Tocando em Frente – As Coisas do Itaim Bibi e Sampa

Passei longo tempo em uma livraria da Editora Saraiva, sentado e sossegadamente folheando a edição do riquíssimo livro comemorativo dos 80 anos de mais um ícone itahyense.

Dia desses, fui até ao Itaú Cultural, na Avenida Paulista, com a intenção de conhecer duas exposições: H2 Olhos e Quase Líquido.

Não me prendi nos assuntos como profissional que sou e especialista em qualidade das águas. Fui para conhecer e admirar a visão de dois desnudantes artistas – se é que é esse o termo a ser colocado quando os mesmos nos apresentam situações concretas e reais, inspiradas e servindo a inúmeras metáforas, transcendendo o tempo e o cotidiano da vida terráquea.

Pareceu-me apresentar-se o elemento primordial e latente. Gaia, com sua potencialidade geradora quase absurda, fecundando com o sangue derramado de um Urano, advindo assim uma gigantesca Sampa, com todas as suas Eríneas e Melíades. Na minha mente, os Titãs, os Cronos, os Zeus e os demais.

Mas Gaia (ou Sampa) é a mãe, e como tal, fecunda-se, faz acertos, acolhe, dá e tira, nutre e depois devora os próprios filhos pós-morte. É a força elementar que dá sustento e possibilita a ordem do mundo. É nesse trajeto das obras que inserções se apresentam com um olhar definido.

Talvez por isso é que o nosso rio, o Tietê, não corra para o mar, visto o seu percurso apontar sempre para o interior, no caso, propondo a união entre todos, nascendo e renascendo, doando e recebendo, quieto ou alagando, mexido e remexido, quase morrendo. Vivendo e se depurando com a arte, a tecnologia e a ecologia. Paralelamente, nos vai mostrando seu quase líquido, numa contemporaneidade gelatinosa e mal cheirosa.

Contrastes, imagens tristes e cruéis.

Percebe-se uma fluidez meio estática, como é o trânsito paulistano por entre suas via terrestres. É a atual condição de sobrevivência de um anterior meandrico, transbordante e perene fluxo atravessando essa megalópole que é São Paulo.

Contudo, li em seus painéis e percebi nas fotos ali apresentadas a intenção de se mostrar não só um estágio – o quase líquido, procurando gravar nas nossas mentes por meio do olhar a necessidade de se modificar. Espero que se modifique o mais rápido possível, para melhor, sempre tocando em frente.

Noutro dia, passei sossegadamente um longo tempo dentro de uma livraria da Editora Saraiva, sentado e folheando a edição do riquíssimo livro comemorativo dos 80 anos de mais um ícone itahyense. Título: Kopenhagen – Marca para Sempre. A publicação conta histórias e memórias da Fábrica de Chocolate Kopenhagen, fundada em 1928 por David e Anna Kopenhagen, figuras eternas e generosas que proporcionaram gostosas lembranças para nós, moradores de, no mínimo, duas gerações do bairro do Itaim Bibi. Entre memoráveis fotos, a jornalista Vanessa Rodrigues narra e descreve inúmeros depoimentos entrecortados de lembranças cuidadosamente aferidas, tudo avaliado sob dados oficiais de uma exaustiva pesquisa realizada. Parabéns.

Prossegui, fui tocando em frente.

Por duas seguidas visitas noturnas, até pela grande quantidade de informações disponíveis, tive a prazerosa oportunidade de percorrer os salões e o enorme jardim do Museu da Casa Brasileira, ex-residência do casal Fábio Prado e Renata Crespi, majestosa construção da década de 40 onde a minha querida avó, Dona Francisca Ferreira, servia como cozinheira de forno e fogão.

Na primeira investida, a surpresa e a oportunidade de conhecer mais uma exposição: Os Segredos dos Códigos de Leonardo da Vinci, pela primeira vez em cartaz na América do Sul e em parceria com o Instituto de Comércio Exterior (ICE), do Ministério do Comércio Internacional da Itália.

Tudo é exposto utilizando os avançados meios multimídia, numa interação em modelos tridimensionais gerados de maneira inédita a partir de desenhos originais, trazendo ampla coleção manuscrita com fascinantes anotações e desenhos do gênio da Vinci. Estão lá seus estudos urbanísticos, em especial da "Cidade Ideal", os projetos de um automóvel (vejam que visionário era esse homem), rascunhos e croquis. São apresentadas fantásticas miniaturas com exatas dimensões de armamentos de defesa, de pontes, fortificações e maquinarias, além de instrumentos musicais, argumentos sobre matemática, geometria, astronomia, botânica, zoologia, mecânica, hidráulica, anatomia e física. Suas pinturas e esculturas ficaram em segundo plano, sem perder o valor cultural e artístico, mostrando a ampla e exagerada atividade criativa, de 1478 a 1518, nos quarenta anos considerados o período mais fértil desse homem ímpar para a humanidade. Merece destaque o estudo sobre o vôo dos pássaros.

