Conheci o Mercado Municipal de São Paulo em 1948, quando minha família veio em busca de trabalho e dignidade na capital. Meu primeiro contato, levado pelo meu pai, aquela maravilha que nunca imagina existir. Que aromas que desconhecia; quantas coisas novas para uma criança de oito ou nove anos; mas que o arquivo da memória mantém vivas.
Há alguns anos, já muito mais velho, nesta época beirando semana santa. Domingo de páscoa, já morando longe, e em passagem por São Paulo, combinei com a esposa:
– Vamos até o Mercadão, recordar, comprar algo… Que tal um bacalhau? Um pouco de bacalhau, para dois…
Chegamos, estacionamos, e namoramos a arquitetura, o vai e vem das pessoas, o murmurinho, passeamos pelos corredores, admirando a variedade de produtos e coisas gostosas.
E vamos ao objetivo: Comprar um pedaço de bacalhau…
Chegamos a uma banca onde dezenas de peças estavam expostas, olhei, peguei uma, outra menor… Decidido: é esta!
Direcionei a peça ao balconista, que a colocou na balança e, quando se preparava para embrulhá-la, um senhor saiu de trás do caixa, tomou a peça na mão e disse-me:
– O senhor não sabe comprar bacalhau, não é?
Torceu o dito cujo pedaço, e disse:
– O senhor está comprando ossos e espinhos. E, pegando outro pedaço, menor, aconselhou:
– Leva este, menor, e mais…
Coisas que marcam: a honestidade, a dignidade, uma lição…
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