Meus pais e meus sogros sempre contaram com satisfação suas vivências com os vizinhos, no interior. Eram mais do que vizinhos, eram sim verdadeiros amigos. Com que satisfação posso também contar histórias e peripécias vividas com vizinhos, aqui mesmo nesta Cidade de São Paulo tantas vezes chamada de inóspita. <br>Quando meus filhos eram crianças, com 5,6 anos e até os seus 13,14 vivemos boas histórias e bons momentos no Jardim Alice – travessa da hoje Avenida Vicente Rao, região entre o Aeroporto de Congonhas e Interlagos. Nesta vizinhança quase todos os casais tinham entre 2 e 4 filhos, nas mesmas faixas etárias, que brincaram muito e se divertiram juntos em ruas tranqüilas. Iam de uma casa para a outra, almoçavam aqui, tomavam o lanche acolá e qualquer mãe podia sair e deixar suas crianças com uma das vizinhas, sem correr nenhum risco. Fizemos juntos muitas festas de aniversário, curamos muitos pequenos ferimentos devido às travessuras, matamos piolhos(quando um pegava passava para todos), bailinhos com luz negra nas garagens das casas, batemos muito papo gostoso tomando um bom cafezinho. Todos guardamos saudades. Ali vivemos por quase 10 anos e após nos mudamos para a Rua Marassa, na City Campo Grande, um pouco mais para a frente da Avenida Washington Luiz; outros casais também se mudaram, mas sempre mantivemos contatos e nossos filhos se comunicavam e se encontravam em algumas circunstâncias.<br>Na City Campo Grande, à Rua Marassa, que por ser um quarteirão curto, com poucas casas de um lado e com uma Escola Municipal de Educação Infantil do outro lado da Rua, três famílias fizeram uma amizade muito estreita e que tem resistido ao tempo e à distância. Vivemos experiências de todo tipo juntos, tristes ou alegres.<br>Quando nos mudamos para aquele endereço, por influência de uma amiga que morara anteriormente no Jardim Alice, encontramos a família do casal Amelia e Durval, residentes no local há muitos anos e que tinham dois filhos da mesma idade dos nossos. No início eram apenas cumprimentos. Pouco tempo depois estava de mudança para lá o casal Zuleica e Alfredo, ele um argentino muito simpático e que falava portunhol, com seu filho de quase dois anos, Eric, e grávidos, em gestação bastante adiantada, da Helka. Assim, nós morávamos na casa da esquina da rua, a Amélia na outra ponta e a Zuleica no meio. <br>Um belo dia, quando chegavam em casa portando uma mala preparada para a maternidade, Zuleica e Alfredo, do portão da rua, perceberam que havia ladrões em sua casa e correram em direção a minha casa em busca de socorro. Cuidei da Zuleica, que estava muito nervosa e parecia que daria à luz a qualquer momento e levei-a para dentro, com sua mala. Meu marido, que já tomara banho e estava de pijama e um robe xadrez preto e branco pegou uma bengala com um castão grosso revestido de metal, que pertencera a seu avô e saiu correndo com o Alfredo para cercarem os ladrões. Amélia e Durval, que viram o movimento, também correram e ali foi aquele fuzuê e eles diziam que haviam encurralado os ladrões no quartinho dos fundos do quintal. Bem, encurtando a conversa, nunca ninguém viu os ladrões, mas teve início nossa longa e duradoura amizade. Ao meu marido coube a alcunha de Bat Masterson (herói de série televisiva que tinha uma bengala de onde saia um punhal, instrumentos com os quais defendia-se de bandidos).<br>Passamos a freqüentar as casas uns dos outros, nossos filhos e filhas – principalmente os meus e da Amélia que tinham idades aproximadas – estavam sempre juntos. Fazíamos almoços e festas comemorativas nos auxiliando mutuamente – eram cadeiras, pratos, copos, talheres para cima e para baixo a todo momento. Até camas e colchões entravam na dança. Zuleica, cujos pais, de origem italiana moravam com ela, sempre fazia Festa Junina em homenagem a Santo Antonio, seguindo tradição familiar. Então, nesta data, todos os esforços convergiam para sua casa, bem como cadeiras, pratos, talheres etc, já que não podia faltar a canja de galinha e a fogueira. Alfredo montava a fogueira na porta da casa e encarregava meu marido de acendê-la, dando-lhe jornais, álcool e fósforos. Quando percebia que a fogueira ainda não estava acesa ia ver o que estava acontecendo e – surpresa – Roberto estava lendo os jornais velhos e se esquecera da fogueira. Zuada total, caçoadas e gargalhadas, com direito a fotografia do inusitado!