Uma esquina: meu mirante particular da cidade

No caminho percorrido pelas ruas do bairro do Limão, na minha infância e adolescência, a esquina das ruas Carolina Soares e Leonor Barbosa, rua em que morava, se tornou um local muito especial pra mim. Sendo este o ponto mais alto na topografia do bairro, aquela esquina me proporcionava uma tomada cinematográfica do horizonte. Não importava se estava indo ou chegando na minha rua; sempre dava uma parada ali para observar a paisagem.

Com esta privilegiada localização, quando se olhava para o lado oeste, em direção ao final da minha rua, avistava-se um longínquo Pico do Jaraguá, e para o Sul, a quilômetros de distância, avistava-se a Avenida Paulista, seus edifícios e a altiva antena da Gazeta. Nesta discrepância de imagens, tenho, de um lado, a beleza natural "produzida" pela mão divina, que me enche os olhos; do outro, a visão da "criação" pelas mãos humanas, sem dúvida uma outra forma de beleza, mas da mesma forma reverenciada.

Este panorama que se desvendava a minha frente sempre me deu a sensação de que o tempo estagnava e, por um minuto, me sentia suspensa do corre-corre diário, proporcionando uma calma interior.

Na chegada do trabalho, quando descia do ônibus à tardezinha, na hora do lusco-fusco, a paisagem era ainda mais exuberante. As luzes cintilantes da fileira interminável de prédios brilhavam ao longe e, em contrapartida, o pôr-do-sol no pico também apresentava seu espetáculo.

Numa espécie de voyer da cidade, este "mirante" particular mostrava-me uma visão única e completa destes símbolos da conexão entre homem-divindade.

Hoje, pergunto-me o porquê de nunca ter tirado uma foto daquela imagem. Talvez não conseguisse transpor num papel fotográfico toda a gama de sensações e traduzir cada momento mágico que vivenciei. Contudo, às vezes fecho os olhos e aqui de longe posso revê-la.

Caetano Veloso enalteceu a São João com a Ipiranga; Fernando Pessoa, o rio de sua aldeia. E eu? Eu enalteço a poética paisagem que via do alto do morro, na esquina das ruas Carolina Soares e Leonor Barbosa. A poesia do lugar se faz aonde a gente coloca o coração.

e-mail do autor: [email protected]