Em 1890 na Itália, Polignano a Mare, província de Bari, sul, região das Púglias, as margens do Adriático, nasce Bartholomeu Laruccia em 13 de fevereiro. Com 11 anos de idade, chega a Santos no dia 29 de junho de 1901, dia de São Pedro, como sempre lembra. Com seus pais, Vito Laruccia e Ana Maria Carone Laruccia e mais três irmãos e uma irmã. A quinta, nasce aqui, no Brasil, em 1903.
Ele é o segundo da prole, em idade. Por terem que se amoldar as exigências do setor de imigração, não podem ficar em São Paulo, como é desejo do casal. Vito, profissional da construção, não se adapta com trabalho na lavoura; chamado de Mestre de Obras que, nessa época, equivale a um engenheiro formado, tamanha intimidade que tem, com a profissão. E aqui, no Brasil, se dá muito bem.
Por opções oferecidas, entre cidades, excedendo as capitais, a escolha é Petrópolis, no Rio de Janeiro. Bartholomeu, como se nascido é, na serrana cidade e, ao longo de toda sua vida fala tanto de Petrópolis que temos a sensação de ser uma cidade italiana. Frequenta boas escolas, trabalha em fábrica de macarrão e de cerveja, estão bem instalados quando ocorre a grave doença com sua mãe, obrigando-os a mudar para São Paulo, em 1915. Conhece e casa com Felícia Mônaco, operária da indústria têxtil, em 1920.
São Paulo, bairro do Brás, 1937.
– Feli, veja só como está linda a nossa Joana…
Joana, recém nascida, em setembro deste ano, 10ª filha do casal; com a dolorosa perda do João Batista, se torna a 9ª e última do casal.
– Verdade, Bartho, nossos filhos são muito bonitos, mas, o João…
– Eu sei… Eu sei… Foi uma fatalidade… Com sete meses só, a paralisia infantil levou nosso João…, mas, agora, a Joana, com seu nome, veio amenizar um pouco…
– Mas ele me faz falta…, muita falta…
Numa família de prole bem avantajada, a perda de um filho pode não ocupar muito espaço, com lamentações, na vida do casal. Porém, no caso da Felícia e do Bartholomeu, com o filho mais velho, Vito, apenas 15 anos, cada filho é um pedaço de seu próprio ser e não existe, pura e simplesmente, uma reposição.
Agem e reagem como seres humanos e não como autômatos. Trabalho e preocupações que demandam quatro meninos e cinco meninas exigem de Bartho esforço e dedicação a fim de nada faltar no lar, em suas exigências básicas. Conseguem com que todos os filhos, saem de casa só pelo casamento.
– Medo de trabalho! Não tenho Feli…
– Eu sei, não precisa você me dizer… Passou nosso empório pro seu irmão Santo que, em seguida, o vende pra família Seripieri. Agora, abre um armazém de cereais por atacado na Sta. Rosa, (antigo reduto de atacadistas de cereais, nas cercanias do Mercado Municipal) e convida seu irmão Amílcare pra ser seu sócio?…
– Ele era motorneiro (condutor) de bonde da Ligth, não podia deixar ele assim… E eu preciso de alguém em que possa confiar…
– É… Fez bem, afinal, ele é seu irmão, confiança melhor não existe…
– Mesmo assim, tenho muito que trabalhar, juntar dinheiro pra comprar uma casa maior… Quem sabe, se Deus me ajudar…
Brás – 1939
– Feli, que ano terrível foi o ano passado, nunca vou esquecer, 1938…
– É verdade, Bartho, desde 1922, até esse, em 16 anos perdemos sete membros da família… Sem contar primos e tios, só os mais íntimos…
– Verdade, Feli, no mesmo ano fatídico, perdi meu pai, meu irmão Santo e minha irmã Maria… Mas não podemos encostar o corpo, vamos à luta…:
– As crianças precisam de sapatos, roupas…
-… De escola, alimentação…
– Como te falei Bartho, minha sobrinha Rafaela, pespontadeira de calçados, pode ensinar a Lita a costurar, ela é…
-… Muito pequena, Feli, e depois ela ainda vai à escola…
– A gente tira ela da escola, mulher não precisa de diploma… Aprende a cozinhar, lavar, passar e pronto, o suficiente pra uma mulher no casamento…
Décadas de 40 e 50 – Brás
Essa visão estreita de Felícia, antiga operária da fábrica de tecidos, mas com todos os atributos de uma poderosa, trabalhadora, correta e bondosa mãe, com muito esforço e dedicação, consegue, com seu companheiro, vencer obstáculos difíceis. Na cozinha, imbatível. Nenhuma das filhas chega a completar o primário e dos filhos, o único a ter escola superior é o Vito, formado em contabilidade.
O único consolo para Bartho, quase um erudito, alfabetizado em Petrópolis, que sofre sem poder mandar seus filhos para uma boa escola, exigindo, a contragosto, que todos trabalhassem, mesmo com sacrifício de escolaridade, é que elas, as filhas que ele adora, todas elas, de forma indescritível, não fossem trabalhar fora de casa. Por essa época, o armazém, que dava o suficiente para as necessidades básicas é, no entanto, um meio de enriquecimento para todos os atacadistas da Sta. Rosa, inclusive de seu irmão, Amílcare.
Como um armazém que, no início de suas atividades, quando Bartho convida seu irmão para ser seu sócio, com a denominação de "Bartholomeu Laruccia e Irmão" passa, poucos anos depois a "Irmãos Laruccia" e logo em seguida a "Amílcare Laruccia". O tzi Cicilo, como é chamado, veste-se elegantemente, colarinho engomado, com cinco filhos, constrói sua casa no Tatuapé. Em casa, não há explicação para o fenômeno, algo não está certo. Alguns companheiros de Bartho o previnem de que seu irmão negocia na bolsa, sem prestar contas a seu sócio.
