Nos idos das décadas de 1940/50… Moramos no Braz, Rua Alfândega, 197, travessa da Rua do Gasômetro. Minhas queridas irmãs, Maria (Mariuchinha) e Carmela (Lita), ambas vivas, graças a Deus, 89 e 87 anos, trabalhavam em casa, pespontadeiras de calçados. Pra dar uma pálida ideia do que vem a ser esse tipo de serviço, a fábrica de calçados fornece os cortes de couro e pro forro: couro de porco (carneira) cru, (curtido, mas não tingidos, nosso amigo colaborador Navarro sabe do que estou falando) e a manipulação consiste, de início, em desbastar as bordas das peças.
Simplificando, as peças tem seus nomes próprios, não sei ainda se é usada estas expressões. A parte da frente do calçado é a "gáspea", se o calçado tem bico é "biqueira"; a parte de trás é o "cano". O trabalho delas, depois do desbaste (ou escarnir) em toda a volta do cano, passa-se a cola benzina,(trabalho meu), deixa-se secar e depois vamos "dobrar", com martelo próprio de sapateiro. A borda escarnida ou desbastada com faca própria, em cima de um pedaço de mármore, manipulada no sentido bem horizontal, afina-se a borda com muito cuidado; se você tirar demais, estraga a peça; se tirar de menos, fica muito grosso pra dobrar.
Com a cola seca, começa-se a "dobrar" (olhando vosso sapato, vocês vêem que o couro do mesmo não termina no corte, ele é dobrado) e depois, o forro de carneira dá o arremate final. Quando o forro é pespontado, sobra uma rebarba, precisa ser refilado, esse é meu trabalho, também. A tarefa final é unir a gáspea com o cano, não esquecendo de colocar a lingueta.
Sempre ajudo minhas irmãs, elas têm duas máquinas de pespontar "Singer" chamadas de "esquerdas", por terem suas "cabeças", uma em cima e outra em baixo, no lado contrário às máquinas de costuras comuns, com pedais (não tinham máquinas elétricas), sapateiros remendões ainda usam. Em contato com a cola benzina, nunca me "apaixonei" pelo odor do querosene do qual é fabricado.
Trabalhando em casa, têm a falsa impressão de estarem bem acomodadas, sem chefes de seção, ninguém cobrando mais rapidez e com mais apuro. Ledo engano. Minha querida e santa mãe fiscalizava todos os movimentos das duas.
Depois que enviuvou, meu avô, Papê,(Vincenzo Mônaco), pai de minha mãe, veio morar conosco. Era o capataz: se alguma delas demorava no banheiro, atendia alguma visita, um telefonema, ele, o Papê, já "caía" em cima delas: "Pi mange nu picta de pene, este semb a parle, quiaquere, angaure e subti pi lu cafê, dinge a dna. Mari que steme a fatg” e assim por diante (tradução: “Pra comer um pedaço de pão, está sempre conversando, bobagens, anda logo para o café, diga a Dona Maria (nossa vizinha) que estamos trabalhando!”. A filosofia de pescador no Adriático, influenciado pelos sarracenos e gregos, ele aplica nelas.
A Lita e a Mariuchinha já estão noivas e os dois noivos podem dormir (dormem até hoje, já são falecidos) sossegados que a vigilância de minha mãe. Minha mãe é implacável: filhas dela com compromisso assumido, não põe o nariz na rua por nada, a não ser pra dentista, ou levar o serviço pronto pra fábrica e trazer mais.
A Lita com o Mario só iam ao Cine Glória se eu for junto, "segurar a vela", por ordem da Dna. Felíci. Eu gostava de ir, afinal, o Mário, o noivo, me comprava só uma pipoca "americana" pra dividir com a Lita. "Durango kid" dos piores.
Nos dias que seguem, a distração das duas são as radionovelas, principalmente da Rádio São Paulo (Ênio Rocha, Oduvaldo Viana, Nara Navarro e tantos outros de saudosa memória). A novela do momento, com um sucesso sem precedentes, é a "Renúncia", cujo prefixo e fundo musical, lembrado até hoje, é a abertura da ópera "La Traviata". O patrocínio da novela é da "Marmelada Branca Marca Peixe".
As duas pedem ao meu pai que compre uma lata de marmelada Peixe, abrem a lata e, quando o locutor começa o anúncio, realçando as qualidades do produto, elas cortam nacos do doce e vão saboreando, enquanto durar o comercial.
A simplicidade e a submissão a que são submetidas minhas irmãs é o reflexo de uma educação, não direi rígida, mas bem norteada. A época era aquela, o trabalho em casa é reflexo dos receios do que um serviço fora de casa pode causar.
Hoje, as duas com essas idades, lêem de tudo, livros, jornais, revistas. Vou mostrar a elas este texto. Vão gostar.
Presto esta homenagem as minhas queridas irmãs, Mariuchinha e Lita.
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