geógrafos, por esta ousadia, aparece nas demarcações territoriais da cidade: terra d' bella vista. Busco alguma identidade de partida aparecendo o Ribeirão Saracura, hoje oculto por baixo da Avenida Nove de Julho, como também o Ribeirão da Bexiga, dois amigos que de repente se encontram e juntos caminham ao encontro do Ribeirão Anhangabaú.

Esta paisagem contemplava todo Vale a partir do Largo da Memória, atualmente algo perdido, somente recordado por uma soturna lembrança teimosa de alguém, sendo a memória o sexto sentido do humano, completando os cinco comumente usados do dia-a-dia.

As águas deste lugar foram, um dia, ponto de encontro de viajantes cansados, transportados em lombos de mula, estafados pela estrada interiorana, esparramados ao chão a trocar um dedo de prosa.

Continuando esta viagem, segui o mapa pelo indicador e observei as águas irem tranquilas a buscar seu curso natural e alimentar o denominado rio Tamanduatehy, próximo à várzea do Carmo, na rua existente desde então: 25 de Março. Adiante havia enorme alagado, e no final da Tabatinguera o Hospício dos Alienados.

Fiz uma pausa para entender o mapa e a palavra que me deparei repentinamente, pensando se somos alienados há tempos, como o ditado "poeta e louco temos todos um pouco". Pensei nesta análise e considerei assim fincado nestas raízes ser louco por São Paulo.

Neste devaneio momentâneo acordei e pus-me em pé recuperando as forças da viagem, estando próximo da várzea do Carmo, um alagado. Continuei para a esquerda no mapa onde já havia sinais da expansão industrial inglesa, com sua "globalização" à antiga por meio da São Paulo Railway.

Com a Estrada de Ferro do Norte sendo ponto de encontro no "Braz", onde as culturas se encontravam na Rua Visconde de Parnahyba com a Rua Concórdia, onde estava o "Setor de Immigração".

O Tamanduatehy corria solto, embora já houvesse intenção de retificá-lo e torná-lo um canal para expandir a cidade sobre sua várzea. Neste momento ele ainda imperava correndo solto para a Ponte Pequena, ao encontro do Rio Tietê, que por sua vez deslizava sob a Ponte Grande, que ligava São Paulo à cidade de Bragança, que não era o meu destino. Voltei mais para o centro da cidade, ainda muito tímida como capital, onde no Morro do Chá havia um local de rodeios, o Largo dos Curros, atualmente a Praça da República. Um pouco mais à frente havia a "Casa da Correcção", próximo ao Convento da Luz, e o Novo Quartel, hoje o Tobias de Aguiar, mas em lados opostos.

Procurava um tesouro, mas não sabendo onde se encontrava, segui em frente como um arqueólogo teimoso buscando o desconhecido, sabendo que em algum local de repente iria tropeçar em algo diferente. As cartas geofísicas das cidades geralmente não mostram as reais intenções dos gestores, sendo válido também para a atualidade. O subterrâneo das várias cidades enterradas faz parte de um sistema de coisas que se quer esquecer, destruírem o atraso e reerguer a modernidade. Deste modo, as estruturas capitalistas vivem em destruir e construir seu modelo de subsistência da economia do comércio. As lembranças históricas das pessoas não podem ser destruídas facilmente, pelo respeito cultural dos povos, sem exceção, porque acabando este vínculo acaba a identidade.

Estando eu dentro do trem da história, com minha visão da contemporaneidade, que infelizmente falseia no conto e aumenta um ponto, ou por vaidade ou por limitação humana, segui empolgado pelas descobertas passadas como diante do quadro de um pintor famoso que sabemos de sua beleza pelo estampado na tela, segui outro mapa com data de 1897.

Uma beleza de traçado, feito a bico de pena, ora de traços firmes delineando ruas, rios e praças, ora de extrema suavidade a contornar letras bem estruturadas, separando neste momento um século de história indicada pela "Planta geral da capital de São Paulo, "organisada" sob "direcção" do dr. Gomes Cardim". Intendente de obras – 1897. Realmente é um mapa de quem entende da cidade de São Paulo, caso raro nas gestões municipais atuais.

