Liberdade cobra dois preços altos: Marco Antônio dos Santos

Por vezes, a vida se encarrega de cruzar os “sendeiros” das pessoas. São encontros fortuitos, inesperados, porém se repetem de modo inusitado, engendrando bases mnemônicas. Ulteriormente, fatos cobram estas memórias e o mister de contar histórias, com o escopo de que não se tornem cada vez mais diáfanas a ponto de desaparecer. Confesso que só me valho da informática na medida em que preciso acessar minhas caixas de correio eletrônico e fazer pesquisas. Não obstante seja pouco, os avanços tecnológicos urgem atualização de softwares e componentes para este aparelho com um sempiterno olhinho verde aceso, o microcomputador.

Estava em uma loja de informática, quando conheci o senhor Marco Antônio. Esvaeceu-me a lembrança do que lhe perguntei, porém recordo-me com vivacidade a detecção de seu dialeto – uso o termo na sua acepção científica de “aloleto” regional de uma língua, sem qualquer conotação pejorativa de "corruptela", como é de uso no linguajar cotidiano – paulista interiorano.

Poucos meses depois, dirigindo-me a – ou voltando de, tampouco tenho certeza – compras, que costumeiramente gosto de fazer em lojas do bairro da Liberdade, reconheci-o. Obviamente ele demorou um pouco a me reconhecer. Disse-me morar às imediações. Um senhor lacônico, conquanto educado. Falou-me ser sorocabano, confirmando minha primeira percepção. O bairro da Liberdade surgiu como um distrito afastado das nobres regiões residenciais da Avenida Paulista, apesar de sua propinquidade espacial. Com o crescimento da cidade e, por conseguinte, da especulação imobiliária e da alta de preços de moradias, vários imóveis da região foram cedendo lugar a estabelecimentos comerciais, entrementes pululavam cortiços e edifícios de apartamentos de baixo custo.

A má conservação de imóveis tem seu custo. Recentemente (fevereiro de 2013), todos fomos surpreendidos com uma tragédia: o desabamento de uma parede de um imóvel à Avenida Liberdade. Felizmente, uma única vítima fatal, do que se poderia haver convertido em uma catástrofe bem maior. O senhor Marco Antônio, o sorocabano de poucas palavras e vida solitária, já não está entre nós. Segundo os periódicos, a dona da pensão em que ele morava afirmou que ele, órfão e filho único, viera fugindo dos maus tratos impostos pela tia.

A liberdade de uma parente que não o respeitava também cobrou dois preços: uma vida solitária e um falecimento súbito. Isto poucas semanas após um desastre pior, em uma casa noturna da bela cidade gaúcha de Santa Maria. Até quando o descaso com a segurança e conservação dos imóveis cobrará a passagem de seres humanos inocentes desta vida para outra? Indivíduos que poderiam estar entre nós, brindando-nos com sua presença. Faço questão de contar o pouco que sei sobre o senhor Marco Antônio. Espero que se tomem as providências para que tais absurdos não ocorram mais.

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