Uma história dos meus tempos de missionário leigo

Em 1984 eu já havia deixado a vida artística há nove anos, depois de ter participado de um encontro espiritual católico muito famoso na época, conhecido como Cursilhos de Cristandade. Fui levado ao mesmo, pelo saudoso amigo e colega falecido no ano passado, Neimar de Barros, antigo produtor do programa Silvio Santos, e autor do Best Sellers Deus Negro, na época com mais de dois milhões de exemplares vendidos.

Eu juntamente com o Neimar e mais alguns companheiros, passamos a nos reunir semanalmente na Igreja da Consolação em São Paulo, para reflexões bíblicas e trabalhos espirituais no Pronto Socorro Espiritual, que atendia no local, das 21h até às 5h da manhã. Atendia viciados em álcool, drogas e prostituição, já que o local no inicio da Rua da Consolação ficava em frente à chamada Boca do Luxo (que na realidade de luxo não tinha nada).

Fazíamos também mensalmente visitas ao pavilhão Fernandinho que funcionava na Santa Casa de Misericórdia perto do Largo do Arouche onde levávamos consolo espiritual, com música e humor aos pacientes ainda crianças, ali internados.

Desse trabalho nasceu o CAC – Comunidade dos Artistas Cristãos, e que depois se tornou o atual, Instituto Meac – Missionários para Evangelização e Animação de Comunidades, trabalho esse que me levou a visitar perto de cinco mil cidades do Brasil e outras cinco nos Estados Unidos da América.

E assim para encurtar esse papo, naquele março de 1983, saímos de São Paulo eu e o meu querido companheiro Urbano Medeiros (saxofonista dos bons) potiguar nascido em São João do Sabugi, no Rio Grande do Norte e recém-chegado a São Paulo. Saímos de São Paulo precisamente da Rua Américo Brasiliense, 891 – em Santo Amaro, nossa sede, para fazermos um roteiro de cidades pelo sul do Brasil. Teve inicio em Curitiba passando por Jaraguá do Sul, Blumenau, Caçador, Florianópolis, Torres, Porto Alegre, São Leopoldo, Caxias do Sul, Mafra, Rio Negro e Registro, Já de volta ao nosso estado, depois de 15 dias de viagem visitando e fazendo animações missionárias em várias paróquias de diversas dioceses do sul do Brasil.

A viagem foi maravilhosa, éramos muito bem acolhidos pelos padres e leigos das comunidades citadas. Viajando com meu Fiat 147 0K, modelo Europa (verde oliva), já estávamos quase chegando a Porto Alegre, pela famosa FreeWay tendo o meu companheiro Urbano na direção, e então, logo depois de cruzarmos com um policial que fiscalizava o trânsito naquele local, paramos o veículo sob uma bela sombra, já que o carro não possuía ar condicionado e o sol era uma lua cheia ao meio dia.

Como eu já conhecia bem a capital gaúcha, resolvemos trocar o motorista, o Urbano deixou o volante, saiu do carro deu a volta pela frente do mesmo e entrou pelo lado direito, enquanto ao mesmo tempo eu passava para o banco do motorista, sem sair do carro, pulando por cima do cambio e o freio de mão.

O policial desconfiou da manobra (depois fiquei achando que ele imaginou que o motorista habilitado, depois de passar pelo policial, resolveu sem correr riscos de ser multado entregar a direção para o companheiro não habilitado). O policial chegou de mansinho ao meu lado e no lugar de pedir a habilitação do meu companheiro que até então estivera dirigindo, pediu a minha que acabara de ocupar o lugar do motorista.

Chegou e fez delicadamente a clássica exigência:
– “Boa tarde! Por favor, a habilitação e os documentos do carro”.

Levei até certo susto, havíamos acabado de passar por ele há menos de dois segundos e o mesmo não nos parou, e agora em um abrir e fechar de olhos estava como por encanto postado ao meu lado.

Entreguei os documentos do carro e argumentei que quem estava dirigindo era meu companheiro, qual era então o motivo, da exigência de averiguar minha CNH.

Ele então ironicamente falou que notou que nós havíamos trocado de lugares e que ninguém faria isso caso não fosse para em seguida dirigir, a não ser que se tratasse de um maníaco.

Dois meses antes, eu havia feito exame de vista para atualizar minha carteira de habilitação, que estava para vencer e perder a validade, e ao retira-la no Detran eu coloquei a nova na minha carteira, junto aos outros documentos, e a velha e vencida coloquei no porta luvas do carro. Na hora de entregar a habilitação sem perceber dei a habilitação vencida para o policial.

Ele deu uma rápida olhada no velho e vencido documento e com um sorriso vitorioso, olhou para mim e disse.
– “Amigo, esta carteira não tem mais valor, ela encontra-se vencida”.

E eu com um sorriso muito mais vitorioso ainda disse-lhe, pegando a carteira nova:
– “Desculpe senhor policial, eu dei essa vencida por que eu não estava dirigindo, se eu estivesse dirigindo eu teria era dado esta”. E entreguei-lhe a minha nova CNH atualizada.

Meu companheiro ria tanto e tão alto, que eu comecei a ficar preocupado em acabarmos detidos por desacato. Mas felizmente o policial era gente boa e também achou graça e ainda desejou para nós uma boa viagem.

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