Dois amigos e um quadrinho

Corria o ano de 1932. Meu pai tinha seis anos e vivia com seus irmãos e seus pais num casarão da Rua Nilo, que ainda existe. A Rua Paraíso era uma rua de terra onde existiam algumas chácaras e terrenos baldios, prédios altos não havia, e da varanda da casa do meu pai podia-se ver o Ipiranga e a Mooca à distância. Era uma época de tardes longas e calmas, ruas sem barulho, crianças brincando livres e soltas sem que os pais se preocupassem. Um tempo bom.

Meu avô tinha vários conhecidos ali na Rua Paraíso de outrora, passando tardes de sábado conversando e fumando com as famílias vizinhas, à sombra dos abacateiros e palmeiras. Minha avó o acompanhava às vezes, pois com cinco filhos, roupa para lavar no tanque e macarrão caseiro para fazer, nem sempre era possível.

Um dos melhores amigos do meu avô era um tal de seu Romão, um outro Português de bigodes que residia com extensa família numa bela chácara. Era artesão por profissão e por gosto, produzindo lindos trabalhos entalhados a canivete, os quais vendia e exibia pelas paredes de sua casa.

Uma tarde, chegando para visitar a família do Romão, meu avô encontrou o amigo em desespero: um ladrão havia entrado na chácara e roubado seus melhores trabalhos entalhados.

Ladrão naquela época já era novidade, mas o roubo dos trabalhos do Romão correu longe. Não tinha quem não soubesse e sentisse por ele. O roubo colocou um medo novo no bairro quieto e feliz: quem teria sido o ladrão e quem seria a próxima vítima? Pessoas começaram a fechar as janelas e portas.

A próxima vítima quase foi o meu avô. Ao chegar do trabalho uma noite, viu um vulto pulando da janela do porão. Na pressa, deixou um saco com as coisas roubadas, mas meu avô não conseguiu identificá-lo.

Alguns meses mais tarde, minha tia, então com dezesseis anos, arranjou um namorado, que veio tomar café com a família. Trouxe um presente: imaginem a surpresa do meu avô quando, ao abrir o pacote, encontra um dos quadros roubados do seu amigo Romão. Minha tia, entusiasmada, pedia ao pai para colocar o quadro na parede. Meu avô, tentando ganhar tempo para pensar no que faria, colocou o quadro na parede para satisfazer a filha, tendo toda a intenção de retirá-lo assim que o namorado fosse embora e de devolvê-lo ao Romão.

Imaginem só a confusão que deu, pois o Romão resolveu aparecer naquela mesma tarde. Dizem que a cara dele ao ver o quadro na parede da casa do seu melhor amigo não era algo que se esquecesse facilmente.

Para dar um final mais curto a uma história longa, o namorado não havia roubado o quadro, mas achara-o num saco no mato. O Romão ficou meses sem falar com o meu avô, acreditando que ele era o ladrão. Eventualmente tudo foi explicado, mas a amizade nunca mais foi a mesma.

E o ladrão? Nunca mais ninguém ouviu falar dele. Nunca foi identificado. E o resto dos quadros jamais foram achados.

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