<br>Na casa da Amélia vivia também dona Rosa, sua mãe, uma descendente de portugueses arretada, que lutara muito na vida e nada a amedrontava. Um belo dia a família toda saiu e dona Rosa ficou sozinha. Sempre que isto acontecia a Amélia nos avisava a todos e então ficávamos de olho na casa e à disposição de dona Rosa. Por volta de 8 da noite ouvimos tiros vindos da direção da casa da Amélia e para lá corremos. Alfredo e Zuleica já estavam saindo em socorro também. Chegamos ao portão começamos tocar a campainha e chamar pelo nome até que dona Rosa apareceu um pouco sem graça e contou que tinha o hábito, quando ficava sozinha, de colocar uma canequinha de alumínio e um garfo no trinco das janelas. Se alguém tentasse entrar os penduricalhos caiam. Só que ela não contava com o vento que acabou realizando a proeza. Ela não teve dúvidas, pegou um revólver e deu tiros para o ar! Mais uma vez, risadas, e piadas da aventura.<br>Nossas filhas fizeram 15 anos e lá fomos nós fazer festa. Alfredo era o protetor das meninas. Tudo que lhes acontecia corriam a contar para ele. Ele brigava com os pais por causa delas e protegia suas tentativas de namoro e paqueras. Fotografou ambas as festas e rebolou a noite toda com a moçada! Vale dizer que Zuleica e Alfredo são padrinhos de casamento das três. Isto é que é cartaz, heim?<br>Não me lembro o ano da Copa do Mundo em que esperávamos o quarto título para o Brasil. Só me lembro que era o Zagalo o treinador e que passamos a noite toda pintando o asfalto da rua, fazendo bandeirinhas, enfeitando nossas casas, tudo regado, como sempre, de muita animação e alegria. No dia do jogo a galera toda reunida para torcer e…. adeus ilusão e festa. Perdemos. Quando o Brasil jogava com a Argentina era uma zuada com o Alfredo.<br>Quando meu filho fez 18 anos inventou uma festa para os amigos. Claro que os vizinhos lá estavam na mão de obra, mas todos nós levamos o maior susto quando à noite, não parava de chegar gente e mais gente (jovens). Os vizinhos ficaram no portão tentando colocar ordem, mas foi impossível, De cada carro que chegava desciam 7 a 8 pessoas. A casa superlotou de tal maneira que precisamos chamar meu filho e dizer que a festa estaria sendo encerrada sob pena de acontecer algo de muito ruim. Ele concordou e disse não entender o que estava acontecendo, já que não convidara toda aquela gente e não conhecia a maior que estava lá. Ele começou a avisar todo mundo que a festa tinha acabado. Apagamos algumas luzes, fechamos cortinas e meu marido pegou uma vassoura e começou a varrer a casa. Ficaram só os amigos mais chegados de meu filho para uma festa íntima, como havia sido programado. Um dia conto com mais detalhes esta festa, porque ficou na história e meus vizinhos nunca a esqueceram. Sempre que nos encontramos eles a relembram e dão risada de meu marido varrendo os convidados. Meu filho fazia seu primeiro ano de faculdade e, na sua ingenuidade, colocou no mural da FAU um mapa de como chegar em nossa casa, para as pessoas que ele havia convidado. Nunca imaginou que a moçada ia a qualquer boca livre.<br>Para encerrar vou contar mais uma de ladrão. A casa da Amélia e do Durval era uma casa alta, com uma escada no fundo que dava para a garagem. As janelas do quarto deles também davam para esta escada. O Durval ouviu barulho na garagem e, achando que era ladrão abriu a janela do quarto, pegou um revólver e ao pular a dita janela caiu escada a baixo, indo parar dentro da garagem, estatelado! Se havia ladrão, mais uma vez ninguém viu! Amélia chamou o Alfredo, que nos chamou e lá fomos socorrer o Durval. Ele sentia muita dor nas costas e, como não sabíamos que ferimentos podia ter, resolvemos pegar uma tábua comprida, colocamos por baixo dele e… precisávamos amarrar a perna na tábua. Com que? Meu filho tirou os cordões do tênis e o amarrou. Ele foi colocado no porta-malas de um utilitário e levado ao hospital, onde permaneceu internado em tratamento e observação. Felizmente não quebrou nada e não sofreu grandes ferimentos. Quando voltou para casa recebeu a visita de todos nós, claro, mas o pior, a maior gozação – super homem, homem aranha e etc. Em minha casa, por duas vezes o ladrão entrou mesmo. Em uma delas eu estava na casa. Depois eu conto.<br>Hoje estamos longe – Zuleica e Alfredo em Curitiba, para onde fomos há pouco tempo para as formaturas do Eric e Helka – veterinária e odontologia. Amélia e Durval em São Paulo, nós em Cotia. Mas sempre que podemos nos falamos por telefone e nos visitamos. Saudade, muita saudade desta magnífica experiência de vida.