Segui a navegar sobre as águas do Rio Tietê, com toda sua "sinuosidade varzeana", um convite ao deleite de muito menino sempre pronto a saltar em suas águas, embora houvesse bancos de areia traiçoeiros, produto escavado dos rios que ergueu empreendimentos de muitos barões do café.

São Paulo possui um leito hídrico impressionante: o Tietê recolhe como uma mãe todos os seus filhos soltos pelo Planalto, inclusive pequenos filhotes como o Tietequera, que formava a várzea do lado oposto da Rua Cantareira. Indo mais à frente para os lados da Voluntários da Pátria, em direção a Santana, entrando na Rua Alfredo Pujol, vê-se a Tramway da Cantareira.

Os olhos seguiam o traçado repentino, saindo do lado norte da cidade desloquei-me para o sul, algo possível somente nestas viagens históricas, deparei-me com algo que me chamou atenção: a atual Brigadeiro Luis Antonio foi a junção da "Estrada Carguassu" e da Rua Santo Amaro, a partir da direita seguia a Paulista no sentido "Paraizo", cruzando com a Vergueiro indo no sentido da Villa Clementino.

Neste momento deparo-me com o "fio da meada" arqueológica que tanto procurava e que os antigos "paulistas santamarenses" falavam com orgulho: o Carril de Santo Amaro.

Um lugar longínquo, uma cidadezinha interiorana, caipira no trato, bela no ato, separava os botinas amarelas em quase vinte quilômetros da capital de uma estrada de ferro construída por um visionário nascido em Bremenhaven, Alemanha, em 31 de julho de 1845, vindo para o Brasil em 1862, naturalizando-se brasileiro, acreditando na sua nova pátria.

Georg Albrecht Hermann Kuhlmann, engenheiro formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, trabalhou para o Império em planejamento urbano. Em 1879 veio para São Paulo, contratado para superar o modelo de cidade do interior existente até então, sem planejamento e reformular conceitos novos de uma cidade moderna. São Paulo possuía uma população à época de 30 mil habitantes, sendo quadruplicada no final do século. Deste modo São Paulo precisa sair de condição da construção do improviso da taipa de pilão.

O engenheiro Alberto Kuhlmann construiu a Ferrovia de Santo Amaro, inaugurada em 14 de março de 1886, após ter percorrido 19,1 quilômetros, chegou a Santo Amaro a primeira composição ferroviária da Companhia Carris de Ferro de São Paulo a Santo Amaro para o transporte de cargas, em uma época em que Santo Amaro supria a capital de São Paulo com aproximadamente 25 toneladas de produtos por ano, seguindo o plano de estrutura de abastecimento da cidade de São Paulo.

Projetou e construiu também o Matadouro Municipal de Vila Clementino, oficialmente inaugurado no dia 5 de janeiro de 1887. Localiza-se no Largo Senador Raul Cardoso, nº. 207, em Villa Marianna, atualmente espaço da Cinemateca Brasileira, atrás do DETRAN. Tanto o Matadouro quanto a ferrovia obedeciam a um plano diretor de expansão da cidade que estava em franco crescimento.

Em 1891, com a República, foi eleito deputado estadual para formar a Constituinte de São Paulo, em 1891. Faleceu na Alemanha, em 1905, representando o governo brasileiro para fortalecer o intercâmbio e fazer propaganda do café paulista.

A crítica é salutar e o modelo ideal para aprimorar o conhecimento do objeto que se quer estudar, por este motivo buscamos o entendimento da disputa de poder industrial entre ingleses e alemães pela hegemonia de tecnologia das ferrovias, além de saber mais do trem a vapor da empresa alemã Krauss ou os Kastenloks da "Companhia de Carris de Ferro de São Paulo a Santo Amaro", financiado exclusivamente por investidores privados santamarenses.

Esta é outra história fascinante que nos levará um dia qualquer a outra viagem ao tempo!

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