“Uni, duni, tê, salamê míngue, um sorvete colorido o escolhido foi…”, ou “corre cotia na casa da tia, corre cipó na casa da vó, lencinho na mão…”, e assim corriam as tardes de domingo no quintal do sobradão da minha avó Belarmina.
Éramos felizes e sabíamos, por isso queríamos desfrutar de todas as brincadeiras naquele imenso espaço de chão batido, junto com o que restou do cinema do meu avô, o Cine São Francisco.
Não o conheci, enquanto majestoso, que vivia para a comunidade, ofertando belos filmes em matinês quase sempre lotadas e ruidosas e que dizer dos bailes e shows populares.
Lembro que li, em uma revista da época, uma reportagem sobre o grande incêndio que o derrubou. Pelas fotos conseguia identificar alguns detalhes que nas minhas tardes no quintal de minha avó serviram para belas "farras", juntos com primos e coleguinhas da vizinhança. “Esconde – esconde” e “bate-lata” eram os preferidos.
De manhã o cheiro doce das cocadas da Anunciata misturava-se ao o tinner e mofo que vinham do porão da casa de minha avó, onde meu tio Rubens, artista nato, executava o que tão bem sabia criar.
Do jardim multicolorido e sem nenhuma intenção de ser belo em sua disposição, contribuía, com cheiros distintos. Havia uma folhagem milagrosa, que abrandava o fígado, quando em nossas comilanças exageradas no doce ou no salgado. O boldo, planta peluda de odor forte e quando amassada em copo grande diluía-se em caldo verde escuro. Tomá-lo era um sacrifício, mas o alivio era garantido. Outra erva já mais cheirosa, para a molecada era a hortelã.
Chá doce ministrado para muitas coisas. A camomila também fazia parte deste jardim colorido. Mas em noites quentes o cheiro forte da dama da noite era o vencedor. Tínhamos que admira-las de longe, se a tocássemos no dia seguinte estariam manchadas.
A “Comigo Ninguém Pode”, como o próprio nome anunciava era mantida plantada em ponto estratégico, diziam que era a guardiã do jardim, para nós crianças um mistério, contavam os mais experientes da turminha dos pequenos que uma criança arteira havia morrido por desobedecer tal aviso.
Não me lembro de dias chuvosos, me parecia que todos os domingos que lá passava eram coloridos, ensolarados e divertidos.
E assim entre flores e um imenso quintal pude viver parte da minha infância, que sabia ser feliz.
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