Vestido de noiva azul

Fevereiro de 1977. Em um sábado desse mês, me casei. A capela ficava na Av. Nazaré, perto do Museu do Ipiranga; tudo tradicional, como convinha a uma família de italianos da “gema”. Um detalhe preocupava: o vestido de noiva era azul e só minha mãe e o noivo sabiam disso.

Arroubo da juventude, vontade de contestar, sabe-se lá o quê! Fosse o que fosse, o vestido era diferente e a preocupação nem era os convidados que aguardavam na igreja, mas sim a “nonna”, sentada em sua cadeira de balanço, no quintal de casa, esperando eu sair para me dar sua benção.

Benzi-me antes de descer os degraus rumo ao quintal, preocupada com as palavras da minha mãe:

– “A “nonna” não pode passar nervoso, nem emoção forte, porque a cirurgia que ela fez da catarata pode ser prejudicada se ela chorar muito ou se a pressão subir. Puxa vida, a gente deveria tê-la prevenido sobre a cor do vestido. O que ela vai pensar?”

Lembrei-me, então, que a “nonna” havia passado os últimos dez anos sem enxergar praticamente nada e a cirurgia de catarata, com a técnica que ela foi operada, ainda era experimental e, ainda, devido aos seus 86 anos a cautela teria que ser redobrada, sob o risco de por tudo a perder. Não era o momento de fazê-la passar por esse choque, mas, enfim, estava feito.

Desci os degraus e a avistei primeiro; a emoção e o medo me invadiram, ao me aproximar. Ao me ver, firmou seus olhos azuis, apertando-os um pouco para ter certeza de que estava enxergando certo e, após alguns minutos, visivelmente emocionada, me disse em seu português macarrônico:

– “Manacha mia, que é questo? Questo vestido é iguale ao mio vestido de noiva. E nesuno sabia! Filha mia, que linda está… Tem até as florzinhas na cabeça, porca miséria!”

E choramos de emoção. Só aí soube que como seu casamento se deu na roça, o vestido de chita azul foi o possível para a ocasião e as florzinhas de laranjeira na cabeça adornaram seus cabelos claros, formando um lindo arranjo.

Devido à época e à falta de recursos, não houve fotos e o detalhe da cor do vestido se perdeu no tempo; nunca foi objeto de conversa. Até aquele dia, cujo assunto dominou o casamento.

Por pouco tempo, é bem verdade, porque na hora de tirar a foto com a família inteira distribuída uniformemente nas escadarias do Monumento do Ipiranga (pura verdade!), aí o assunto já era outro:

– “Como vamos fazer para jogar o noivo no espelho d’água que margeia o Monumento?”

“Eco la questione…”