No segundo dia, ou no período da noite posterior, deliciei-me com as fotos da exposição Flores e Aves na Paisagem, com noventa e três imagens vencedoras do 13º Concurso do Banco Itaú, retratando a exuberância e a riqueza da flora e da avifauna nacional.

Mas não parei por aí. Pude percorrer o vasto semi-bosque que tantas recordações me traz; o mesmo que, quando criança, tive a oportunidade de visitar por várias vezes, parecendo-me uma enorme floresta. Apreciei gigantescas fotos em painéis estrategicamente distribuídos e iluminados. É a exposição Patrimônio e Paisagem, de Victor Hugo Mori.

Que surpresa. Assisti a uma palestra e participei do lançamento do livro Arquitetura do Cotidiano – A Obra de Ribas Arquitetos: 1920-2007. Por duas horas ou pouco mais, pude conviver com ilustres arquitetos paulistas, nacionais e internacionais, além de ter um agradável bate-papo com o Paulo Zanettini, arqueólogo e itahyense.

Mas não se parou por aí. Dia seguinte, após plaquear algumas árvores identificadas com o nome popular e científico pelo projeto O Verde do Itaim Bibi (parceria formada pelo Departamento de Botânica/USP – AGMIB – Subprefeitura de Pinheiros), acompanhado pelo paisagista André Capetta e a astróloga Carmen Sampaio, fui à OCA/Parque do Ibirapuera, aonde recebemos, graciosamente, da equipe técnica de Divisão de Fauna Silvestre/SVMA, o livro Fauna Silvestre: Quem São e Onde Vivem os Animais na Metrópole Paulistana, com fotos, ilustrações e textos sobre os animais – menos os peixes – encontrados nos parques e logradouros da cidade de São Paulo.

E por falar em parque, vejam as mais recentes fotos do Parque do Povo/Itaim Bibi (no nosso site www.memoriasdoitaim.com.br), bem ao lado de um outro rio, o Pinheiros, que, após sua retificação e canalização, pode ter sua água correndo no sentido contrário, ou seja, bombeada do Rio Tietê, como que sugando o leite materno. Água super nutrida, mas com a finalidade inicial de gerar energia.

Que coisa os seres humanos, como os Ciclopes e os Hecatônquiros, os gigantes de cem mãos, modificando, alterando, tentando destruir, acabar. Seremos nós os Uranos sempre capazes de prever o futuro? As fotos do Parque do Povo foram enviadas pelo colaborador Eduardo Contreiras, mostrando a fase final dos trabalhos de um belo projeto municipal, em parceria com a empresa W. Torre. Espera-se em breve a sua inauguração, porém desde já a comunidade pode percorrer suas sinuosas pistas, contemplando floridos arbustos, árvores frutíferas e ornamentais.

Nas fotos, vêem-se as curvas do antigo percurso do Rio dos Pinheiros – o Jurubatuba -, representadas nessas vias pavimentadas com material reciclado e especialmente preparado. Belo projeto.

Finalizando, conheci no sábado, dia 19/04/08, o projeto Instituto Orlando Villas Boas, e assinei a ata de sua criação, nas dependências da Casa das Rosas. Sob o olhar admirado do índio Cariman, ouvi comovidamente a apresentação do jovem Noel Villas Bôas, filho do sertanista e sobrinho de Cláudio, Álvaro e Leonardo Vilas Boas, sempre paparicado por sua pequena, porém forte mãe, a Dona Marina Villas Boas. Ela, ainda demonstrando aquela magna docilidade ensinada por Ana Justina Ferreira Néri e fartamente aplicada quando atendia seus pacientes, trazidos pelo seu marido Orlando Villas Boas, o cacique branco do Xingu.

De quebra, uma belíssima apresentação da Orquestra Acadêmica da UNESP, sob a regência do maestro Carlos Kaminski. Isso tudo competentemente organizado pela Sra. Rita Alves, poetisa e curadora do evento.

E como diz o jornalista Geraldo Nunes: Viva São Paulo!

“Perdoai-me se fui tão longo. Não tive tempo de ser breve”. (Padre Antônio Vieira)

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