Uma Homenagem Perdida no Passado

Tenho em minhas mãos uma foto antiga datada de março de 1974, em que eu estou fazendo pose em frente a uma estatua; para ser mais precisa, um busto de alguma personalidade da história do Brasil. Mas, a princípio, não consigo me lembrar onde foi tirada aquela foto e de quem era aquele busto. Forço um pouco minha memória: parece que foi num parque em São Paulo. Mas qual deles? Esforço-me um pouco mais, procurando nas minhas lembranças; afinal, não faz tanto tempo assim, talvez uns 34 anos!

Ironias à parte, vasculho no meu arquivo do passado, ou seja, na minha memória. E assim, como num flash, uma imagem vem à minha mente e, logo após, outra, como num filme super-8, o qual finalmente consigo rebobinar e…

Era um domingo ensolarado. Eu, minha irmã, meu pai e minha mãe tomando o ônibus que nos levaria à Rua Jose Paulino, de onde seguiríamos até o Jardim da Luz, próximo a Avenida Tiradentes. Chegando lá, caminhávamos por toda a parte nas alamedas arborizadas, mas com os nossos olhares voltados para o topo das árvores, pois procurávamos o famoso residente do parque, o bicho-preguiça. Íamos apressadas sem prestar atenção ao trajeto ou transeuntes, o que causava alguns tropeços, esbarrões e algumas broncas de meus pais.

E finalmente lá estava o tal, todo lento e muito modesto em seus movimentos, nem se incomodando com agitação da pequena multidão que sempre se formava para observá-lo. Ficávamos um tempão esperando um mero movimento que fosse, para brindar a nossa visita. E aí, não mais que de repente, ele fazia um pequeno gesto que fosse e ganhávamos o domingo.

No Jardim da Luz também havia o lambe-lambe, o fotógrafo profissional da época, que registrava, pose por pose, quem passasse pelo parque e quisesse registrar a visita aproveitando o cenário bucólico. Ele, lambe-lambe, também era uma atração para nós. Observávamos o seu trabalho minucioso e a paciência dos fotografados.

Na época, o processo de ser "retratado" era quase que manual, o que tornava o ato um pouco demorado; mas dava um tom artístico ao trabalho. Lógico, muito diferente dos dias atuais, em que só um clique da máquina digital e você já tem a foto praticamente pronta no visor. Entretanto, ninguém reclamava de ficar posando para obter o seu retrato. Eram momentos de puro prazer receber o resultado em mãos, ter um momento só seu eternizado numa fotografia.

Assim, passávamos o dia de domingo, entre bicho-preguiça, fontes, lagos e grutas, admirando as belezas naturais do parque e tirando fotos. Não me lembro de ter sido fotografada por um lambe-lambe; lembro sim de meu pai, com sua Kodak em mãos, pedindo pra gente fazer pose em frente às árvores e monumentos.

Ah!! A tal foto que mencionei no começo deste texto, posando em frente a um busto: acho que foi lá no Jardim da Luz. Lembro-me de meu pai pedindo para que pousasse minha mão sobre a estatua; o sol batia direto nos meus olhos e pareço estar de olhos fechados. No meio destas minhas elucubrações, sinto-me envergonhada de não saber de quem se trata, pois, com certeza, na época, fiz a pose e não li a placa, que estava literalmente bem debaixo do meu nariz. Pois se tivesse lido não estaria hoje com esta curiosidade, que está me atormentando.

Antes de enviar este texto, pesquisei em alguns sites de busca para ver se encontrava alguma resposta. E nada! Alguns podem se perguntar por que não vou até o parque – o que adoraria fazer. Moro um pouco longe, acima da linha do Equador, o que dificulta um pouco. Mas, na primeira oportunidade que aparecer, vou lá sim. Valeu a pena ter relembrado este momento familiar lá no Jardim da Luz.

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