Todos os dias, após o almoço, ouviam-se apitos estridentes. Era um apito que todo garoto ganhava dos pais e ficava jogando aquele pedaço de plástico de um lado a outro da boca. Deslizando pelos lábios da gente dava uma variedade de apitos que mais pareciam ênfases musicais. Era comum qualquer criança ter aquele apito. Mas quem fazia o uso dele e, de maneira bastante estridente era o Tripeiro.<br><br>Para quem não sabe, o Tripeiro (hoje não existe mais) era um homem que vendia miúdos bovinos. Vi somente aquele em toda minha vida. Aquele tripeiro agitava as mulheres nos anos 1950, quando ele chegava ao bairro do Itaim Bibi. Depois desse, outro jamais. <br><br>Quando ele entrava em nossa rua assoprando aquele apito, as mulheres já estavam à espera dele com vasilhames a mão. O tripeiro vendia os produtos de origem animal em uma carroça fechada, semelhante a um baú. Por dentro era revestida de alumínio, com total higiene. Ele parava e abria a porta traseira da carroça fechada, onde tinha fígado, língua ou coração de boi e também a carne já toda desossada. O tripeiro tinha uma balançazinha de segurar na mão com uma haste horizontal, onde corria um cilindro que mostrava o peso para as consumidoras.<br><br>Mas, esse atrevido que está escrevendo, chegou a duvidar que aquela balança não roubasse minha mãe e as vizinhas Laura, Elvira e as outras. O tripeiro então mandou que eu fosse ao armazém de secos e molhados que tinha bem perto para conferir o peso. E não é que fui? Chegando lá vi que o peso estava certo:<br>- “E ai garoto, conferiu?”.<br>- “Sim conferi, Olha está quase igual. Ficaram faltando algumas gramas”.<br><br>Risos para todo lado, e minha mãe, não deixou por menos:<br> – “Isso é bom para não bancar o metido”.<br> <br>Logo depois que o tripeiro ia embora, lá vinha à charrete do meu primo Francisco Calli, (Piqui) com rodas de pneus, ele era o peixeiro. Não era de ficar gritando. Parava a charrete na rua, e cabia aos garotos chamar as mães, que corriam a rua com vasilhames na mão. "Piqui" dizia em voz baixa que o peixe era fresquinho tinha sido pescado pela madrugada vindo direto a São Paulo.<br><br>Todos os dias pela manhã Nesão que morava na travessa do Porto, descia a Via Anchieta, recém inaugurada, para pegar na ponta da praia o peixe nosso de cada dia. No Itaim tinha vendedor de todo jeito.<br><br>Alem do tripeiro e do peixeiro, tinha o verdureiro vinha pela manhã. Era um português, que não falava direito a palavra verdura. A fonética dele dava a entender. Ele dizia “verruroi”. Logo que ele entrava na Rua do Porto, saindo da Rua João Cachoeira, eu já gritava:<br>- “Mãe, o "Froii" tá chegando”.<br><br>Porem o que mais fazia a garotada feliz, era quando o caminhãozinho com um alto falante em cima da capota bradava:<br>- "Uva, uva, da chácara da dona Aurora. Compre uva boa, é doce que nem amora… É a uva!"<br><br>Mas a garotada fazia troça com aquela chamada musical do vendedor, para as irmãs do Klianto, chamadas de biscates do bairro. "Biscas, biscas, do bairro do Itaim, leve biscas boas, são boas como aquelas da “zona”. São elas!”.<br><br>Mas o que tinha de gostoso no bairro do Itaim, era o sonho que um homem alto de cabelos avermelhados vendia. O cidadão tinha quase dois metros de altura, mãos grandes. Os sonhos que ele vendia, com uma cesta de vime no braço, eram feitos pela mulher dele. Era uma mulher também ruiva, alta, mais parecia um homem de saia. Mas, tinha mãos de ouro, que adoçavam a boca de adultos e crianças.<br><br>O sonho era grande e cortado ao meio em sentido horizontal com creme amarelo por dentro. Não tinha criança que não ficava com o beiço lambuzado. Alem de vender na rua, passou também a vender na feira, pela manhã, e a tarde nas ruas. Um dia aquele casal que adoçou tantas bocas recebeu a visita de ladrões, que antes de roubarem tudo, mataram a pauladas o casal que estava dormindo. O "Russo" era um homem alto e muito forte. Os ladrões sabiam que se ele acordasse a coisa ia ficar feia para eles, então resolveram matá-lo dormindo.<br><br>Daí em diante a garotada do Itaim Bibi ficou triste sem aquela figura rude, mas muito querida gritando com sua voz estrangeirada e com aquela cesta cheia de doces… Era o vendedor ambulante mais esperado do bairro.<br><br><br>E-mail: [email protected]