Uma quarta-feira inesquecível

Quarta-feira, 26/11/2014, foi um dia em que se deslumbrou alguma esperança no porvir. Amanheceu nublado, com as eternas promessas das futurológicas previsões emitidas pelas rádios e TV de que íamos ter uma chuvinha, de leve, apenas pra molhar as plantas, iguais as emissões de meses e meses atrás. 
 
Com estes anúncios, a reserva da Cantareira, como se fora um panelão de sopa chegando ao fim e os comensais raspando o fundo do tacho. O desespero e a possibilidade de faltar água numa cidade de 15 milhões de habitantes, como a nossa querida cidade de São Paulo, seria o caos, um pensamento tortuoso que há meses vem me torturando.
 
Chegou a tarde e com ela um escurecimento no céu de uma beleza colossal, sim beleza, pois, era prenúncio de chuva, e das boas. De inundar ruas, molhar até os ossos, acabar com a secura de dezena de meses. As plantas de nosso jardim sorriam, a alegria tomava conta de todas elas, das roseiras, manacás, palmeiras, dos lírios, “lágrimas de Cristo” até a árvore na calçada, balançava seus galhos de tanta alegria. 
 
De tanto proteger seus frutos, as folhas da bela parreira no nosso quintal, sequiosa do vermelho nas uvas que começam a trocar de vestimenta, deixando o maravilhoso verde, na sua rigidez viril, pelo rosado doce e saboroso e em seguida para o vinho, tonalidade final.
 
Ela veio, a chuva, bendita seja, caía sobre o asfalto, sobre as casas, sobre os carros, sobre as flores, numa estonteante e maravilhosa liberdade de atingir a quem quer que seja. Num ribombar de tímpanos da sinfônica celeste, elas, as flores, repito, pareciam sorrir, gargalhar num coral metafórico de alegria, agradecendo a Deus as preces atendidas. Sim, preces, se vocês não sabem, as flores, como tudo na natureza estão sempre em contato com seu criador e, à sua maneira, dirigem a Deus rogos numa linguagem compreensível apenas no diálogo divino.
 
Já tinha esquecido o som do pipocar da água tomando conta de todas as brechas, fissuras, canteiros e em seguida, rolar pelas calhas ao redor do telhado, pondo tudo, como é o destino das águas, num nível único, a mostrar como é bela a vida quando processamos isso no nosso cotidiano.
 
Para terminar a quarta-feira inesquecível, a noite teríamos o show de Paul McCartney, símbolo vivo de nossa mocidade. Da época em que, morando na rua do Gasômetro, no Brás, chegando em casa num sábado a noite, depois de uma boa pizza no “O Garoto”, na Celso Garcia, com a Myrte e meus filhos, ao apartamento no 3º andar, ligando a TV ouvimos o apresentador do “Show União” proclamar: “Um quarteto que está fazendo furor em toda a Europa” e, simultaneamente se ouvia: “Help! I need somebody…” 
 
Que maravilha… que coisa linda, meu Deus! E a presença de um membro do famoso conjunto na arena do “Allianz Parque”, no Palmeiras, pô! Meus dois filhos, Maurício e Marcello foram assistir. Cê quer mais do que isso?
 
Quero e vou ter. A quarta-feira ainda não acabou…
 
A noite, depois da novela, ia ser realizado o jogo de futebol entre São Paulo x Nacional, da Colômbia, pela Copa Sul Americana. Não sou são paulino, porém, não gostaria que um time estrangeiro ganhasse em pleno Morumbi. 
 
Terminando a novela, a Myrte me acordou (cochilo sempre), ela não queria ver o jogo. Fico sozinho na sala. Começa o jogo, São Paulo atacando, ia ser fácil. Como disse, sem torcer pro São Paulo, tinha, porém, curiosidade de saber como era o potencial do adversário, Nacional da Colômbia. Eu ainda guardo um pouco de rancor com relação a Alan Kardek, um “traíra”, co-responsável pela situação atual do Palmeiras no “brasileirão”, abandonando o time quando mais se precisava dele, por uns trocados.
 
Terminou o jogo, cumpri minha missão, não desejei o pior pro São Paulo e o tricolor venceu a partida. O resultado final dos pontos leva pros pênaltis. Aí, sim “tirei meu time de campo”, aguardei os nomes dos que iriam bater as cinco tentativas e entre os cinco, lá estava ele, o “traíra”. 
 
Não havia em mim o desejo do tricolor perder os pênaltis, apenas quando o Kardek se preparou pra chutar o dele, olhei firmemente no seu perfil, pensei quase em voz alta: “Você vai chutar fora, na mão do goleiro, a bola vai dar no travessão, seu pé vai entortar, mas você não vai fazer esse gol…” 
 
Estava sozinho na minha sala, quase meia noite, a quarta-feira maravilhosa iria se acabar, vibrei quando o traíra escorregou e mandou a bola pra estratosfera, atingido e varando várias nuvens. O tricolor foi desclassificado e responsabilizo dois jogadores pelo final infeliz: Rogério Ceni e Alan Kardek.
 
Aos meus amigos e colaboradores do nosso site, não me levem a mal, estou confessando apenas o que a grande maioria dos palmeirenses pensou naquele instante e vocês devem levar em conta que a força de pensamentos e desejos, às vezes funciona.