Uma reflexão natalina

“Vida: nada me deves.
Vida: nada lhe devo.
Vida: estamos em paz!”
 
Pois é, cheguei! Estou com mais de oitenta anos…
 
Como paulistana típica – sempre no controle – acho que devo fazer uma avaliação da minha vida atual. Nada como o Natal para isso…
 
Um texto de Francisco Arámburo Salas sobre “El Otoño de la Vida” foi muito esclarecedor e senti muita identidade com seu conteúdo, principalmente quando diz que: “O rio caudaloso se transforma em um fluxo de paz e move-se lentamente. Quase sem sentir transforma-se em uma grandeza infinita profunda e imensurável, que é o final de todas as viagens e para onde vão parar todos os rios: o mar”.
 
Não mais dúvidas, incertezas, planos mirabolantes para o futuro, correrias, nervosismo, competições, pressa… Usufruir, sim, cada momento como se fosse o último e fazer tudo o que nos agrada e faz bem a nós e aos outros. “Pace e bene”, como ensinou São Francisco de Assis.
 
Meu dia é extremamente simples: acordo cedo, vou nadar no clube (Verdão), encontro minhas amigas, pratico papoterapia , leio, vejo TV, fico no computador algumas horas, faço meus trabalhinhos manuais… e vou deitar cedo também. 
 
Os amigos reclamam que fico muito tempo em casa, sozinha, que isso não é bom, que leva à depressão, etc, etc… 
 
Pode até ser, mas não é o que acontece comigo. 
 
Quando eu trabalhava, meu horário era muito extenso e eu queria ficar em casa e não podia. Houve até uma época em que tive que estudar à noite e ficava mais tempo ainda fora. E tinha filhos pequenos… 
 
Assim que me aposentei, achei maravilhoso poder usufruir o aconchego do meu lar. Que palavras lindas – aconchego e lar – e que significado! 
 
Não sinto solidão: adoro estes momentos comigo mesma, do mesmo modo que adoro estar com pessoas que quero bem. O equilíbrio – sempre procurado – parece simples agora, transparece nas ações cotidianas e ajuda a viver com tranquilidade, criando um suporte emocional ao meu redor.
 
Toda a agitação desta minha cidade, eu agora observo de longe, sem me atrever a participar dela.
 
Sonhos? Fora o desejo de paz para toda a humanidade, tenho aqueles que se referem à plena felicidade de filhos e netos.
 
Para mim, só um: morar num pequeno apartamento, mas com toda privacidade e mordomia. Cores bonitas em tudo, muita claridade, uma vista linda da minha querida cidade, muita higiene, música suave, cuidadores bem preparados, lazer, alimentação saborosa, piscina aquecida, facilidade de acesso em todos os lugares, enfim, um ambiente ótimo, seguro e bem adequado às características da idade. 
 
Salas de estar e jardins para poder receber visitas e bater papo com os amigos. Plena liberdade para ir e vir enquanto houver capacidade para tal e a melhor assistência para saídas quando necessário. 
 
Ficar livre das pequenas providências domésticas, sem sobrecarregar ninguém. Com isso tudo, talvez, a falta do meu querido companheiro não fosse tão sentida e a família ficasse mais tranquila. 
 
Somente um probleminha: conseguir colocar esse conjunto de coisas dentro das possibilidades econômicas de uma professora aposentada. É por isso que é sonho. Nada que uma mega-sena acumulada não possa resolver, rs!