Às vezes paro e penso no efeito que certas frases têm sobre nossas vidas – um grupo de palavras (e este grupo nem precisa ser grande) que mudam ou influenciam radicalmente nossa maneira de pensar, de agir, de sentir.
Quando eu era menino e minhas preocupações não iam além de ir para a escola, fazer lição, obedecer os mais velhos – e isto era lei dentro de casa, embora meu temperamento sempre me levava para o caminho contrário, o que terminava em uma boa e merecida surra -, brincar (embora eu sempre gostei mais de ler) e assistir TV, uma frase sempre me deixava animadíssimo.
Minha tia, irmã de minha mãe – e, para falar a verdade, nossa segunda mãe -, pode ter uma série de defeitos (mas quem não os tem?) e a educação que ela nos deu talvez fosse rígida demais, mesmo naquela época, mas ela sempre soube como nos fazer felizes, seja pelos seus doces de festa (sim, ainda tem "briga feia" até hoje por causa deles), ou, no meu caso, quando ela me falava: "Vamos para a cidade!”.
Naquela época, ainda costumava-se dizer que as pessoas "iam à cidade" quando era preciso ir até o Centro: mais especificamente, o Centro Velho. A região já tinha perdido muito do seu encanto, mas nada comparado com os dias de hoje.
E esta era a senha para que eu tivesse uma tarde deliciosa, em todos os sentidos. Na Rua Direita, havia a oficina de um ourives que, há muitos anos, trabalhava para a minha família, em especial para a minha mãe. Aquiles é o seu nome e, não por acaso, eu também tinha uma ligação com ele, já que seu irmão Rafael foi a primeira visita que recebi na minha vida (eu era recém-nascido) e, por este motivo, fui batizado com o mesmo nome.
Não lembro de todos os detalhes do prédio e pouco me recordo da oficina em si, além do fato de achar tudo aquilo um pouco fora do lugar. Mas, enfim, não era o fim do mundo.
Depois de todos os negócios feitos – e de passar por aquela escada com corrimão de ferro trabalhado -, começava a verdadeira festa, pois, invariavelmente, minha tia me levava às Lojas Brasileiras para tomar um "sundae" na lanchonete da loja. Hoje em dia, com tantas novidades, o bom e velho "sundae" perdeu um pouco da importância, mas naquela época, ao lado do banana split e da taça colegial, era o máximo!
Ainda hoje, passados tantos anos, eu me lembro da escada que dava acesso à lanchonete (que ficava no subsolo); da parede de azulejos verde-água colocados em losango; do longo balcão de fórmica; dos bancos cobertos de curvim vermelho (e que giravam, ainda por cima!); do cheiro dos sanduíches sendo feitos na hora, em especial o misto quente; das fotos ilustrativas (e já um tanto desbotadas) dos sorvetes da Kibon (e não havia outros até então); dos hambúrgueres, "hot dogs" (que ainda eram chamados de "cachorro quente"), acompanhados de suco de laranja (em copos enormes) ou "milk-shakes" (idem), além, é claro, das batatas "chips" que aguçavam minha curiosidade em saber como eram cortadas tão fininhas.
Mas tudo isto deixava de ter importância quando, à minha frente, aparecia aquela taça enorme, com tudo que eu tinha direito: sorvete, marshmallow caindo pelas bordas, calda de chocolate, castanha de caju picada, creme chantilly, a famosa cereja no meio… E um detalhe que ficou para sempre: no fundo, um pedaço quadrado de gelatina de morango, finalizando aquele festival de sabores com chave de ouro. É claro que, de tudo aquilo, só sobrava mesmo a taça em si! Minha tia, ao meu lado, geralmente tomava a Taça Colegial – embora gostasse muito de banana split, ela sempre falava que era muito grande (e, na época, eu achava um exagero!) e escolhia algo de menor tamanho, enquanto eu (que sempre tive boca boa!) devorava meu "Sundae" até conseguir enxergar, com prazer, aquela gelatina vermelha ao fundo.
As Lojas Brasileiras já não existem. Hoje em dia, dificilmente tomo "sundae", mas confesso que, por melhores que sejam, nenhum deles tem aquele sabor, pois aquela taça significava muito mais do que uma delícia: significava, sim, um momento de dedicação da minha tia; a expressão do prazer de ser a criança que acreditava ser "gente grande" só porque conseguia alcançar o balcão da lanchonete; a preocupação e o cuidado do adulto com quem ainda tinha tanto que aprender da vida; enfim, a chance de viver as coisas certas no tempo certo.
Até hoje, quando uma taça de sundae surge à minha frente, nem preciso fechar os olhos para que todas aquelas cenas voltem como um filme, e sempre acabo escutando a frase "vamos para a cidade"…
Pena que, mesmo nos melhores lugares, nunca mais encontrei nenhum quadrado de gelatina vermelha no fundo de uma taça de sundae…