Fui gerada no interior de Minas Gerais mas foi aqui em São Paulo, em 1969,
que nasci. Nasci em 1969, em Lauzanne Paulista, na Zona Norte da cidade.
Morei nesse bairro até os cinco anos, sendo assim minhas lembranças são
confusas, obscuras. Em 1975, meu pai ganhou um terreno no Itaim Paulista,
extremo leste da cidade.
Lá passava horas na rua. De pé no chão, brincava de esconde-esconde,
amarelinha, jogo de pedrinhas (agora sei que em alguns lugares chamam de 5
marias), corria atrás de vaga-lumes, e ficava até tarde contando estrelas
porque diziam que nasciam verrugas na ponta dos dedos.
Na escola me sentia muito bem, meus pais falavam "grupo" mas seu nome era
Capistrano de Abreu e era motivo de orgulho estudar em escolas do
governo.Fui uma aluna de destaque, com as melhores notas, recebi até um
prêmio do prefeito em 1980.
Na adolescência, dei um passo para São Miguel, também na Zona Leste. Com os
novos amigos, passei a descobrir a cidade, em 1985 fui pela primeira vez ao
cinema, no centro, um daqueles entre a São João e a Ipiranga, que hoje só
exibem pornografia.
A partir dessa época, passei a andar a pé pela Paulista, fazia teatro na
Rodrigues Alves e freqüentava os bares antológicos no Bexiga.
Tanta liberdade me levou a perceber que Itaim Paulista era muito longe e,
após a formatura no colegial, fui dividir apartamento com uma conhecida no
bairro de Santa Cecília. Ali me sentia muito paulistana, insuportavelmente
dona de mim, nariz empinado, trabalhava no Bradesco (agência do Jardim
Paulista) e achava que tinha vencido na vida. Bastava tão pouco para me
fazer feliz. Nessa época eu vivi a vida cultural de São Paulo: os bares, as
boates, os cinemas, muito teatro, a boa comida, toda a diversidade cultural
que simboliza nossa cidade.
Com minha entrada na faculdade em 1990 (no bairro do Ipiranga, Zona Sul)
minha rotina passou a incluir visitas museus, concertos e shows musicais. No
mesmo ano eu consegui ouvir Beethoven no Teatro Municipal, Kid Abelha no
Projeto SP e Tom Zé na Oficina Três Rios, são grandes oportunidades para
crescer estética e criticamente.
Nesse mesmo período da faculdade, fui trabalhar com uma amiga em animação de
festas infantis e a transitar pelos Jardins, Morumbi e Higienópolis.
O mais incrível nesta cidade é que você convive com a desigualdade social
diariamente. Você consegue, por exemplo, sair de uma livraria de origem
francesa e tomar um caldo de mocotó na mesma esquina. Esquinas
enriquecedoras.
Em 93 me casei e voltei a morar no Itaim Paulista, mas ficava longe dos
locais de trabalho. Assim começou nossa peregrinação. Mudamos para o
Aeroporto na Zona Sul, não nos adaptamos, e depois para o Tatuapé,Zona
Leste, finalmente, Vila Mariana, com características do Centro e da Zona
Sul.
São Paulo é uma ilha, cercada ilusões de todos os lugares.
São Paulo tem todas as possibilidades, você pode viver qualquer história em
aqui. Basta continuar sonhando, construindo, se iludindo.
Eu gosto muito de viajar mas quero explorar novos caminhos em São Paulo.
Quem sabe a Zona Oeste por exemplo?