Uma visão amarga do Carnaval de São Paulo

Carnaval. Quero falar uma coisinha ou outra sobre o Carnaval de nossa cidade. Já li e ouvi tanta bobagem a respeito que resolvi fazer um comentário sobre o Carnaval de São Paulo, já que fiz parte do Departamento Cultural da UESP, já que fundei uma Escola de Samba juntamente com a Odete, Nelson Gengo e Zé do Cavaco, já que escrevi "enredos", já que compus sambas, já que sou pai da Ana Flávia, princesa do samba, já que sou marido da Odete que gravou com Monarco e Nelson Sargento, já que sou pai do Marco Túlio que foi Mestre Sala da Vai-Vai, já que, criança, saía nas Viúvas Alegres do Macuco quando do "Banho de Dona Dorotéia, Vamos Furar Aquela Onda? em Santos. Mas, passada toda uma vida, descobri que São Paulo não tem e nem faz samba (Vinicius de Morais foi grosseiro em sua declaração sobre o samba de São Paulo, mas ele estava certo, em meu ponto de vista). Não temos um Cartola, um Paulo da Portela, um Jamelão, um Zeca Pagodinho, uma Alcione, um Arlindo Cruz…, temos gente que nas reuniões não discutem os preparativos para o desfile, mas passam o tempo todo perguntando:<br>- “Cumé? Já saiu a verba? Falaram quando vai sair a verba? De quanto vai ser a verba? Preciso trocar de carro; esse dinheiro precisa sair logo que eu já pendurei um cheque na concessionária.” (risos, cinicamente; já testemunhei esse tipo de conversa!)<br><br>Desculpem-me aqueles que acham que eu sou um velho rabugento, saudoso do passado; no entanto, mesmo no tal passado havia gente que tinha saudades do seu passado, entenderam, né? Normal, muito normal… Então vamos lá! 99% dos paulistanos, gostando ou não gostando de Carnaval, não faz a menor ideia do que seja uma Escola de Samba; para essas pessoas as Escolas são grupos que surgem na televisão uma vez por ano, cantando sambas (?) de andamento, melodias e letras iguais ou quase sempre iguais ("poeta genial, passarela iluminada, vou sacudir o Anhembi, magia, mundo encantado da criança, nosso samba na avenida" e por aí a fora), fantasias, alegorias se repetindo durante horas, desfile após desfile, em um espaço limitado, cercado por arquibancadas de concreto, em prisões a que chamam de sambódromo, "foliões" sentados ou mal acomodados nos degraus de cimento, debaixo de chuva, garoa:<br> – “Puxa vida! Fazia tempo que eu não me divertia tanto, 'tô até com dor nas costa, tussindo e com o nariz 'tampado', tomei chuva, passei fome, passei sede, num tinha um banheiro prá contar história, mas 'tava bom, valeu o dinheiro do leite das criança que eu debrucei prá comprá as entrada… Num sei não, mas acho que peguei uma "pelambulia nos pormão!"<br><br>Observação: Para o pessoal de Escola de Samba, da "ala dos abnegados", o termo "folião" é pejorativo e é aplicado para aqueles que se "divertem" sentados no chão frio do sambódromo ou discutem 'tecnicamente' os desfiles ou o desempenho da agremiação tal, sentados em sofás de suas salas, entornando latas e latas de cerveja e comendo amendoins: <br>- “… eu dormi, e não vi o desfile da Foi Foi! a Escola 'tava bem?”<br>- “também não vi, 'tava com muito sono!" A palavra "folião/ã" pode ser usada como gozação na maioria das vezes… Outros termos são usados para designar esse tipo de aficionados, mas agora intramuros, porque são considerados ofensivos (?): "sambeiros" e "sambólogos", pessoas que "discutem" sambas em um viés sociológico ou histórico, escrevem teses, vão à televisão deitar “sociologices ou historicagens”, citam Noel Rosa, João de Barro, Tia Ciata e etc, passam férias em Ibiza, fazem compras em Milano, London ou Firenze – não acham chic falar Milão, Londres ou Florença, coisa de ginasiano!”<br><br>Descarregada essa dose de veneno misturado a confete e serpentina, continuemos com esse papo iconoclasta: as pessoas de uma certa idade (“meu Deus! Quanta sutileza! O que será "uma certa idade", heim?, dá prá quantificar?”) talvez ainda se lembrem que em São Paulo não existiam as Escolas de Samba, existiam os Cordões, grupos carnavalescos que iam para as ruas e eram seguidos pelas populações dos bairros, nada muito grandioso, mas tudo bastante democrático, era o famoso "vai quem quer" e seu grito de guerra "É hoje só, amanhã não tem mais, é hoje só, amanhã não tem mais…"; não havia a 'marcha sambada' que chamam de 'samba de enredo(!)' um ramerrão sonolento que passados dois dias do carnaval, ninguém lembra mais; as músicas de carnaval eram as que eram ouvidas nas rádios, marchinhas cariocas, não se compunha em São Paulo (continuamos sem compositores de música popular…).<br><br>Ora dirão: ”é muita amargura! Antigamente tinha o corso…”<br>- “Péraí! Corso? Pelo que eu soube, a polícia fechava a Av. Paulista para que os endinheirados novos ricos e os fazendeiros de café pudessem circular livremente com seus carros, sem música, sem alegria, mas com muita bebida, alguma cocaína, algum lança-perfume, num ir e voltar da Praça Oswaldo Cruz até o Trianon, numa caipiragem motorizada total, todos posando fingindo alegria para fotos das revistas e jornais da época! Espocado o magnésio, de volta à esbórnia… Os verdadeiros carnavalescos estavam nos bairros ou no centro da cidade, andando nos bondes abertos, seguindo seus cordões preferidos, batuque e os gritos "Zé Pereira, bum! Zé Pereira, bum… bum bum bum! É hoje só, amanhã não tem mais, é hoje só, amanhã não tem mais…”<br><br>Televisão ligada, os "foliões de apartamento" vão chegando e se aboletando:<br>- “Não começaram os desfiles ainda?”<br>- “Não, só depois que terminar a novela…”<br>- “Mas depois da novela ainda tem o "BUB", Big Uncle Brazil, uma hora de encheção de saco…”<br> – “Brazil com 'Z', 'cê viu na chamada?”<br>- “Coisa deles lá, negócio de formato! Ouvi dizer que é obrigatório, questão de contrato.”<br>- “É "questão" ou é "cuestão"?”<br>- “Xííí, já chegou com o pé redondo… Vai lá na cozinha e toma um café sem açúcar prá ver se melhora essa cachaceira…”<br>- “Viva o Carnaval!”<br>- “Viva!”<br><br>É só.<br><br><br>E-mail: [email protected]