Bartho não acredita, prefere conferir a queda dos negócios e a falta de sorte que tiveram nas vendas das mamonas. Contrariedades, mágoas, dúvidas e dívidas invadem o bem-estar de Bartho e minando seu coração. Problemas das mais variadas origens. Vê seus filhos crescerem, casarem e os netos brotarem como flores num jardim bem cuidado, frutos de uma boa educação. Desliga-se da sociedade onde, como resultado de tanta dedicação, ao contabilizar as perdas e ganhos, sai com as perdas e deixa seu irmão com os ganhos.
Como resultado de uma educação e respeito aos parentes mais velhos, não há nenhuma reação dos filhos, apenas sentimento de revolta. No armazém ficam Amílcare e seus dois filhos, Vito e Modesto, nomes iguais aos filhos de Bartho. Com pouco mais de 60 anos, Bartho procura e encontra um pedaço da área comercial de um bar, a fim de exercer sua atividade que se resume em comprar e vender cereais. Enquanto isso, seu irmão cresce e enriquece.
Numa ocasião, ao passar pelo Parque D. Pedro II, indo trabalhar no centro, Modesto, sétimo filho de Bartholomeu, encontra com o Tzi Cicilo e os dois primos, Vito e Modesto, seu xará, que haviam deixado o carro estacionado dentro do parque e iam ao armazém. Seu xará, na verbosidade petulante dos novos ricos, atitudes cheia de arrogância e cabeça vazia de qualquer raciocínio sobre respeito, chega ao primo, perguntando, de cara, se ele tem contas em banco.
Com a resposta afirmativa, lhe diz: – Cuidado com o nome, tenho contas em vários bancos e não posso ser confundido com qualquer deslize que você possa cometer. Esse mesmo Modesto propicia ao primo, filho de Bartho, durante mais de trinta e cinco anos, ininterruptas visitas aos cartórios, a fim de provar que ele, não é o Modesto da Rua Sta. Rosa. Na madrugada de 14 para 15 de Outubro de 1958, Modesto que mora na Rua do Gasômetro, é despertado por apelo de sua irmã Rosalia que mora com seus pais, na Rua do Lucas:
– Papai está passando mal, chame o Vicente, (outro irmão, morando no mesmo prédio), ele precisa ir para o hospital. Imediatamente, os dois irmãos vencem os cem metros de distância entre os dois prédios. Falam com o cardiologista sobre os sintomas. Pertinaz sede, não há água que satisfaça, a angina dá mostras de manifestação inesperada. Orienta aos dois a aguardarem uma ambulância que o levará ao Hospital São Paulo, na Vila Clementino.
– Quanto à sede, não se preocupem, isso é intestino ressecado, vou orientar o hospital sobre a entrada dele. – Fala o Doutor Longo, o cardiologista que cuida do Bartho.
Essa é a real ocorrência que antecede um triste desfecho. Uma somatória de acontecimentos que colaboram para que esse final, numa sequência de fatos aparentemente corriqueiros, leve aos nefastos resultados que, se tiver que apontar um culpado, seria no mínimo, injusto. Mas, num conjunto pouco harmonioso, cada elo dessa formação, agiu segundo critérios corretos, que resultou, numa tragédia. De início, Bartho sente dores no peito, sinal da angina. A chegada da ambulância demora e o enfermeiro não traz cadeira de rodas ou maca. São sete andares, Bartho tem que descer de elevador, sentado numa cadeira.
Na ambulância seguem Bartho com seus dois filhos, Modesto e Vicente. Motorista e enfermeiro, na cabina da ambulância, seguem, sem nenhuma pressa, batendo um papo, às duas horas da madrugada, sem acionar a sirene, respeitando todos os sinais vermelhos, que, na época, não exigem tanto cuidados, (hoje, abrindo a sirene, mesmo de dia, com o trânsito atual, passam até por cima de outros carros). Gritando, Modesto e Vicente pedem maior velocidade e o motorista diz que não quer provocar acidentes.
Chegam ao hospital, Bartho é transportado para o quarto, aguarda ser atendido. O plantonista diz que já recebeu orientação do médico e "tomará as devidas providências" a fim de amenizar o sofrimento do Bartho. Sempre assistido pelos dois irmãos, o vêem aplicar uma endovenosa, dizendo: – "agora ele vai se reanimar…". Seu filho, Modesto, na sala de espera, recebe um recado da enfermeira, Bartho pede que não se preocupe, já está um pouco melhor.
Modesto, em prantos, não suporta a expectativa e vai ao leito do pai. Este, numa demonstração de sempre se preocupar com todos, esboça um sorriso e volta a ter convulsões. Modesto grita, chamando médicos ou enfermeiros. Aparece outro médico, examina melhor o Bartho e dá um berro, na frente dos dois irmãos "Quem foi que autorizou a injeção de glicose no paciente? Esse homem está em coma de diabete…".
Bartho, um homem que só viveu e sofreu pelos filhos e filhas, correto como poucos. Humilde servo de todos os parentes e amigos, enganado e desamparado por todos, até para morrer teve que ser enganado por… "alguém". Numa trama resultante da somatória de erros e pouco caso, na frente de seu dois filhos, olhando-os, numa despedida sem palavras.
Seus olhos, bem abertos, suas pupilas, como as cortinas de um palco na dramaturgia da vida, descem rapidamente, deixando o branco límpido e aquoso, a anunciar sua saída de cena, sem poder voltar, para receber os aplausos mais que merecidos. Homenagem a meu pai, Bartholomeu Laruccia, no 52º aniversário de sua morte. Aos 68 anos.
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