Uma velhinha no ralo, homem que pega e um banho de bacia

Rua dos Lírios, na Saúde, uma casinha alugada, pequenina, só um quarto e uma cozinha. O quintal, porém, era grande, cercando toda a casinha; na lateral este quintal era coberto por telhas e acimentado, na frente e atrás era gramado e me parecia imenso.

Ali eu brinquei arrastando minhas bonecas de pano embrulhadas em xales e com um bonde de madeira que meu pai pintara de vermelho e escrevera em cima “Domingos de Moraes”, pois esse era o bonde que a gente tomava todos os domingos para visitar a minha avó.

Eu tinha quatro anos, a idade da minha neta hoje. Espero que ela se lembre mais tarde de quando era pequenininha, assim como eu me lembro da casinha de dois cômodos e do meu quintal daquela época.

Algumas coisas ali estarão pra sempre na minha memória, como o dia em que meu primo veio me dizer que havia uma velhinha dentro do ralo. Imediatamente me deitei no chão para esperar que ela saísse. Imaginei a velhinha vestida de preto, assim como minha avó italiana, que nunca havia tirado o luto desde que meu avô morrera, mas uma velhinha diminuta, assim, do tamanho do meu polegar. Esperei por horas. E nada da danada da velhinha aparecer.

Da outra vez que meu primo veio visitar perguntei sobre a tal velhinha e ele veio me mostrar. Abriu o ralo e retirou uma velinha de aniversário!

– Viu? – disse ele. – Falei a verdade.

Que decepção!

Perto do Natal eu estava brincando no quintal uma tarde, quando um homem veio entrando pelo portão. Vi que ele carregava uma bicicleta de criança. Minha mãe apareceu como um relâmpago e me prendeu no banheiro que ficava fora da casa.

“Fica aí um pouco”, explicou ela, “pois o homem que pega criança está aí e eu não quero que ele veja você”.

Nunca me esqueci do terror daqueles momentos, sozinha no banheirinho, quietinha para que o homem não soubesse que havia uma criança na casa. No Natal, ganhei a bicicleta que o “homem que pega” estava trazendo e isso aumentou ainda mais o mistério. Por que o tal homem que pega me deu uma bicicleta?

Naturalmente, minha mãe só queria esconder a bicicleta até o Natal, mas como aquela história toda me marcou! Então, neste mundo existem mesmo pessoas que entram nas casas para levar as crianças? Passei a ter muito medo de ficar sozinha no jardim. E hoje lembro de crianças para quem esta história era mesmo verdade, como quando na Segunda Guerra Mundial os nazis buscavam famílias e crianças para levarem consigo, geralmente batendo as portas durante a noite. Que terror estas crianças devem ter passado!

Um domingo tomei um banho de bacia para ir visitar a minha avó Carmela na Aclimação. Me vestiram um casaquinho vermelho novo e me encaracolaram os cabelos. Sapatinhos pretos, meias brancas, eu ia toda prosa quando tropecei e caí na bacia! O casaco ficou arruinado, tiveram que trocar toda a minha roupa e sapatos e minha mãe teve que fazer os cachos de novo. Com isso perdemos o bonde Domingos de Moraes costumeiro, chegamos bem tarde no almoço e minhas primas já tinham ido embora. Lembro da tristeza que senti aquele dia, queria tanto mostrar o casaco novo! Ele havia ficado no varal, mas nunca mais foi o mesmo.

São recordações que ficam, a gente nem sabe muito por que, gravadas para sempre…

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