Uma vaquinha na casa de ferramentas

Meu menino João Victor (meu filho é meu melhor amigo, ao lado da Aninha, minha melhor amiguinha) viu um desenho na televisão em que uma vaquinha era criada em uma casa de ferramentas.

Este fato o divertiu muito, e quando batemos nossos longos papos, ele fala desse assunto e diz: "Bem que nós poderíamos ter uma vaca pra criar na casa de ferramentas".

Essa idéia também me encantou, um pouco pela sua impossibilidade, um pouco pela sua maluquice e muito pela certeza de que jamais teremos esta vaquinha palpável, mas que sempre a teremos como um sonho que sonhamos juntos. Ah, e quando falo na impossibilidade de termos a vaquinha, isto passa também pelo fato de que não temos uma casinha de ferramentas – aliás, quase não temos ferramentas, pois sou um tipo muito pouco prático. Temos sim uma casinha no sul de Minas, onde passamos nossas férias, mas não temos animais de estimação.

João Victor diz que temos todos os animais do mundo porque amamos todos eles e não temos nenhum, o que concordo plenamente. Afinal, a ninguém foi dado o dom de ser dono de nada. Somos apenas viajantes, que por acaso estamos em uma mesma nave e, mais por acaso ainda, somos contemporâneos, mas cada ser vivo é uma individualidade absoluta, sem donos.

Nessas conversas, em que citamos uma série de coisas paralelas, às vezes nos surpreendemos falando de sonhos. Esta fuga me ajuda muito, por exemplo, em meu trabalho, quando ando pelas ruas de São Paulo, respirando a fumaça – sem meus amiguinhos, felizmente, pois assim não recebem esta poluição danada. Lembro daquelas risadinhas marotas, imagino o rabo da vaquinha saindo pela janela e, no retrovisor, me pego sorrindo também. Sorriso que o espelho apreende e me devolve como um presente do céu.

Se estou correndo, diminuo a marcha, como uma tentativa intuitiva de preservar a vida para esticar o tempo e desfrutar o amor, o amor que sinto por estas criancinhas tão incríveis com as quais Deus me deu a suprema alegria de conviver.

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